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quarta-feira, 7 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 14

O MÍTICO MORRO
DA PEDRA VERDE
No dia cinco de Abril do longínquo ano mil novecentos e sessenta e três, todo o Batalhão espalhado por Fazendas na vasta região dos Dembos, a norte de Luanda, deixou essa zona de intervenção, para depois de cumprido ali o tempo de guerra, se ir instalar mais a sul, onde o serviço era destinado apenas a salvaguardar, com a sua presença, a soberania portuguesa no território, enquanto se ia dedicar a uma acção psico social mais calma.
A verdadeira aventura do Onofre, começou logo nessa manhã, no corredor entre o Tari e o Mucondo, num sítio onde se evidencia uma curva, a ideal para os terroristas da UPA planearem uma emboscada ao Esquadrão, de modo que durante quarenta e nove minutos, estalaram inúmeros disparos, por parte das tropas atacadas em movimento.
Pela única vez o Esquadrão se viu envolvido num ataque de tal envergadura. A estrada tomava o aspecto de uma verdadeira batalha, em que o armamento disponível era desusado, mesmo para o tipo de guerrilha a despontar, já que era o proveniente da substituição, composto por Mausers e metralhadoras ligeiras.
Onofre, especialista em metralhadoras pesadas, do que sempre fora acompanhado, foi com certa surpresa, a destreza evidenciada, primeiro com uma espingarda Mauser, depois como ajudante de uma ligeira, já que o respectivo apontador, a trabalhar individualmente com aquela arma, por muito bom que fosse e provou-o, a funcionar como atirador e a municiar, não podia extrair o rendimento devido.
A nova dupla acabou por funcionar em pleno. Parecia que tinham treinado juntos a acção, pois o fogo a sair do cano da arma passara a ser muito denso.
O ataque acabou por ser mais longo do que o conhecido, usualmente, em que a técnica usada era o "bate e foge"!
Aquele, porém foi muito vasto, porque era a retaliação reservada ao 297, uma vez que o Esquadrão tinha sido considerado, pelo inimigo, como inacessível, ao poder militar da força terrorista da região.
Ao avaliar os estragos, houve quem subisse de novo às camionetas e ainda visse fugitivos muito ao longe, a lei da balística contrariava as hipóteses de os atingir, não obstante ainda saiu bastante tiroteio, á mistura com contundentes imprecações direccionadas aos "turras" em debandada.
Aconteceu uma verdadeira tragédia de guerra, que se irá contar sem truques de ficção, como é recorrente desta narrativa.
Começa pelo Comandante do Esquadrão, Alves Ribeiro, a subir à camioneta civil, principal acidentada, porque terá entrado na zona mais nevrálgica, atingida por uma granada incendiária. Transportava
Onofre sempre atento a todos os pormenores, que alcançasse pôde testemunhar esse verdadeiro acto de bravura, deixando assim de ficar ignorado, como muitos outros o foram nas últimas campanhas militares, que a juventude protagonizou durante cerca de treze anos em África.
Foi uma grande odisseia este cinco de Abril, porque se passava o dia mais marcante em más recordações, para todos os intervenientes do Grande Esquadrão. Transportava apenas sacos de campanha e algumas, Mausers.
Quando ainda não havia total conhecimento da dimensão da batalha, em relação à força militar, de outro lado, pode considerar-se actuação de bravura a do soldado Dimas, que com as muitas imprecações evidenciadas, a esvair-se em sangue dos membros inferiores, continuava a disparar, tiro a tiro, com a sua Mauser, em ritmo frenético no abre a culatra, fecha a culatra e dispara.
O Dimas, já depois de passada a mobilização, ainda se encontrava em Lisboa, a receber tratamento no hospital militar, o que aconteceu durante muito tempo, acabando por ficar com um certo grau de invalidez.
No terreno, muitas observações podiam ser apontadas. O transporte era efectuado por viaturas alheias a serviços de guerra, em campanhas militares. Não obstante a Companhia de Transporte Militares Elefante, que também participava, com camionetas blindadas, ostentando o paquiderme como emblema, a torná-la muito conhecida nos meios.
Debaixo de um desses, um furriel pertencente, com o bronzeado de verdadeiro veterano, manejava a sua arma automática com grande destreza e a escorrer muito sangue pela testa. O Onofre quase lhe rezara pela alma, mas felizmente não era caso disso.
Verificou-se que tinha sido atingida, mas só de raspão, o suficiente para sangrar e o deixar marcado por levíssimo ferimento sem consequências.
Um sargento falava para um gravador as suas impressões relativas ao momentoso acontecimento.
Perto, o Onofre sempre acompanhado dos inseparáveis papéis e caneta, também tomava as suas notas, para quando possível, adicioná-las ao seu Diário.
Com razoável rapidez chegaram meios aéreos, já desnecessários, mas não deixando de marcar presença com o despejo de alguma artilharia.
Chegou a altura de conferir, não só a devastação, mas tomar conhecimento de outros casos, como o espantoso do Alípio, atirador cuja formação profissional e dotes foram aproveitados para tarefas administrativas.
Por não ter chegado a pertencer à tropa de guerra, foi-lhe destinado lugar ao lado do motorista numa viatura civil. O condutor foi abatido, ao atirar-se para o chão.
Presume-se que o lado do Alípio também estava no ponto de mira - abria a porta e seria mais uma baixa mortal. Tal não aconteceu, o militar mostrando um coeficiente de inteligência muito elevado, saltou para o lado contrário, ainda que, por cima do cadáver.
No momento seguinte a outra porta da mesma viatura, que não se abrira, foi cravejada de balas!
Anotadas as respectivas baixas, cifravam-se em seis mortos, entre eles o condutor civil e doze feridos.
Reparadas as viaturas acidentadas pela violência, eram quatro horas da tarde, o pessoal apenas tinha ingerido um madrugador pequeno-almoço e assim foi retomado o rumo.
Uma viatura transportava os cadáveres a sepultar na Fazenda Mucondo, os feridos já tinham sido evacuados, por helicóptero para o Hospital Militar de Luanda.
O dito - " um mal nunca vem só" - nunca terá sido tão bem adaptado. Depois de tudo resolvido reiniciara-se a marcha e por ser época de tempestades tropicais, desatou a chover e ao contrário do habitual, a chuva, durou até ao dia seguinte, o que causava enorme lentidão dos transportes.
A certa altura, chegou-se à ex povoação do Quicunzo e houve necessidade de ser mudada a estratégia da progressão.
Em resultado, a viatura que transportava a esmo, os corpos dos falecidos, passou a formar uma coluna avançada, com escolta própria a que foi adicionada uma outra força, incluindo o próprio Onofre, que nessa noite de seis de Abril, ainda esteve em movimento, andando apenas alguns quilómetros, até se chegar á fazenda Bombo, onde se esperou pela restante componente daquele movimento militar.
O Onofre, mesmo sempre debaixo de chuva, talvez por estar esgotado das muitas emoções, dormiu profundamente, na camioneta civil de caixa aberta, em que viajava armado, no serviço de guarda aos cadáveres.
Chegada a coluna, que tomara a dianteira, à grande cantina da Fazenda, cessara a chuva e a vontade de ingerir alimentos, em virtude de prolongado jejum até os produtos menos atraentes se esgotaram, pelos componentes daquele grupo avançado, que acabou por ignorar o conjunto das muitas unidades militares que o antecediam.
Com a melhoria, evidente das condições atmosféricas, após ser feita a junção das tropas naquela Fazenda.
Foram então os feridos evacuados e a coluna passou a seguir de novo unida até ao próximo acampamento militar, o Mucondo, onde estacionara um outro esquadrão da mesma Cavalaria.
Já a sete de Abril os mortos, com a assistência militar disponível, ficaram ali sepultados.
De seguida, foi retomada a ida para o Grafanil - Luanda.
Aquela viagem de tragédia, iria passar por estrada alcatroada, trabalho de engenharia militar, coisa que durante treze meses esteve vedada à maioria dos militares que compunham a coluna, como se estivessem a entrar no éden do planeta terra.
Rumando em estrada pavimentada, logo quase de inicio, deparou-se à esquerda o morro da Pedra Verde, agora pacificado e altaneiro, como um ícone dos alvores do terrorismo, tomado nos mesmos tempos, com os foros de heroicidade e a mesma euforia verificada com a reocupação de Nambuangongo.
No mesmo dia, finalmente, por todo o Batalhão perpassava a alegria do regresso a conhecidas terras de Luanda, capital da Província.
Ia dar-se começo a nova fase da grande aventura do Onofre.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA