quinta-feira, 14 de agosto de 2008

POEMA EXCLUVISMO

ESCLUSIVISMO

Há inúmeras manias
Por vezes são fantasias
Tenho a minha bizarria
Delas falaram-me um dia
No momento uma tara definia
Desde então sempre a revia
Falar dela me comprazia
Talvez devido ao novo século
Que chegou um dia
Do anterior não ficou dor
Não ficou desamor
Questiono se fiz
Se a conjuntura o fez
Algo de exclusivismo
Anotei uma vez
Aos dezasseis anos
Ganhar jorna de homem
No Casal Torneiro
Terá sido favor que um deus fez?
Aventura, força de querer, sensatez?
Estimulante talvez
Porque cavei
Acima da média, a jorna, ganhei
Em três concelhos do Oeste
Peniche. Bombarral e Lourinhei*
No campo, de sol a sol trabalhei
Na guerra de Angola
À coordenação do rancho cheguei
Em Lisboa, trabalhando, estudei
Nos trabalhos dirigi e coordenei
Que mais sei?
Ou por outra, quanto mais observo
Quanto mais procuro, menos sei
Mas este é o meu tempo
O de me achar com direito
A alimentar a mania
Da exclusividade do dia


* NOTA: O EI era muito, da fala popular,
do meu Oeste natal.
Aqui refere Lourinhã.


Daniel Costa

terça-feira, 12 de agosto de 2008

LISBOA CAFÉ - 11

NO DAFUNDO

Num dia de Junho de 1968, depois de vários testes, João Moisés conheceu o inolvidável privilégio de entrar a trabalhar na empresa gráfica BERTRANDO & IRMÃOS, nas instalações do Dafundo. A mesma tinha Sede em Lisboa na Travessa da Condessa do Rio, na freguesia de Santa Catarina, onde teve toda a sua actividade durante bastantes anos.
Ter pouco mais de três anos de preparação no seio de uma empresa essencialmente de zincogravuras e logo ser colocado num departamento administrativo comercial do mundo gráfico, como uma fábrica da dimensão daquela, talvez a maior do género do país, com secções de tudo o que àquela arte diziam respeito, podia ser considerado um grande feito, por quem tinha ainda havia tão pouco tinha deixado de ser trabalhador estudante, objectivamente para se valorizar.
Ainda por cima teve de provar a um examinador credenciado estar apto para o cargo!
Era também uma oportunidade, para conhecimentos mais profundos e para prosseguir a veia policial, que lhe estava consubstanciada na alma.
Foi-lhe atribuído um gabinete que passou a partilhar com um outro colega, numa estrutura composta por um director comercial, o Dr. Brás Monteiro, um chefe de secção com a sua sala própria, para receber clientes mais sofisticados, ou para tratar de assuntos normalmente complicados, mais dois colegas na sua própria sala e uma estrutura, com secretariado de apoio, de que faziam parte uma jovem senhora e um paquete.
Depois havia os chamados serviços comerciais, compostos por homens de vendas, com a sua carteira própria, também secretariados, que ficaram sempre no que se designava Sede em Lisboa.
Só aqui estava já uma grande estrutura, depois havia toda a produção no Dafundo. A Direcção tinha no comando o Dr. Manuel Metello, proveniente da empresa Celsa, concessionária das listas telefónicas, que só a BERTRAND & IRMÃOS teria capacidade de executar.
A referida firma de origem brasileira, adquirira a gráfica, cuja produção se propunha expandir para o estrangeiro, contando já com um elemento da Hungria, a viajar por vários países.
No fundo, João Moisés parecia ter um mundo para trabalhar, tudo começou duma forma aliciante, nem ele mesmo, alguma vez ousara sonhar com tão boas condições, tanto mais que em breve tinha conquistado o apreço de todos, não só com quem tinha de relacionar-se por inerência, mas também com outros, pelo menos os do se nível, pois eram esses os interlocutores naquele trabalho, que visava estabelecer a ponte entre o cliente e as chefias das secções, por onde passava cada obra.
O núcleo já apontado, tomara por essa razão o sugestivo nome de CONTACTOS e tinha de ser por ali que passavam todas as obras a executar.
Nos dois gabinetes, aos quatros cabiam outros tantos pelouros em separado; trabalhos provenientes de editoras de livros, de revistas, de agencias de publicidade e do estado.
Tudo corria bem a João Moisés pois calhara-lhe no sector de livros, o que mais gostava, tinha sido um feliz acaso.
Mal tinha ocupado aquele trabalho e logo se deu em Lisboa, na Feira Internacional, à Junqueira, a FILGRÁFICA um grande certame internacional de Artes Gráficas, a que a empresa BERRAND & IRMÃOS, como grande empresa que era, tal como se afirmara no panorama nacional e tentando expandir-se internacionalmente, não se podia alhear.
Concorreu com o seu Pavilhão e nele dispunha de uma equipa, composta de uma senhora que agenciara, um homem de vendas e outro dos CONTACTOS, a dupla comercial era revezada diariamente, como era óbvio.
Logo num dos primeiros dias, foi a vez do João Moisés a quem calhou, como companheiro o Rodrigo (que veio a revelar-se fadista de nomeada), teve a oportunidade de ouvir bastante das suas aventuras, ficando a conhecer logo a sua fascinante personalidade humanística.
Seguiram-se inúmeros e variados trabalhos, como facilmente se pode calcular: Uma das entidades que primeiro chegou com obras ao cuidado de João Moisés foi Selecções do Reader’s Digest. Manuel Bertrand, um dos Directores de vendas, veio-lhe apresentar João Bruno, da produção daquela empresa. Seguiram outras como Palirex, a Íbis, a Meridiano, a Aster, a Francisco Franco, a Férin, a Início, a Galeria Panorama, a Branco e Negro e outras, quase todas desaparecidas na voragem dos tempos.
Muita gente de nomeada foi conhecida ali e não obstante os anos passados, alguns amigos do tempo perduram, não só colegas de trabalho, como propriamente outros que representavam clientes.
As boas memórias, os livros autografados, obras interessantes manuseadas e guardadas, são testemunho importante de como chegou a disfrutar de um ambiente de trabalho de excepção.
Embora a administração tenha criado condições sociais invulgares para os operários, como por exemplo a duplicação de subsídio para os filhos, aqueles tinham sempre de, na portaria mostrar as pastas, que normalmente serviam para transportar a refeição, ou roupas apropriadas para a laboração.
Sobre trabalhos e evolução dos mesmos, reparos haveria a fazer, porque naquele ano de 1968, entravam ali operários a mais e mesmo assim, faziam-se muitas horas extraordinárias, que tinham de se considerar fora de necessidade, o que já era recorrente no meio gráfico.
Os próprios chefes pactuavam com a situação, porque estando isentos de horário, abandonavam funções a horas laborais certas, senão mesmo antes, sem nunca curarem de deixar alguém responsável, nem cobravam a ineficácia, no dia seguinte. Parecia agradar-lhe a situação, que na maioria dos casos funcionaria, como dado adquirido.
Quem trabalhava, de perto com os clientes sofria com tal desiderato, queixar-se seria perda de tempo, porque parecia descurar-se a manutenção do posto de trabalho, mesmo naquele tempo, ao invés de o estar a transformar mais próprio para um asilado.
O que devia ser considerado um meio altamente social a preservar, por todos os meios, como o deve observar-se em qualquer empresa.
Apesar de tudo, continuava a correr de feição no sector administrativo intermédio.

Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

domingo, 10 de agosto de 2008

POEMA SENHORA DA BOA VIAGEM

SENHORA DA BOA VIAGEM

Na varanda marquei Peniche e Berlenga
Posso parecer tolinho alucinado
Explico, haverá quem entenda
Se o vento sopra do norte
Olha-se a ilha levanta-se a tenda
Não chove, vê-se longe a Berlenga
No campo semeia-se o trigo
A ausência de chuva não será lenda
Do rural campo vem o pão
Do mar da vila o peixe
Depois vem o Verão
Todos em festa agradecem a Deus
Da Senhora da Boa Viagem a intercessão
Junto ao mar, no Alto da Vela
Ali à beira o gozo e a diversão
Festa e folia, pois então
No alto mar passará a procissão
Nos barcos, muitos vamos entrar
Fazer a viagem de adoração
Olhem-nos todos engalanados!...
Flâmulas e miríades de luzes
Nas águas reflectem um vistão
Seguem perfilados, passando o Carvoeiro
A meio percurso da Berlenga
Viram, como apontassem à Consolação
Num segue o andor com a Senhora
Ali vai Soberana, como protectora
Num outro a banda, tocando
Fazendo solene a ocasião
Já no cais a apoteose, com grande animação
Fogo de vista aquático e a emoção
Embevecida a Senhora da Boa Viagem
Também preside e pensará:
Adora-me este povão!...

Daniel Costa

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

LISBOA CAFÉ - 10

RUA DO SÉCULO

Apesar de tudo, o João Moisés mostrando, em muitas ocasiões o seu desagrado, foi descendo a longa artéria a que o Século, jornal de boas recordações, deu nome.
Enquanto ia respondendo a anúncios de emprego, em que se especializara outro matutino, o Diário de Notícias, que já saíra do Bairro Alto, deixando também a grandeza do seu título a denominar a respectiva Rua.
Uma vez que também agora havia uma acalmia no trabalho, talvez em virtude de as obras em tipografia, estarem aos poucos a declinar, por causa do avanço do offset, que dispensava zincogravuras e ainda porque o jornal A Capital, se foi instalar em edifício próprio, constituindo oficina, as horas extra deixaram de existir. Por outro lado o João já não tinha de perder tempo com ideias namoradeiras, tratou de cumprir um velho sonho, ter uma segunda ocupação, aquilo que se denominava um biscate.
Seguindo a sua intuição, tornou-se agente de seguros de vida, para uma companhia estrangeira. Tendo conseguido algum êxito, depressa passou a receber informações respeitantes a possíveis segurados, para trabalhar, do que ia tirando resultados, porque havia regular formação específica e sendo caso disso chegava-se a um acompanhamento por peritos.
Com a evolução produtiva, o responsável do núcleo tinha autonomia de fazer subir ao escalão do interessante factor comissões, afinal o sistema de remunerações, o que era estimulante. Estava a ser atractiva a actividade, por proporcionar mais contactos e a entrada num outro mundo sociológico.
No seguimento desse campo de acção, deu-se início a um novo tipo promocional, o de convites, para a presença em jantares com os próprios administradores, onde se podiam, em conversas, versar todos os assuntos e também seguros de vida. Normalmente terminava-se num “Pub”, onde uma bebida era o culminar de uma agradável sensação do dever cumprido.
Pode-se concluir um grupo de pessoas de profissões distintas, assim como de interesses pessoais diversificados. Num desses encontros um elemento mostrou cultivar o estudo da personagem, pela leitura das linhas da palma da mão.
Fazia-o apenas na perspectiva do entretenimento, João Moisés, afinal só acreditando no positivo mental, nunca deixava escapar qualquer ocasião que se lhe deparasse entrar na área do exotérico, dando a mão ao estudo do colega, teve a “revelação” de que trilhava um caminho de sucesso mas, nesse campo, as respostas a questões eram sempre inconclusivas, pelo que achou esse mas, a palavra adequada, para um final certo da conversa.
Não sendo crente, nem de longe das teorias, como cartomancia ou outras leituras, signos, etc. todas estavam no seu rol de bruxedos, nunca deixava de observar, nesse sentido, tudo o que lhe viesse estivesse à mão, como por exemplo o pesar-se naquelas balanças, que se encontravam das estações de comboios ou do metropolitano. Davam o peso de cada individuo, julgo que impresso no momento, num cartãozinho, rectangular com a efígie de um artista de cinema, em voga, no mesmo aparecia pré impressa uma sina, que mesmo sabendo-se aleatória, lhe merecia um estudo cuidado.
Tudo isto era visto com uma ideia contrária, tal como considerava o negativismo como uma vertente da fragilidade humana.
Todos estes pormenores traziam motivação superior, como se pretendia. Efectivamente os tempos livres eram preenchidos com anotações em fichas e outros impressos, que podiam vir a interessar na conversão de novos segurados.
Havia trabalho em permanência, como visitas aprazadas ou não, em horário pós laboral, inclusivamente em dias de Domingo.
Uma dessas saídas, para vários encontros, deu-se na Amadora e depois em Queluz, sendo regresso a casa feito a pé mais uma vez recordando e vivendo a ainda recente travessia pela Calçada do Monte.
Fora feita a longa viagem, sem custos entre Queluz e Benfica, depois de uma tarde bem preenchida, procurando a situação posicional de alguns arruamentos das duas vizinhas localidades de Lisboa.
O jornal A Capital, talvez positiva e prevista a evolução, deixou a Rua do Século, as zincogravuras para o mesmo passaram executadas em oficinas próprias, mas tinha chegado à facturação um trabalho acrescido, com a designação de Imposto de Transacções.
Na verdade, o então novo I. T. poder ser mencionado pelas letras do princípio, só por si era uma inovação, porque no tempo de Estado Novo, as abreviaturas eram tidas como perigos, dado que podiam muito bem ser iniciais de palavras “subversivas”.
João Moisés ia ficando por dentro do processamento do novo imposto. Na verdade o mesmo parecia uma aterradora nulidade, porque bastava entrar um impresso timbrado da firma e a guia de remessa do material expedido, levava apenas a menção do número atribuído ao contribuinte.
Pressupunha-se que o pagamento seria atribuído à firma que distribuía o produto acabado, mas sempre ficava a impressão de que o número na guia, depois na factura mensal, servia falcatruas.
Desde que o Martinho era o novo caixa, apesar de bom amigo, algo conjugado com os últimos acontecimentos lhe segredava que o Sertório, pelo contrário, não podia ser colega merecedor de confiança.
O desconfortável da situação, em conjunto com a notável irrequietude e desejo de voltar a subir na carreira, uma vez que podia acrescentar ao curriculum a valorização dos conhecimentos no tratamento do novo imposto, levava-o a idealizar novo emprego.
O patrão Francisco Bento, continuava a demonstrar-lhe grande estima, ao ponto de o levar a visitar o que viriam a ser as novas dependências do escritório, no que pensava interessante para o empregado de confiança.
Até gostou, tendo em conta ser o mesmo edifício, a antiga capela das Mercês que o proprietário, talvez a coberto de albergar uma esquadra de polícia, ia fazendo melhoramentos sem o risco de um credenciado arquitecto. Transformando-a na maravilha citadina dos mamarrachos.
Teria entrada na Rua do Século, onde ainda por alguns anos funcionou o grupo que editava o jornal que lhe dera nome.
Mesmo gostando do que lhe era dado ver e ficando eternamente grato ao senhor Bento, pensava consigo não chegar a trabalhar aí, o que aconteceu na realidade.
Iniciou logo em Maio as curtas férias a que tinha direito e foram essas, que lhe deram o ansiado tempo de ponderação e procura de novo trabalho.
Logo no mês seguinte, deixando ao seu sucessor, todos os assuntos na devida ordem, para o que trabalhou até ao último minuto, podendo ficar assim com gratas recordações e dizer adeus à longa Travessa das Mercês e ao mesmo edifício onde existiu a capela que, possivelmente lhe terá dado o nome.
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Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

terça-feira, 5 de agosto de 2008

AMAR O MUNDO

PENSAMENTO

Um homem que não é vulgar pensa nos outros,
Como não é vulgar ama a humanidade!...

Daniel Costa

domingo, 3 de agosto de 2008

LISBOA CAFÉ - 9

O PARAÍSO DE BENFICA

Depois de João Moisés encontrar as condições económicas de entrar num clube mais avançado, o dos casados, que desde miúdo pensava ser o paraíso do Planeta Terra, o supremo eterno do mundo, visto que era o início de uma vida comum a dois, que mais tarde seria alargada e a dar-se uma separação só por interferência da irmã morte poderia acontecer.
Para o cumprimento perante Deus e os homens, a famosa igreja das Mercês sob o ministério do coadjutor do velho pároco, o Padre Marques Soares, deu-se a cerimónia religiosa do enlace.
Depois do longo, grandioso e tido como inevitável “buffet”, o casal viu-se, finalmente, a sós pela primeira vez.
Depois do transcendente acontecimento, a morada passou a ser nova, não muito longe do saudoso Café Paraíso de Benfica, talvez o mais antigo do Bairro e o último, do género, da Lisboa antiga.
Era bom presságio, para início de uma nova vida, tanto mais que se estava ali a desenvolver uma outra Lisboa, com um grande aglomerado de casas, tendo como base a Avenida do Uruguai e a então Estrada Poço do Chão, incluindo o que se veio depois a baptizar por Praça Artur Portela.
Acontece que a capital desse tempo, com a sua intrínseca grandeza, era em tudo uma sombra, a ponto de mesmo um faustoso lance matrimonial, não dar direito a mais de oito dias de férias, findas as quais João Moisés compareceu, obviamente, ao dever do serviço, não sem antes lhe vir à lembrança os tempos do Bairro da Graça, Aquela histórica casa onde deixou de viver e conviver, sobretudo do aparelho de telefone que a equipava.
Era composto por um mealheiro onde entrando, sob pressão, uma daquelas moedas de alpaca do valor de cinquenta centavos funcionava.
O sistema tinha a ver com a movimentação da casa e porque a economia do tempo obrigava a que fosse garantido o pagamento por quem utilizasse o serviço. No entanto em Benfica dispunha do seu telefone sem o incómodo do dispositivo.
Acabaram as caminhadas da Graça até ao posto de trabalho. Dali em diante, o paraíso de Benfica tornou-se, à ida para o escritório, ponto de partida para os muitos carros de tracção eléctrica que então serviam a freguesia, em acelerado povoamento. Como se isso não bastasse, relativamente perto desenvolvia-se a Brandoa na clandestinidade, cujos habitantes também ficavam sujeitos aquela estação para alancar o trabalho.
A azáfama de apanhar transportes, por toda a gente, começava logo pelas sete da manhã e as ruas que desembocavam próximo da igreja, onde quase na frente existia a estação e se iniciava a partida transformam-se, em verdadeiros formigueiros humanos.
Não podia dizer-se que faltavam meios, o que havia era já muita gente dependente deles, que dispunham apenas de uma via, a Estrada de Benfica, que começava na Avenida Duque D’Ávila, junto ao Governo Militar de Lisboa, acabando nas Portas, onde se inicia a Avenida Elias Garcia, já fora da cidade.
Começava então de manhã a verdadeira aventura de chegar ao trabalho, à hora nona ou antes, cuja abertura também fazia parte das obrigações de João Moisés.
Logo no primeiro Inverno, por sinal rigoroso, naturalmente por imperativos camarários, ou outros, uma vala foi aberta por toda a Estrada, então era ver carros eléctricos a preencher toda a via, em vários quilómetros de distância até à estação do metropolitano em Sete Rios, onde muitos mudavam de rota, para a baixa da cidade, por meio daquele rápido meio de transporte.
Os transportes eléctricos, uns iam da estação de Benfica à Praça do Chile, para outros só terminava a linha na Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré. Era neste últimos que, diariamente viajava João Moisés, verdadeira aventura!
Embarcava na origem até ao apeadeiro do Príncipe Real, depois descia a pé toda a Rua do Século, onde na última, imediatamente à Esquerda, iniciava o seu dia laboral.
Recordando, em síntese, a comprida e aventurosa viagem diária num daqueles carros movidos a electricidade, por carris. de ferro, convém não deixar em claro a tentativa de reconstituição da sua rota:
- Partia da estação, seguia em linha recta, com volta por uma quinta abandonada, onde se encontra o Centro Comercial Fonte Nova, até Sete Rios, aí fazia a curva á direita, continuando pela Estrada de Benfica, passava ao Instituto de Oncologia em Palhavã, Praça de Espanha, junto aos jardins da Gulbenkian, atravessava a Duque D’Ávila e andava à volta de três partes do edifício do Quartel do Governo Militar de Lisboa, voltando à mesma Avenida, que percorria até Campolide, depois rumava à esquerda, para fazer a Rua descendente até atravessar a Avenida Joaquim António de Águia, dando às Amoreiras, que descia até ao Largo do Rato, onde passava até voltar à Rua da Escola Politécnica.
Finalmente a paragem, a que muito boa gente chamava o Jardim da Patriarcal.
Depois com aparente calma, descia a pé, toda a Rua do Século.
Há!... O trabalho já estava também a desencantar João Moisés, porque entretanto, como tantas visitas, o Sertório acabou por reentrar com a aquiescência dele próprio, visto o rapaz já ter sentido na pele, a situação de despedido do trabalho, depois porque não deixaria de ser bom rapaz e viria a ser bom ajudante. Verificado depois o mau carácter do novo ajudante, além de lhe falar um mínimo de conhecimentos, que deveria ter adquirido durante o tempo que ali trabalhara. Era só jeitoso a criar outras formas de poder esgueirar-se ao serviço que lhe competia.
Apesar de já ter sido despedido compulsivamente, por interferência do Moura Jorge, depressa se conotou com este, contando com a insensata colaboração do cobrador, elemento com muito jeito para intriga.
Tudo programado, baseado no visível derriço da Inglesa, João Moisés depressa se apercebera ser o visado. Com base em denúncias forjadas. Da amizade do chefe de alguns anos, este passara também a tratar com ele apenas os indispensáveis assuntos de trabalho.
Naturalmente, também a mulher da Grã-Bretanha lhe dera a volta à cabeça, pelo que com um despedimento, com o valor da consequente indemnização viria a calhar.
Assim aconteceu! Numa manhã, sem nada fazer prever uma tal iminência, o Moura Jorge deu em querer tirar esforço, dento do próprio escritório sob alguns olhares atónitos, do próprio João Moisés o que este, evidentemente, não consentiu. Dera-se quase simultaneamente a entrada do Guarda-Livros e sem qualquer consulta, sucedeu-se de imediato e desejado despedimento.
Podia ser considerado por justa causa, mas tudo ficou logo facilitado, foi atribuído em jeito de prémio, pelo acto de pura mesquinhez, uma quantia de vente e três mil escudos compensatórios, que à época podia considerar-se quantia elevada.
O gosto pelo trabalho, da parte de João Moisés não se alterou, embora lhe fosse logo atribuída a chefia, com a mesma remuneração, factor de evidente equação, mas de nenhum significado.
Em todo o processo o novo chefe, nunca foi ouvido e considerou ter havido muito de trama, seguida de injustiça. A haver despedimentos, pelo menos três elementos deviam ter entrada no pacote: O Moura Jorge, o cobrador e o novo ajudante.
Alguém não deixou de considerar esses factores, nunca se conformando com eles, além de ter continuado a contar com o reconhecimento inequívoco do gerente principal, de imediato iniciou a tarefa de tentar mudar de entidade patronal, deixar aquele edifício, onde em tempos muito recuados, esteve implantada a Capela das Mercês, e que o seu proprietário, tão mal, o ia transformando aos poucos, sem qualquer conceito de ordem estética.
Teria sido a mesma que dera nome aquele grande arruamento do famoso Bairro Alto, designado por Travessa das Mercês.

Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

POEMA MALDADE

MALDADE

“Quem mal não usa
Mal não cuida”
Diz o povo e muito bem
Ninguém ganha com a maldade
Essa falta de sanidade
Risível a maldade
Esse flagelo atravessa a sociedade
Havendo optimismo
Aprende-se sempre com o negativismo
Se ele existe fora o pessimismo
Aparece maldade
De quando em vez
Fica a sensação
Alguém não está sendo são
Aprende-se a lição
Diz-se não sou eu não
Aprende-se fica o favor
Assobia-se prazenteiro
Como se descesse a rua
Na sonhadora madrugada
Procurando um bem
Afinal arredio
A andar muito mais além
Feliz de quem o detém
Amem


Daniel Costa