terça-feira, 13 de maio de 2008

ESQUADÃO 297 ANGOLA - 17

ATÉ À MARGEM DIAMANTÍFERA DO RIO LUACHIMO
Depois de cerca de quatro meses de mobilização na Gabela, integrado no Grande Esquadrão 297, a servir o exército. Na quarta feira, dia vinte e quatro de Junho, o Onofre e alguns companheiros saíram da escala de serviço, a se prepararem a integrar o pelotão que ia formar o esquadrão eventual 350, destinado à zona onde operava a Companhia Diamantífera Diamang, na cidade do Dundo, com deslocação aprazada para o dia seguinte.
Partiu-se logo às duas da manhã, nas habituais camionetas civis de caixa aberta, com chegada às seis á vila da Cela.
Duas horas depois, deu-se a abordagem ao rio Covo, atravessado de jangada por toda a tropa e respectivas camionetas.
Depois, na madrugadora travessia, a tornar-se mais um motivo interessante, para os eventuais sonhadores, seguiu-se viagem nos mesmos meios de transportes, por picadas.
Às quatro da tarde, chegou-se à cidade de Nova Lisboa e ao grande quartel, que dava pelo nome de Escola de Aplicação Militar, o destino da pernoita.
Logo aí o Onofre, sempre cumpridor, sentiu a falta da disciplina táctica da instalação, muito característica ao comando do Capitão Alves Ribeiro, censurado por muitos, por ser considerado demasiado rígido, mas a sua actuação na circunstância seria a habitual, digna de um grande comandante que instruiria os seus comandados assim:
- "Cada um fica livre para se entreter nesta cidade, como lhe aprouver! amanhã às X horas, apresentar-se-á aqui, para seguimos viagem".
Tal não aconteceu, no fundo, porque o comandante do novo esquadrão, criado a partir do Batalhão 350, capitão Ferrand de Almeida, nem sequer aproveitou aquela pausa, para iniciar a formação do que, deveria ter um espírito de corpo de força militar.
Se, a voz de comando fosse firme, seria tranquilizadora, enquanto moralizava, mas todos foram conhecer a novel cidade, a segunda da Colónia.
O Onofre foi com um amigo, dando a volta sempre objectivando conhecer as mulheres, como qualquer militar na flor da vida e que se prezasse.
Iam deambulando até que, a certa altura, entraram em conversa com duas raparigas, uma preta a outra mais atraente, duma cor acastanhada, não obstante não apresentar sintomas de qualquer cruzamento.
O duo andava em procura de maridos e julgando que estavam com militares, que vinham estacionar ali, concluíram que se tinha feito luz nas suas vidas.
Desejavam veementemente ser levadas de táxi para a casa onde moravam ambas. Como já era noite, começou logo a ser consumado o "casamento", que durou até chegar a madrugada.
Despedidas observadas, os dois amigos logo pegaram um outro táxi, dando-se a entrada no quartel, onde era pressuposto algum tempo de dormida, que não se chegou a efectuar.
Na parada notava-se um movimento desusado, para essa hora tardia, demais num aquartelamento.
Observando o evento, chegado da casa onde pontuava o cabo rancheiro, estando com gente oriunda de algumas povoações localizadas próximo da terra da sua origem decidiu, já que dispunha de géneros alimentícios, festejar a vitória da Volta a Portugal em bicicleta do ano de 1962, protagonizada por seu mano, o consagrado Joaquim Leão.
A origem de um dos dois companheiros era o mesmo concelho, pelo que logo ambos foram convidados, para o petisco pelo eufórico anfitrião.
Já só com o toque da alvorada foi dada por terminada a festa de confraternização. No dia seguinte, aconteceram ainda mais voltas á cidade, onde o Onofre bateu todo um rolo de películas.
Entretanto, num bar teve o grande prazer de encontrar camaradas, com quem tinha convivido em serviço na campanha do Norte, na Fazenda Três-Marias.
Depois veio a hora de formatura, dos dois esquadrões na frente da Escola de Aplicação Militar, onde se apresentou o Tenente-Coronel Spínola discursando, mais para a sua tropa, no seu peculiar estilo populista, visando todo o pessoal em trânsito uma vez, tudo ser de mobilização do Regimento de Cavalaria 3, de Estremoz.
Ainda no dia vinte e seis de Julho, preparam-se ambos os esquadrões na Gare Ferroviária da cidade, para seguir de comboio até à vila do Luso, quando se deparou uma enorme surpresa! A Estação tornara-se pequena para conter tanta gente que ali acorreu, para assistir ao embarque do contingente militar.
Uma despedida, com foros de grande acontecimento, só comparável do embarque na Estação de Caminhos de Ferro de Faro, cujo Grande Esquadrão 297 pomposamente protagonizou.
Foi uma fenomenal surpresa, visto que muito poucas famílias o eram de militares a seguir em viagem, ao contrário do que aconteceu na capital do Algarve.
Por volta das três da tarde, sob enorme ovação, partiu-se numa composição ferroviária tosca e lenta, a ponto de em certa zona, naturalmente de uma razoável população colonial, iam sendo muitos a aplaudir.
Como se tratava de gente, naturalmente com muita garra e força inventiva, não tardou que alguém se lembrasse, que o generoso gesto se havia de materializar com garrafões de vinho.
Contra o que a ousadia supunha, depressa apareceram as tais vasilhas, que o desejo misturado com o calor, logo fez tragar, enquanto ao longo da estrutura rolante, continuavam correndo com as ovações.
O comboio ia com tal vagar, que deu tempo ainda para devolver o vasilhame esvaziado.
Logo após, foram-se desvanecendo os ecos de tanto carinho que, em terras distantes tinham chegado aos que estavam na missão militar, em defesa das Terras de todo um povo disperso.
Há muito o sol tinha entrado na penumbra e de passagem avistaram-se as luzes de Silva Porto.
Depois de passada a noite em viagem, em composições, apenas com uma fila de lugares, por conseguinte, com um corredor junto ás janelas de cada carruagem. Aquela etapa terminou na vila do Luso.
Depois de se dar pouco mais do que uma mirada à vila, seguiu-se de novo em camionetas, por estrada de veredas, até à povoação de Dala, onde houve paragem, afim de se tomar um refresco.
Eram vinte e quatro horas quando o novo esquadrão chegou à cidade de Henrique de Carvalho que na verdade, localmente, sempre se designou pelo apelativo nome de Saurimo, mesmo depois de em 1923 o General Norton de Matos lhe ter atribuído o nome daquele grande explorador de terras africanas, nomeadamente da Lunda, cujo Distrito fundou e do qual viria a ser primeiro governador, em 1845.
Na verdade, com a especialização de cozinheiro da tropa, o que foi pretexto para um resto de noite, de vinte e sete para vinte oito de Julho, ser passada na cozinha, entre muitas recordações e petiscos.
Só às quinze horas acabou por se partir debaixo de um sol abrasador, à africana, sempre em camionetas civis.
Para um observador, como o Onofre, a viagem até Camissombo, fazendo a travessia do planalto da Lunda, apresentava uma vegetação lindíssima a tornar a paisagem paradisíaca. Assistir-se ali, em cima da caixa da camioneta ao Por do Sol, como aconteceu tornou-se deslumbrante, o sonho de uma vida.
Chegadas as vinte e quatro horas, quando se deu a chegada, Jantou-se e depois pernoitou-se, encontrando-se cama no soalho de cimento, numa dependência do aquartelamento daquela localidade, formado por militares idos também da metrópole, o que sempre se tornava evidente, tendo como Segundo Comandante, o mesmo que já tinha exercido essa função na recruta do Onofre em Elvas.
No dia seguinte de manhã foi feito o resto do percurso em estrada de terra, sempre plana e permanentemente ladeada de bambus, outra maravilha para a vista.
Observou-se o impensável, em cerca de apenas de duas horas de viagem - dp Camissombo ao Dundo - bastaram, para dois alferes terem ingerido a grade de cervejas, vinte e quatro garrafas, que tinham adquirido.
Coisa de alarves abastados como eles de facto, eram!... A ponto de um aventar que o dinheiro recebido e era acima da média, não lhe chegava para as despesas feitas em campanha e tanta gente a morrer de fome!...
Destinada à vila da Portugália, periférica da cidade diamantífera do Dundo, antes do almoço logo estacionou, o esquadrão eventual 350, em aquartelamento improvisado de casas pré fabricadas, com localização junto ao rio Luachimo que dera nome a um filme, Realizado pelo conhecido major Baptista Rosa, de promoção da Companhia Diamang, a que também se ia dar protecção.
Daniel Costa –in JORNAL DA AMADORA

22 comentários:

Doce disse...

Do seu blog que lhe posso eu dizer? Memórias vividas, experienciadas e sentidas.
Recordações de uma vida passada noutra terra. Noutro tempo que não este.

A sua escrita, muito boa.

Ficou-me a dúvida se o seu comentário no meu blog seria depreciativo... creio que todos nós temos um alter ego, eu exorciso o meu desta maneira.

Não terá gostado da minha escrita talvez? Espero que me responda, gostaria de ler a sua opinião.

Cumprimentos.

o¤° SORRISO °¤o disse...

Oi Daniel.
Que bom que você me visitou novamente. Acredito que um pouco de poesia e cor em nossas vidas é sempre bom.
Quanto a imagem em meu blog, não foi achada, foi criada por mim.
Beijos mil! :-)

Bandys disse...

Oi Daniel,

Achei lindo o sub titulo que destes a minha poesia. Quem sabe eu não faça outra e coloque o nome sugerido!!!

Que bom que voltastes pois ja estava com saudades.
Suas historias são comoventes.
Beijo

xistosa disse...

Para mim a cidade de que mais gostei em Angola.
Lembro-me que na postagem anterior, que se foi, falava em Nova Lisboa e no clima que fazia com que o milho e algum trigo, uvas e demais produtos hortículas, dessem colheita duas vezes ao ano.

Foi na rua ou avenida princípal, ao fundo, era a Rua ou Av. Canã, que no Hotel Canã, como os melhores sonhos de pescada da minha vida.
Nunca mais o vou esquecer.
Depois de vir do Cazombo, em colunas militares e MVL, movimento de viaturas kigeiras, que faziam o abastecimento, sob escolta, ao fim de 3 dias, cheguei perto da 11 da noite.
A senhora que me abriu a porta, nem queria acreditar num cliente áquela hora, todo cheio de pó, com uma data de granadas à cintura, outras penduradas dos ombros, pois eu reforcei as costuras e botões, uma pistola e um saco da tropa .
Lembro-me que estava um pouco de frio e que tive de tomar banho com água gelada ... mas o jantar aqueceu-me a noite, até de manhã.
A conta?
Era o exército que pagava ...
Por isso éramos bem atendidos ...

daniel disse...

Olá Doce

Jamais depreciaria, podia te sido menos feliz, mas se não gostar, não comento, é do meu próprio temperamento. Não revi, porque não pus nos meus favoritos e fiquei a zeros com "doce", porque é blogue privado e!...
Se o entenderes deixa o do meu comentário inicial.
Agradeço a simpatia e gostaria de ver-te de novo, não é obrigação, é curiosidade!

Cumprimentos
Daniel

xistosa disse...

VOU DEIXAR UMA DICA PARA OS LEITORES:

Com um dedo da mão esquerda, primam a tecla "CRTL" e sem largar, rolem a "roda2 do rato.
Vão conseguir aumentar ou diminuir a letra.
Nem são necessários óculos ...

Recapitulando:

Um dedo, da mão esquerda na coisa, "CRTL", outro na "roda" do rato.
Rolem a "roda" para a frente ou para trás, sem deixar de premir a do "CTRL".

Não é milagre ... é a verdade.
Se for canhoto, ponha-se de pernas para o ar e troque de mãos ...

Auréola Branca disse...

Olá, Daniel. Creio que as vivências dessa tropa é bastante para fazer um livro, não?
Aquela parte que falaste das duas mulheres que "casaram", lembra-se? Bom, a questão é que aqui, na Bahia, havia muito disso. E lembrei de minha mãe falando que os marinheiros só vinham "casar" com as baianas, antigamente.
Adorei ler-te, mais uma vez.
Abraços.

daniel disse...

Olá

Criado por ti, mais mérito.
Posso contar uma avntura:
Depois se sete anos, dei comigo a sorrir, sorrir como o fazia, Sabes o que isso representa?
Aconteceu já em 2008, estava a escrever O ESQUADRÃO.
Se passo e assinalo, é porque gostei.
Um sorrido, deste ano e um beijinho.

Daniel

Paula Raposo disse...

Li alguns destes textos do esquadrão 297. Por certo que conheceste algum Banazol? Beijos.

Carla disse...

mais uma memória para ler com toda a atenção
obrigada
bjs

NAELA disse...

Daniel gostei da parte do romance (bom vamos chamo-le de romance)afinal nesta jornada muita coisa aconteceu e encheu mais esta historia de riqueza!
Beijo doce e terno

Doce Veneno disse...

Daniel aqui tens o meu blog:

http://amoreodioo.blogspot.com

Obrigado pela resposta, agradeço então que tenha gostado do meu cantinho.

Apareça por lá sempre que quiser.

Beijo

daniel disse...

Bandys

Não era sugestão, foi comentário. Prezo muito o pensamento individual. Aproveitar ou não, posso ficar satisfeito, nada mais.
passarei mais vezes, gosto da propostas.
Deixo beijo.
Daniel

daniel disse...

xistosa

A dica, creio que o é mesmo, por mim tirei cópia e quando fôr cado disso, esperimentarei.
Fico grato.

Daniel

daniel disse...

Auréloa branca

Para tua informaçáo, o texto está editoras, com cerca de 40 fotogralias. Há pareceres jeitos, mas o assunto, tratado de forma inédita, embora, não é considerado mediático. Possívelmente, terei de ensinar algo do que julgo saber, mas o projecto, terá de passar disso, pois apresentarei mais trabalhos.
Se me lembro de Nova Lisboa! Uma verdadeira aventura de mocidade, "com rapazes nem o diabo quer alguma coisa com eles!"
Enfim... coisas!

Abraços
Daniel

daniel disse...

Paula Raposo

Na tropa não conheci, nenhum Bonazol. Um apedido que julgo pertencer a uma só família. Mais tarde e por vários motivos conheci o nome e actividades militares e não só.
Porém, guardo boas recordações.
Beijos
Daniel

daniel disse...

Naela

Podes chamar romance, se bem qu nada está romanceado, se reparares bem. Dir-se-á: Auto biografia!?
Obrigado Naela.
Beijinho, virtualmente doce.
Daniel

daniel disse...

Carla

Será o meu género, a auto biografia. Meus deuses, serei idoso? Qestiono-me!
Como partilha, não é palavra vã, para mim, fico grato.
b.
Daniel

daniel disse...

Doce

Obrigado, pela atenção, tirei cópia e logo verei.
Lá me encontrarás, aqui fica beijo.

Daniel

Menina do Rio disse...

Daniel, eu sou bem brasileirinha e pouco sei da história de Portugal a não ser o que aprendi na escola primária sobre rotas e descobrimentos. Estou aprendendo contigo nestas aulas.

Obrigada pela tua presença e fica com um beijo de bom final de semana

daniel disse...

xistosa

Algo não dava certo, foi agora, quando reparei não ter comentado o teu primeiro comentário.
Por favor pensa apenas em lapso!
Sabes o que é malta, só de passagem!... Mesmo assim lembro-me da Avenida Canã, e tennho na memória a estátua do Norton de Matos.
Também gostei de Nova Lisboa, a hoje massacrada Huambo.
Oficial, era mais do cabo e foi isso que escrevi a uma madrinha de guerra, que pensei fazer subir de posto. Isto é quiz passá-la à classe de namorada.
Como era uns anos depois já havia outras perrogativas.
Ainda vi capitães a almoçarem, no Grafanil de marmita em punho.
Histórias, que nunca acabam!
Considerações
Daniel

daniel disse...

Menina do Rio

Sim isto já faz parte da História de Portugal. É da última História das Guerros do Portugal Ultramarino. No entanto é um percurso, talvéz Auto Biógrafo, que pretende abordar algo do atrazo do povo.
Já muito se escreveu sobre o assunto, mas as abordagens, são diferentes socialmente, tal como os protagonistas.
De Lisboa, um beijo.

Daniel