segunda-feira, 5 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 13

COMUNICAÇÕES OPERACIONAIS
Todas as tropas regulares apresentavam serviços de Transmissões, assim como as companhias militares eram acompanhadas de grupos próprios de comunicações.
O Esquadrão, que era denominado pelo número 297, não podia estar fora de tão elementar regra e apresentava o seu grupo, comandado por um sargento especializado, com curso militar próprio.
Além do responsável, o núcleo era composto por outros especialistas entre soldados e cabos onde, um era formado na decifração de mensagens codificadas.
Da parte da UPA, o grupo opositor, na altura e na região, forçosamente, tinha os seus modos de comunicar entre as diversas posições e comandos, estes normalmente situados fora das fronteiras do território.
Com a colaboração do "arrependido" Lopes Cabanda, conhecedor da zona envolvente, suas picadas e respectivas movimentações, numa operação concebida para capturar dois elementos que serviam de "correios", no caminho a percorrer na execução rudimentar daquela normal missão de transporte de informações.
Sob o comando do alferes Ribeiro, o seu pelotão levou a cabo a missão de capturar os dois elementos encarregues da importante tarefa.
A determinada altura surgiram dois vultos, personificando o motivo da emboscada, À ordem de paragem não houve cedência tanto bastou, para que, uma saraivada de balas das G3, perfurassem ambos á altura do tronco. Como será de imaginar, vieram a tornar-se em mais duas baixas infligidas aos rebeldes.
A parte interessante do episódio, foi um dos protagonistas do tiroteio, que tinham chegado ao Esquadrão na zona operacional, por castigo e consequente expulsão aplicados na origem
Um deles, talvez já por deformação, apresentava ares de verdadeiro terrorista, mas todos deram na presença dos ainda moribundos, uma de bonzinhos, exclamando!... "Levantam-se que a tropa é amiga e trata bem os doentes"!...
Obviamente, não demorou muito a que se registassem as duas baixas.
A operação foi concretizada dentro do previsto.
Só que depois de geralmente conhecidos os contornos, chegou a ocasião de ser encontrado ali um motivo de piadas de divertimento e os protagonistas principais, durante algum tempo ouviram, com gozo, a glosa:
- "Levanta, que a tropa é amiga... pum... pum... pum!...
Coisas, que iam aparecendo e serviam de motivos de brincadeira, no obrigatório isolamento, davam o passar mais despercebido.
Deve estranhar-se esta operação ser considerada importante e de êxito total, mesmo só com as baixas dos dois únicos "turras" emboscados, por todo um pelotão de cerca de trinta homens. Como todas as outras eram sempre de fraca produção, assim determinava a própria natureza do conflito, levado a cabo sempre em meio dominado por uma exuberante vegetação.
A quinze de Fevereiro, uma coluna do Batalhão, sedeada na Fazenda Mucondo, em deslocação para Muxaluando, no caminho sofreu um ataque de apenas um tiro, dirigido a um Jeep, transportando o alferes Ferrão, no comando da coluna.
Foi este oficial a baixa registada, já no posto médico do Tari, depois de ser tentada a reanimação.
Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação: Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, que seguia no Jeep da frente, que embora blindado, passava a ser o alvo a atingir.
Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por "mata alferes", o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria.
No dia vinte e três ainda em Fevereiro, reuniu em formatura o Grande Esquadrão para ouvir a leitura, pelo próprio Comandante, de um louvor colectivo que lhe fora atribuído por relevantes serviços, pelo comandante em chefe de Batalhão.
Nesta altura já o jogo de cartas, com imensa pena do Onofre, era outro, o do "abafa", talvez por influência de novos elementos, das várias proveniências, que foram chegando ao Esquadrão, normalmente na sequência de castigos, por ser zona de intervenção e naquele tempo a considerada de maior perigosidade.
O novo modelo de jogo tornava-se perigoso, pois via por vezes, boas somas de Angolares em cima da banca, era mesmo brincar com o dinheiro. Já não era para "intelectuais", como o Onofre que se poderia considerar um bom jogador de sueca, visto memorizar as cartas saídas, pelo que com com os trunfos divididos, como se dizia, ele e o Picão ganhavam sempre.
Outra coisa recorrente, até depois durante toda a comissão, foi o reparar-se serem os frigoríficos alimentados a petróleo, onde uma torcida acesa provocava o funcionamento do motor, a gerar o frio, tal como eram alimentados os candeeiros a alumiar ainda as casas da maioria das aldeias metropolitanas.
Em zona de mato os indispensáveis serviços eléctricos eram da proveniência de potentes geradores.
Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas do esquadrão de comando, houve a baixa de um furriel, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.
Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam. Algumas vezes, tendo-se como alimentação as caixas de ração de reserva, concebidas como uma refeição substancial, o que não se podia negar, mas por demasiada utilização, eram detestadas.
Entre os mais variados serviços de escoltas, por todo o género de picadas, sobretudo dentro do capim, mais alto e a sobrepor a própria viatura, chegou mais uma a dezanove de Março, a acompanhar camaradas de regresso de mais uma operação, em que não foi avistado qualquer elemento da insurreição.
Mais uma vez chegara o tempo das grandes tempestades tropicais, muito visíveis, por se tornarem frequentes naquela zona Norte de Angola, entre os inúmeros casos cita-se o de um dia em que integrado numa escolta a Muxaluando, Onofre e camaradas chegaram ao Tari pela noite dentro, denotando a falta de jantar.
Aí revelou-se a atenção do comandante do Esquadrão, Alves Ribeiro que, vindo a acompanhar via rádio, a penosa progressão da coluna, recebeu os comandados e assistiu ao jantar, mandando distribuir bagaceiras e cafés, no fim, a todos os que viveram a odisseia.
Aconteceu mais a demora porque, uma camioneta GMC, como se tornara habitual, para aguentar eventual impacto de minas, encabeçara a coluna e ao passar por uma subida bastante inclinada, face ao terreno empapado da persistente chuva dificultava extremamente a progressão.
A vinte e sete de Março chegou, finalmente uma companhia a render o Esquadrão do Lifune Tari.
Em vinte e cinco ainda foi feita uma escolta de viaturas civis, pela esquadra da Breda e elementos do respectivo pelotão a que pertencia o cabo Onofre, à Fazenda Mucondo.
Como o dia se apresentava ainda chuvoso, por aquelas verdadeiras veredas, o serviço numa extensão a rondar os trinta quilómetros ou seja sessenta, ida e volta demorou todo aquele dia.
Logo no seguinte começava, de facto a tão almejada rendição com a entrega da metralhadora pesada montada em Jeep blindado.
A verificação do contador de quilómetros, deu que Onofre e colegas especialistas daquela unidade pesada, porque tinham tomado conta da viatura com zero quilómetros, pudesse ver haverem percorrido naqueles terrenos dos Dembos cheios de irregularidades, cerca de oito mil quilómetros.
Até então só tinha pressentido três tiros, de canhangulo.
Tão dissuasora arma era trocada por uma espingarda Mauser, para servir no que a revelar-se na mais atribulada viagem, o regresso a Luanda, com destino posterior a uma região livre de terrorismo.
Ainda no dia vinte de Março objectivando uma cerimónia do render, com certa dignidade, elementos do Esquadrão fizeram o acompanhamento da nova companhia a uma operação, de que resultou uma baixa de uma baixa rebelde e a apreensão da respectiva arma.
Já a quatro de Abril formou todo o Esquadrão, afim da formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida, visto que, no dia seguinte deixávamos definitivamente o Lifune Tari.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

14 comentários:

Bandys disse...

Oi Daniel,
Obrigado pela explicação nos comentarios abaixo.

Viver...é chegar onde tudo começa!
Amar... é ir onde nada termina! ♥
♥ Viva...Como se fosse cedo!
  Reflita...Como se fosse tarde! ♥
   ♥ Sinta o que você diz... Com carinho!
Diz o que você pensa... Com esperança! ♥
 ♥ Pense no que você faz...Com fé!
Faça o que você deve fazer... ♥

Um beijo

daniel disse...

Gostei, amei mesmo as palavras deixadas. Os ensinamentos, nunca são demais.
Embora nunca o definisse, o amor por tudo, sempre foi inabalável.
O amor é a base da vida. A humildade, simplesmente a humildade, é a base de uma esperança de realizar, o desejo de estar em paz.
Agradeço com um beijo.
Daniel

NAELA disse...

Daniel mais um conto das tuas experiências tão sentidas em Angola, volto a dizer obrigada por nos dares um diario de ti!
Beijo doce

daniel disse...

Olá Naela

Foi mais um capítulo da saga do Onofre, pelo Norte de Angola.
Tento ir interpretando, uma espécie memórias diarísticas. É curioso irem desfilando, como se recuasse e revivesse as cenas.
Obrigado, por sentir alguém a "espreitar" um exercício excitante, mas por força, executado na solidão. Assumida, mas solidão.
Retribuo um beijo, com a mesma doçura.

Daniel

o¤° SORRISO °¤o disse...

Muito bem escrita a saga do Onofre em Angola.
E as explicações que colocou nos comentários foram importantes não só para mim, mas para todos que visitam seu blog pela primeira vez e se deparam com o Esquadrão 297.

Quero agradecer também pelas suas belas palavras no meu blog. Valeu!
Beijos mil! :-)

Paulo Sempre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Sempre disse...

A história tem sempre algo que nos surpreende pela forma negativa ou positiva. Ainda assim, é sempre interessante conhecer factos que se sucedem sucessivamente.
Abraço
Paulo

daniel disse...

Olá

um sorriso pode arrazar montanha, eu que diga, nunca perdendo o optimismo, depois de sete anos (sete), fazia-o perdido para sempre, eis que já este 2008 o recuperei e... festa!...
E nessa altura foi, quando elaborei o "Esquadrão" e publiquei, no Jornal da Amadora.
Vim a tentar melhorá-lo.
A saga, depois de Angola, não pára! Como nunca parou!
Eu é que agradeço a camaradagem, a mesma consola!

um beijinho
Daniel

daniel disse...

Olá Paulo

Histórias de guerras, fazem sempre parte da história. Surprenda ou não, esta é uma história vivida e anotada "in loco". Ficção só em nomes de praças, o resto as datas, por exemplo eram anotadas no próprio dia, num simples simples diário, que julgo raro.
Há o ineditismo de não haver motivação de carácter politico.
Apena a vida de caserna, do soldado em clima de guerra.
Obrigado e um abraço.

Daniel

Nadja disse...

Vim agradecer pela visita ao meu blog,obrigada! =)

daniel disse...

Olá

Nadja gosto de comentar e gosto das pessoas, mas nada exigo.
Se gostaste de fazer a visita, fico muito grato.

Daniel

Lyra disse...

Olá,

Venho pedir desculpas por não vir cá há algum tempo, mas a verdade é que o meu filhote esteve doente e, como estive com ele em casa, o trabalho acumulou e agora o tempo é escasso.

Hoje apenas venho agradecer a tua amizade e simpatia e dizer que voltarei brevemente, com mais tempo, para pôr a merecida leitura do teu blog em dia, sim?

Beijinhos e até breve.

;O)

xistosa disse...

Em todas as guerras foi sempre assim.
Mata-se o chefe ... os outros rendem-se.

Os primeiros tiros eram sempre para as mais altas patentes, que deixaram de andar de galões no mato.
Alguns que viam tanto como eu, até os óculos escondiam ... mas o meu maior medo eram as minas anti-pessoais.
Não escapou nenhum ... quando eram evacuados para Luanda, Nova Lisboa, Henrique de Carvalho ou Mavinga, ou até a cidade de Cabinda, foi o que conheci, já tinham perdido tanto sangue que ...
Boa noite!

daniel disse...

xistosa

Depois da célebre retomada de Nambuangongo e da Pedra Verde, o corredor que faz a ligação, o que me calhou, acalmou um pouco. Mensalmente uma coluna era flagelada com três ou quatro canhanguladas, de presença, só chateava. Apanhei apenas um lance!... De resto só vivi ao vivo o que entrou ontem.
Curioso, mas o acaso, comigo, esteve sempre presente!

Daniel