quinta-feira, 15 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 18

A CIDADE DO DUNDO E A VILA DA PORTUGÁLIA
Depois da instalação do esquadrão eventual 350, junto ao Dundo, cidade onde a actividade era genericamente relacionada com a extracção de diamantes, sendo a função da tropa exactamente o controlo da possível infiltração de actividades terroristas que ali se viessem a verificar.
A classe das praças limitava-se a ver a paisagem e mostrar o seu valor a cumprir ordens, aparentemente só restava viver com alegria, evitando complicações.
Vivendo em regime provisório nos pré-fabricados do Dundo, no dia trinta de Julho de 1963, o Onofre com alguns colegas fez-se a uma passeata pela cidade, apenas vislumbrando o panorama local, muito diferente do que conhecera até ali, o alimentava o seu sonho de aventura, algo de muito pessoal, talvez importante para lhe assegurar a permanente alegria de viver.
No dia seguinte, com o mesmo roteiro, foi percebendo pelas observações, sempre lúdicas, com a componente da tomada de conhecimentos locais, pelo que ia concluindo que ali era outro Portugal. Havia um modo de vida, de estar e de agir algo diferente.
Observava-se o facto de as habitações dos colonos contratados da Companhia, serem todas vivendas de rés-do-chão, rodeava-as bonitos ajardinamentos, com longos espaços arrelvados e um poste com estrutura própria para exercícios de bola ao cesto.
Sabendo-se estar numa cidade ainda nova, da Região dos Quiocos, cuja vasta etnia que a habitava, denominava-se com o mesmo nome.
Logo se começou a verificar-se o estar ali a ser preservada a rica e famosa arte daquele povo, que se estendia para além fronteiras.
Podia reparar-se numa falha, muito cara a um rapaz novo e militar, pelo menos da época. Deambulava-se por toda a urbe e não era possível ver uma miúda, que contasse mais de dez anos. A explicação veio a tornar-se simples: Toda a população branca era, de uma maneira geral flutuante, proveniente de contratos temporários com a Diamang, concessionária da exploração, daquele abundante e precioso minério, em grande parte da Lunda, Distrito maior do que Portugal.
Funcionando com capitais de maioria estrangeira, logicamente valorizavam-se modernas tecnologias, que tinham forçosamente de reflectir o modo de vida da própria população indígena, habitantes apenas da periferia da pequena cidade diamantífera.
Ao passar-se por Saurimo (Henrique de Carvalho), a capital daquele outro "Estado", sentia-se logo o pulsar estrangeiro.
Era assim que o Onofre passou a sentir aquela posição que, efectivamente iria deixar marcas na sua existência.
Valorizava-se muito as visitas de grandes figuras, mesmo militares, que por sua vez tinham apetência para aportar o Dundo. Aconteceu, cinco dias depois do esquadrão eventual 350 ter chegado, estando o Onofre de plantão ao aquartelamento, deu-se a passagem do Comandante do Sector, um Brigadeiro, vindo de Henrique de Carvalho, cidade já transformada em bastião militar.
Naturalmente o Oficial Superior, passou por todos os aquartelamentos, já instados na região e eram de todas as armas, conforme se pôde apurar com o decorrer com o tempo.
Refira-se que a localização era a poucos quilómetros do Congo, recentemente descolonizado pela Bélgica, país até então potência administradora. Muitos brancos tinham vindo, fugidos de avião, para o aeroporto situado perto da Portugália.
Verificavam-se muitos dias de folga, a servir de passeios, horas parar ir cuidando da escrita com as Madrinhas de Guerra e também de familiares e amigos.
Entretanto, o Onofre estava a tornar-se companhia habitual do Soeiro, com quem ia mantendo uma boa relação, em parte devido ao acordo, dos objectivos de coleccionar fotos de artistas do cinema e do "music hall" mundial.
Visitas à casa do Pessoal da Diamang e idas à respectiva sala de cinema, também eram frequentes, sendo tempo de recordar que aquela estrutura era a única existente na cidade, para todos os actos e encontros públicos.
Era ali que as actividades de passatempos tinham lugar, desde jantares de convívio e outros, cujo denominador comum era a obrigação de terem de ser "requisitados" com antecedência, assim como jogos de salão.
Os militares podiam também desfrutar, para o que estavam equiparados a funcionários da Companhia Damang, visto serem continentais e brancos.
Já que se evoca este assunto, torna-se interessante frisar que, depois das nove horas da noite, podia consumir-se, por exemplo cervejas, mas a partir daí era interdito qualquer pagamento, mesmo ao corpo militar, ficava um "tichey" rubricado a atestar consumo, até que um dia se chegasse a horas de fazer a liquidação.
Muitos militares, incluindo o Onofre, chegaram a andar meses a consumir sem poderem efectuar o respectivo pagamento.
Para os funcionários da Companhia, tudo se simplificava, porque no fim de cada mês, aparecia o desconto no ordenado.
Para a força militar, meu Deus!... É de adivinhar, no fim da comissão, terão ficado muitas contas por fazer, pois haveria bons rapazes que, só consumiriam quando chegava a hora de deixar o quadradinho de papel a atestar o acto!...
Assim no fim do serviço na zona, era o tempo de apagar dívidas. Voltava-se à velha forma. A escala de serviço era elaborada, como sempre, por um cabo escriturário, No esquadrão, umas vezes iniciativa a tarefa, logicamente, pelos números mais altos. De seguida porque, naturalmente, "comia formigas", desatava a começar tudo nos de menos valores na classificativos.
Possuindo o Onofre uma boa posição em ambas, só novamente, a quinze de Agosto entrou de serviço. Tratou-se da vigilância ao aeroporto da Portugália.
Logo a dezassete do mesmo mês, a escala nomeava-o para vigia num posto de controlo na fronteira com o Congo.
No Domingo dezoito, como era já permitido, andar trajado civilmente, houve deambulação pela cidade e à noite, com outros colegas, assistiu a uma sessão de cinema, tratava-se do filme "Leito de Espinhos".
Entre vários acontecimentos, passaram-se alguns deveras interessantes. Num dia de Domingo, foram abertas as comportas do rio Luachimo, muitos militares assistiam. O próprio comandante do esquadrão, Capitão Ferrand de Almeida, com a sua espingarda Mauser, mostrou uma pontaria inaudita, pois, aparecendo a descoberto um crocodilo, de imediato o matou com um tiro certeiro.
Sabendo-se que aquele animal é coberto de uma tal couraça de escamas, que só perfurado por bala, em determinado ponto da cabeça é vulnerável tem de considerar-se um grande feito.
Certamente, para todos os assistentes pertencentes á força armada, uma tal visão teria sido única.
Nos mesmos dias o comandante, reuniu toda a tropa possível, sob a sua supervisão (quem estava de serviço, evidentemente, era intocável) e todos sentados nas pedras que, compunham o terreno das traseiras, do improvisado aquartelamento, deu uma palestra a surpreender, pelos seus dotes de oratória.
Versava o problema colonial da Argélia dominada pela França, a que o famoso General De Gaule, como chefe do estado francês, concedera a independência.
A eloquente e única palestra que aquele contingente teve o privilégio de ouvir daquele comandante, frisava ser um mau precedente para todos os países em luta, para manter as suas colónias Portugal incluído por razões óbvias.
Sem saber em concreto, qual missão que lhe era destinada, o Onofre executava tarefas de maior significado, pouco comuns à sua especialidade e até no trabalho da sociedade civil, ainda que se achasse capacitado.
Iniciara-se já, com vários contornos, mas o mais visível foi a ida ao aviário, a funcionar no sítio designado Cacanda, com a finalidade de trazer, sob requisição, os frangos necessários a uma refeição do esquadrão, tarefa que iria fazer parte dos novos serviços que se avizinhavam.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

terça-feira, 13 de maio de 2008

ESQUADÃO 297 ANGOLA - 17

ATÉ À MARGEM DIAMANTÍFERA DO RIO LUACHIMO
Depois de cerca de quatro meses de mobilização na Gabela, integrado no Grande Esquadrão 297, a servir o exército. Na quarta feira, dia vinte e quatro de Junho, o Onofre e alguns companheiros saíram da escala de serviço, a se prepararem a integrar o pelotão que ia formar o esquadrão eventual 350, destinado à zona onde operava a Companhia Diamantífera Diamang, na cidade do Dundo, com deslocação aprazada para o dia seguinte.
Partiu-se logo às duas da manhã, nas habituais camionetas civis de caixa aberta, com chegada às seis á vila da Cela.
Duas horas depois, deu-se a abordagem ao rio Covo, atravessado de jangada por toda a tropa e respectivas camionetas.
Depois, na madrugadora travessia, a tornar-se mais um motivo interessante, para os eventuais sonhadores, seguiu-se viagem nos mesmos meios de transportes, por picadas.
Às quatro da tarde, chegou-se à cidade de Nova Lisboa e ao grande quartel, que dava pelo nome de Escola de Aplicação Militar, o destino da pernoita.
Logo aí o Onofre, sempre cumpridor, sentiu a falta da disciplina táctica da instalação, muito característica ao comando do Capitão Alves Ribeiro, censurado por muitos, por ser considerado demasiado rígido, mas a sua actuação na circunstância seria a habitual, digna de um grande comandante que instruiria os seus comandados assim:
- "Cada um fica livre para se entreter nesta cidade, como lhe aprouver! amanhã às X horas, apresentar-se-á aqui, para seguimos viagem".
Tal não aconteceu, no fundo, porque o comandante do novo esquadrão, criado a partir do Batalhão 350, capitão Ferrand de Almeida, nem sequer aproveitou aquela pausa, para iniciar a formação do que, deveria ter um espírito de corpo de força militar.
Se, a voz de comando fosse firme, seria tranquilizadora, enquanto moralizava, mas todos foram conhecer a novel cidade, a segunda da Colónia.
O Onofre foi com um amigo, dando a volta sempre objectivando conhecer as mulheres, como qualquer militar na flor da vida e que se prezasse.
Iam deambulando até que, a certa altura, entraram em conversa com duas raparigas, uma preta a outra mais atraente, duma cor acastanhada, não obstante não apresentar sintomas de qualquer cruzamento.
O duo andava em procura de maridos e julgando que estavam com militares, que vinham estacionar ali, concluíram que se tinha feito luz nas suas vidas.
Desejavam veementemente ser levadas de táxi para a casa onde moravam ambas. Como já era noite, começou logo a ser consumado o "casamento", que durou até chegar a madrugada.
Despedidas observadas, os dois amigos logo pegaram um outro táxi, dando-se a entrada no quartel, onde era pressuposto algum tempo de dormida, que não se chegou a efectuar.
Na parada notava-se um movimento desusado, para essa hora tardia, demais num aquartelamento.
Observando o evento, chegado da casa onde pontuava o cabo rancheiro, estando com gente oriunda de algumas povoações localizadas próximo da terra da sua origem decidiu, já que dispunha de géneros alimentícios, festejar a vitória da Volta a Portugal em bicicleta do ano de 1962, protagonizada por seu mano, o consagrado Joaquim Leão.
A origem de um dos dois companheiros era o mesmo concelho, pelo que logo ambos foram convidados, para o petisco pelo eufórico anfitrião.
Já só com o toque da alvorada foi dada por terminada a festa de confraternização. No dia seguinte, aconteceram ainda mais voltas á cidade, onde o Onofre bateu todo um rolo de películas.
Entretanto, num bar teve o grande prazer de encontrar camaradas, com quem tinha convivido em serviço na campanha do Norte, na Fazenda Três-Marias.
Depois veio a hora de formatura, dos dois esquadrões na frente da Escola de Aplicação Militar, onde se apresentou o Tenente-Coronel Spínola discursando, mais para a sua tropa, no seu peculiar estilo populista, visando todo o pessoal em trânsito uma vez, tudo ser de mobilização do Regimento de Cavalaria 3, de Estremoz.
Ainda no dia vinte e seis de Julho, preparam-se ambos os esquadrões na Gare Ferroviária da cidade, para seguir de comboio até à vila do Luso, quando se deparou uma enorme surpresa! A Estação tornara-se pequena para conter tanta gente que ali acorreu, para assistir ao embarque do contingente militar.
Uma despedida, com foros de grande acontecimento, só comparável do embarque na Estação de Caminhos de Ferro de Faro, cujo Grande Esquadrão 297 pomposamente protagonizou.
Foi uma fenomenal surpresa, visto que muito poucas famílias o eram de militares a seguir em viagem, ao contrário do que aconteceu na capital do Algarve.
Por volta das três da tarde, sob enorme ovação, partiu-se numa composição ferroviária tosca e lenta, a ponto de em certa zona, naturalmente de uma razoável população colonial, iam sendo muitos a aplaudir.
Como se tratava de gente, naturalmente com muita garra e força inventiva, não tardou que alguém se lembrasse, que o generoso gesto se havia de materializar com garrafões de vinho.
Contra o que a ousadia supunha, depressa apareceram as tais vasilhas, que o desejo misturado com o calor, logo fez tragar, enquanto ao longo da estrutura rolante, continuavam correndo com as ovações.
O comboio ia com tal vagar, que deu tempo ainda para devolver o vasilhame esvaziado.
Logo após, foram-se desvanecendo os ecos de tanto carinho que, em terras distantes tinham chegado aos que estavam na missão militar, em defesa das Terras de todo um povo disperso.
Há muito o sol tinha entrado na penumbra e de passagem avistaram-se as luzes de Silva Porto.
Depois de passada a noite em viagem, em composições, apenas com uma fila de lugares, por conseguinte, com um corredor junto ás janelas de cada carruagem. Aquela etapa terminou na vila do Luso.
Depois de se dar pouco mais do que uma mirada à vila, seguiu-se de novo em camionetas, por estrada de veredas, até à povoação de Dala, onde houve paragem, afim de se tomar um refresco.
Eram vinte e quatro horas quando o novo esquadrão chegou à cidade de Henrique de Carvalho que na verdade, localmente, sempre se designou pelo apelativo nome de Saurimo, mesmo depois de em 1923 o General Norton de Matos lhe ter atribuído o nome daquele grande explorador de terras africanas, nomeadamente da Lunda, cujo Distrito fundou e do qual viria a ser primeiro governador, em 1845.
Na verdade, com a especialização de cozinheiro da tropa, o que foi pretexto para um resto de noite, de vinte e sete para vinte oito de Julho, ser passada na cozinha, entre muitas recordações e petiscos.
Só às quinze horas acabou por se partir debaixo de um sol abrasador, à africana, sempre em camionetas civis.
Para um observador, como o Onofre, a viagem até Camissombo, fazendo a travessia do planalto da Lunda, apresentava uma vegetação lindíssima a tornar a paisagem paradisíaca. Assistir-se ali, em cima da caixa da camioneta ao Por do Sol, como aconteceu tornou-se deslumbrante, o sonho de uma vida.
Chegadas as vinte e quatro horas, quando se deu a chegada, Jantou-se e depois pernoitou-se, encontrando-se cama no soalho de cimento, numa dependência do aquartelamento daquela localidade, formado por militares idos também da metrópole, o que sempre se tornava evidente, tendo como Segundo Comandante, o mesmo que já tinha exercido essa função na recruta do Onofre em Elvas.
No dia seguinte de manhã foi feito o resto do percurso em estrada de terra, sempre plana e permanentemente ladeada de bambus, outra maravilha para a vista.
Observou-se o impensável, em cerca de apenas de duas horas de viagem - dp Camissombo ao Dundo - bastaram, para dois alferes terem ingerido a grade de cervejas, vinte e quatro garrafas, que tinham adquirido.
Coisa de alarves abastados como eles de facto, eram!... A ponto de um aventar que o dinheiro recebido e era acima da média, não lhe chegava para as despesas feitas em campanha e tanta gente a morrer de fome!...
Destinada à vila da Portugália, periférica da cidade diamantífera do Dundo, antes do almoço logo estacionou, o esquadrão eventual 350, em aquartelamento improvisado de casas pré fabricadas, com localização junto ao rio Luachimo que dera nome a um filme, Realizado pelo conhecido major Baptista Rosa, de promoção da Companhia Diamang, a que também se ia dar protecção.
Daniel Costa –in JORNAL DA AMADORA

domingo, 11 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 16

A MONTANHA E A CIDADE

Além, da montanha onde o comboio, Gabela - Porto Amboim, fazia trajectória, outra de menor altitude, bem visível da cidade que, para o Onofre, ficou como indelével marca da capital do Amboim.
Aquela montanha, juntamente com o cultivo do café, que marcava a grande riqueza da própria cidade da Gabela com muitos "arimbos" em redor, dignos de nota, visto que, mesmo um militar atento, não podia de deixar de admirar e até fixar para uma aprendizagem de futuro, tendo em conta não estar a fazer carreira no exército.
Contribuía também para essa riqueza a forma de alimentação da flora do café, Era feita por meio de folhas dentadas das muitas árvores, que se encontravam plantadas entre os cafeeiros. Estas, caíam no chão, desagregavam azoto e outras substâncias que iam caindo até á raiz das plantas, alimentando-as.
Na altura a população do Amboim, que se estendia por uma área de 9.879 quilómetros era recenseada em 3.076 homens civilizados (leia-se brancos) e 92.176, não civilizados.
Dos não civilizados, alguns também possuiam os seus "arimbos", com plantações de cafeeiros cujo produto de inferior qualidade, no fim era vendido aos vizinhos brancos.
A explicaçao para a inferioridade era a de, os respectivos agricultores não se esmerarem na de manutenção do cultivo. O que a terra dava bastava-lhe para o sustento, pelo que após a venda gozavam o produto monetário, sem outra preocupação do que esperar nova colheita em safra, que apenas o ritmo do tempo haveria de trazer.
Não esquecendo, que o Esquadrão se regia, sobretudo pela actuação militar. Continuavam porém outras sagas, como a das Madrinhas de Guerra, em grande parte objectivando a sua "promoção, como então era voz corrente, cujas podiam almejar ao namoro, o que muitas vezes aconteceu.
O Onofre chegou a receber correspondência de dezassete. Por cada uma que deixada de escrever, o que estava constantemente a acontecer, era mister arranjar duas. Não obstante a Ana Zé, com a juventude dos seus dezasseis anos, com muitas cartas a trazerem alguma conversação sobre lições do liceu que, frequentava, eram de um sabor inebriante, ao serem lidas e relidas com toda a atenção.
O jogo de cartas acabara, definitivamente, as amizades mais próximas, mercê de novo enquadramento, os interesses haviam mudado, se bem que, os amigos nunca tivessem deixados de o ser.
Foi assim que se verificou uma aproximação de pontos de vista do Onofre com o Soeiro, um cinéfilo nato. Ambos começaram a engendrar o coleccionismo de fotografias de artistas. Ao tempo um homem só se fazia, a fotografias de artistas mulheres, Assim, por questões económicas, cada um dos consórcios escrevia a uma vedeta diferente, só depois de uma resposta, o outro avançava com a solicitação.
As moradas eram extraídas, normalmente de uma publicação semanal em revista, chamada PLATEIA , era muito acessível e tinha secção própria de moradas de agentes de artistas a actuar em espectáculos ou a editar discos, onde estavam sedeados os contactos.
Acrescenta-se, para indicar ter o mesmo periódico também secções para os mais variados pedidos, como de namoros, trocas de correspondência, onde em grande parte se incluíam Madrinhas de Guerra.
Enfim, corriam outros tempos!...
Só a vinte e três de Abril, chegou a vez de Onofre entrar de cabo da guarda ao paiol situado, obviamente num descampado, perto das traseiras do aquartelamento.
O serviço era efectuado por um grupo de três elementos, composto por outras tantas praças, uma delas um cabo a comandar a força, que se revezava diariamente, um dos quais aproveitava a noite para a passar no "muceque" onde tinha a lavadeira namorada.
Nesse serviço e em todos coube ao Onofre a primazia, depois era norma este voltar de madrugada.
Mais tarde o estado de graça, iria mudar como se verá.
Nessa altura já o Capitão Alves Ribeiro, tinha reunido todas as praças em formatura, mostrando-lhe o seu apreço e ao mesmo tempo falar do tema "mulheres lavadeiras". Ao contrário do que podia estar nas mentes. o comandante só alertava para a possibilidade de haver desacatos, porque era evidente que em muitas "sanzalas", o dono da casa nunca era visto, ficava voluntária e temporariamente desalojado.
Na alocução ficou dito que, apesar de tudo se viesse a haver algum ferimento, ficaria muito desapontado se acontecesse a algum militar, cujo podia sempre contar com o seu empenhamento pessoal.
Como é evidente, todos se congratularam, porque foi ditada a pena de não poder distribuir uma pistola, para acompanhar sempre cada militar.
Onofre que, se fazia acompanhar de um granada ofensiva, material de guerra que contra as regras, só viria a entregar no Grafanil, no fim da comissão, sem revelar o segredo, concluiu que agia acertadamente.
Os dias de folga eram sempre passados alegremente, das mais diversa formas, mesmo numa cidade que só tinha uma sala de cinema a funcionar apenas um dia da semana que, era de festa e um só café e um só café a trabalhar, para a tropa havia muito para entreter, até os dias em que se alinhava, em tarefas exteriores eram salutares, sobretudo nos fins de semana pois havia o A.R.A. onde se efectuavam bailes.
Era dali que emanavam os desportos, como o basquebol e outros, de que aquele clube, mercê do recrutamento no Esquadrão, passou a vencer tudo em que entrava.
Além, de muitos outros de grande qualidade, no 297 estava um dos grandes basquebolistas do Benfica de Lisboa, cuja mobilização interrompeu a carreira. Ainda havia o Sporting Clube do Amboim, também a beneficiar de grandes jogadores sedeados no Esquadrão da cidade.
Estar de ronda, um sargento a comandar, coadjuvado por um cabo e um soldado raso, serviço de vinte e quatro horas, dava para correr a cidade e aldeias de "sanzalas" periféricas, parar aqui, além e por aí fora.
Em dias de cinema, ou outros eventos, a ronda militar, era-lhe também destinado. Assistia-se à exibição de filmes, sempre de pé, nas alas laterais. Vários acontecimentos, lúdicos atraiam o tipo de serviço, que tudo procurava controlar com a sua presença.
Assim, se podia ir reparando no facto de estes acontecimentos serem apenas destinados a brancos. Os pretos presentes, serviam apenas nos serviços inerentes.
Chegados a trinta de Abril, um pequeno grupo, onde se incluía o Onofre, foi em socorro de um Jeepão que, emanando do Esquadrão, fora de serviço a Quibala e no caminho voltara-se.
Depois de tudo resolvido, só já na manhã de um de Maio, se deu o regresso ao aquartelamento, com duas grandes lebres, primeiro encandeadas com a luzes, a seguir caçadas com o rodado.
No mesma noite, depois de cozinhadas em pitéu à moda africana, foram servidas em verdadeiro banquete aos apanhadores e amigos mais próximos.
A onze de Maio, uma brigada com a inclusão do Onofre, foi destacada para recolher areia, objectivando obras no aquartelamento. Passando na possessão de um agricultor branco, este ofereceu um agradável lanche a todo o pessoal.
Num serviço de ronda, que tinha saído por escala a integração do Onofre, foi apanhado um delinquente, em virtude de ter rapinado setecentos Angolares a um colega do Esquadrão. Como mandavam as regras, fez-se a entrega do rato ás autoridades de policia local, sendo feita a recuperação. Estava-se a dois de Junho de 1963.
No Domingo seguinte, dia dez, veio à Gabela o Capelão, que estava no comando geral em Novo Redondo, celebrar missa por alma do primeiro defunto registado no Esquadrão, morto em combate, cujo corpo ficara a jazer no cemitério militar de Muxaluando. Voltou a registar-se uma jornada de grande consternação.
Em dezassete de Junho, assistiu-se a um jogo de futebol, num campo junto ao "muceque" do Aricanga entre a equipa local e a Cavalaria, tendo ganho obviamente, a tropa por 3 a 1.
A dezanove houve a visita do Comandante Militar do Sector, Brigadeiro Schult, ao Onofre coube integrar o núcleo de militares, que no pequeno aeroporto, guardava o avião que transportava a comitiva, pelo menos evitou o incómodo que é a presença, em formatura numa Guarda de Honra.
No âmbito das habituais festas da cidade da Gabela, houve uma oportunidade de poder assistir-se à exibição de um grupo folclórico, composto por nativos, que interpretaram modas portuguesas e angolanas, mostrando uma boa performance -se. Na sequência, além de muitas actividades lúdicas, assistiu-se a um encontro de basquete entre a Mocidade Portuguesa Feminina e a Masculina.
No dia sete de Julho, Onofre, foi convocado para integrar um grupo pertencente a um pelotão de nativos que, vindo do quartel de Nova Lisboa, estava presente no improvisado alojamento, adido ao Esquadrão.
Só o alferes era branco, de modo que sendo de praxe ter a companhia, nos serviços de um cabo com quem dialogar, assim acontecia.
Saiu-se de madrugada numa missão denominada de psico social. Estava muito frio, não obstante isto passar-se em África. O alferes já habituado, seguia agasalhado com uma manta, conselho que deixou.
Depois tudo correu bem, actuou-se na "libata" (quinta) do Nhuma, a razoável distância da cidade, depois de hasteada a Bandeira Portuguesa, com os dois brancos a fazerem de enfermeiros e psicólogos, ministrando vários medicamentos e verificando que aí o português, era uma língua ainda não assimilada, o que já deixara de ser estranho.
Por fim os titulares "Libata", sempre presentes, mandaram servir uma óptima churrascada, verificando-se que os militares pretos, tropa de segunda, como constava da própria lei militar, tiveram de comer espalhados pelo soalho da sala.
No dia seguinte, o Onofre foi chamado ao capitão, o que nunca constituíra problema para o visado,
Mais uma vez, a convocatória trazia bons augúrios, foi dito:
- O nosso alferes gostou da tua companhia e pediu-me para seres sempre tu a ir com ele, pensei que não te importarias e dei o meu aval. Houve cordialidade, ainda que vinda de um Comandante formado na Cavalaria, parecia elogiosa.
O Onofre por mais três vezes desempenhou com agrado aquelas funções, porque terminavam sempre com a inenarrável churrascada africana e jamais esqueceu a manta, para se agasalhar, nas frias madrugadas daqueles sítios.
No dia dezoito de Julho, o Onofre assistiu a uma sessão de cinema no Salão do "muceque" Aricanga, frequentado apenas por indígenas, onde os militares brancos, da classe de praças, passavam sempre alheios a qualquer tipo de descriminação. Foi exibido o célebre filme espanhol "A Rapariga das Violetas", com Sarita Montiel.
Chegava-se ao fim de Julho de 1963 e era voz corrente, ir formar-se um novo esquadrão a partir de todas as unidades do 350 e outro do 345, comandado pelo Tenente-Coronel António de Spínola, também no Sul, a que afinal tinha pertencido o grande 297, ainda no quartel de Estremoz.
Dos dois cabos especializados em metralhadoras pesadas, dizia-se que avançaria um, pelo que o Onofre, apesar de ser o mais antigo, como indicava o número, não duvidava que, a ser assim, por razões particulares de estratégia, seria o designado para outra grande aventura.
A vinte e três, realmente, foi substituído no paiol, onde tinha entrado de serviço, por ter sido escolhido para o tal esquadrão eventual 350, destinado ao território da Lunda Norte.
Na altura o comandante do Esquadrão viera a saber que em todos os serviços ao paiol era recorrente, haver quem se desenfiasse,
Reuniu todos em formatura, os que ficavam seus comandados para os informar que, a partir daí, qualquer faltoso seria punido.
Sabendo, como a comandante Alves Ribeiro actuava disciplinarmente: Quando avisava, esquecia todo o passado, daí para a frente era como "S. Vicente não perdoa a são nem a doente", ouvindo um cabo "tipo chico esperto", ainda com pouco tempo de Esquadrão, com tarimba de cidade dizer que, não seria bem assim, o Capitão não podia ver tudo.
Ao mostrar tanta insensatez, mesmo depois de aconselhado, acabou por ser o primeiro, quiçá o único, a apanhar os respectivos dez dias de prisão, cujos efeitos em clima de guerra, só se faziam notar, no acto de receber o pré, visto esses sairem brancos, para o efeito
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

sexta-feira, 9 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 15

A CIDADE DA GABELA
Tinha chegado a altura de todo o Batalhão 350 regressar, por dois dias, ao Grafanil, local de passagem para Quanza Sul, onde ia estacionar em serviço e ao mesmo tempo gozar, como de um prémio, pelo tempo em operação a Norte, onde se estava a desenvolver o terrorismo, uma das causas próximas, que vieram a originar a Revolução de Abril de 1974.
Ainda a sete de Abril de 1963, toda a gente, mormente o pessoal do Grande Esquadrão, em formatura ouviu ordens e boas palavras do respectivo comandante, para gozar bem, a breve estadia na cidade de Luanda. No mesmo dia em que o Onofre, com a sua camaradagem, experimentou as delícias de um jantar num bom restaurante da cidade, a mesma que num exame de instrução primária, naquele tempo chamado de segundo grau fazia lembrar, complacentemente na oral a certo examinando, a capital de Angola com o trocadilho - "terra onde a lua-anda".
No dia seguinte, deu para verificar, que o inóspito Grafanil de Janeiro de 1962, em que eram estreadas as primeiras casernas, em 1963 podia ser visto como uma grande cidadela.
Já não havia carros civis a parar a toda a hora, junto aos portões, prontos a transportar soldados disponíveis até à cidade, nem as camionetas militares, a hora certa, para condução do pessoal que desejasse passar as horas de folga nas delícias da civilização.
Havia casas de banho, em lugar de sentinas e ainda duas salas de cinema a funcionar diariamente e como a exigência se avolumara, lá se formavam carreiras regulares de "maxibombos" (autocarros), para a terra que os militares estavam a transformar numa novíssima "Somorra", bem enquadrada pelo Atlântico, naquela baía africana linda de morrer.
No dia seguinte ainda se dormiu em pleno Grafanil e como, ao fim e ao cabo, o que havia ali mais a fazer, era gozar o máximo na capital portuária da África Ocidental Portuguesa, foi esse o estímulo que cada qual concedeu a si mesmo.
Na madrugada do dia nove, por terminado o efémero idílio, o Esquadrão retomou a sua rota para o concelho do Amboim, com a capital sedeada na cidade da Gabela, onde estacionou o grosso, com o comando.
Para o Onofre, toda a novidade era aventura, estava a dar-se uma nova fase da mesma, para o que contribuía, todo aquele magnífico cenário africano.
Do Grafanil passou-se pelo Dondo, onde teve lugar o almoço, depois aproveitou-se para uma visita à famosa barragem de Cambambe, donde se seguiu viagem até Quibala, com a passagem da noite, em cima das caixas de camionetas civis, com algum frio, a parecer estranho em África, além da habituação, em contraste adverso no norte.
Às quatro da manhã seguiu-se até ao destino, a cidade da Gabela.
Na entrada do que sendo uma cidade ainda nova, não deixou de se anotar, o desencadear de uma chuvada, que obrigou toda a tropa a ter de esperar que secasse o trilho de terra batida, que provia o seu acesso, para conseguir percorrer as poucas dezenas de metros que levavam ao primeiro edifício, a servir de quartel, enquanto a companhia a substituir se encontrava instalada noutro local, com o fim de transferir o material e naturalmente a missão.
O contingente substituído, mesmo a nível de praças novas experiências transmitiu.
A grande e interessante surpresa, tinha a ver com as facilidades encontradas no relacionamento com mulheres,
Ainda estava longe de ser conhecida a revolução sexual, que já era factual por aquelas paragens.
Agora, com a acomodação no edifício, que fora um antigo presídio colonial, cujos desterrados, da metrópole motivaram, dizia-se, a fundação da Gabela, apontava mesmo a origem de alguns comerciantes estabelecidos, o próprio Onofre tinha tido como companheiro de trabalho, um ex presidiário que fora parar naquele desterro.
Estava-se pois, na capital do Amboim, na província do Cuanza Sul, uma das zonas agrícolas mais ricas de Angola. Além de muitos "arimbos" (fazendas), onde se cultivava uma das melhores variedades de café do mundo, integrava a grandiosa C.A.D.A. - Companhia Agrícola do Amboim, servida por comboio até à vila de Porto Amboim, na orla marítima, com o seu porto para escoar a grande produção verificada.
Após a definitiva instalação, os militares, tudo jovens rapazes, evidentemente -"com eles nem o diabo quer relações" - começou a ser posto em prática tudo o que ali se tinha á aprendido, extra obrigações militares.
Em breve, cada qual tinha a sua lavadeira num dos "muceques" (aldeias de sanzalas) periféricos e a consequente "cubata", onde passar a noite comunhão idílica, com a preta, que passara a tratar da sua roupa.
Tudo se iniciava assim:
- Queres ser a minha lavadeira?
- "Eu querer minino, mas só lavar roupa, pés não lavar, não ser dessas"!...
Era a deixa essencial, para a mulher se fazer conquistar, pois nessa mesma noite já a "cubata" estava à disposição para o lava-pés, uma maneira mais airosa de referência ao acto sexual.
Assim quem não tinha o nome na ordem de serviço, podia ser encontrado a passar a noite numa das "palhotas" do bairro Sousa ou do Aricanga em companhia feminina.
Chegou o Dia de Páscoa, a catorze de Abril de 1963 e a escala de serviço, apontava a nomeação do Onofre para Cabo de Dia, o que dava como consequência o ficar a exercer um serviço interno ao Esquadrão, provocando a impossível de saída, facto que diferenciava bem o tipo de trabalho, em quartel de uma cidade, em que tudo podia ser programado, ao invés do exercido em pleno local de intervenção de guerra, onde a ordem podia ser alterada, pelos mais variados imprevistos, causados por alertas, que poderiam surgir a qualquer momento.
De qualquer modo, a estabilidade era uma nova evidência a que todo o pessoal se estava a adaptar, entre o exercício dos mais variados serviços e os dias de folga, em que se podia visitar a cidade, estar no único estabelecimento de café existente, ir à sessão semanal de cinema, ou a jogos de campeonatos distritais disputados no A.R.A. - Associação Desportiva do Amboim, à piscina municipal e ao interessante Mercado Municipal.
Ao domingo, uma das opções, era a visita aos "muceques" que se situavam em redor da cidade, sobretudo ao do Aricanga, que dispunha de uma sala de cinema, destinada a índigenas, mas em que os militares, da classe de praças, não menosprezavam assistir à sessão domingueira.
Também se voltara tornar usual ir dominicalmente à missa, na bonita Catedral da cidade.
A dezasseis de Abril o Onofre, por escala, constituiu um grupo de serviço de patrulha, como sempre, composto por três elementos: Sargento, cabo e soldado raso, montados em Jeep, a tarefa era vigiar tida a cidade, em que se incluiu a Roça dominada por Covil do Perigoso, onde foi oferecido um lanche aos militares, com a inclusão de umas "cucas" fresquinhas que foram divinais, num dia que se apresentava tórrido.
Das tropas estacionadas na Gabela, faziam parte núcleos militares, nas vilas de Quibala e Porto Amboim, daí que surgissem também viagens de serviço, normalmente transporte de informações, necessárias a todas as redes de operação dos exércitos.
Em vinte de Abril um Jeepão com pequeno grupo de militares, onde ia integrado o Onofre, foi designado para se deslocar a um desses destacamentos, em Porto Amboim: A operação acabou por se gorar, devido a uma tempestade que passara pela zona, fragilizando ainda mais, uma velha ponte de madeira do caminho, que não aguentou a passagem da viatura.
A tropa, com o seu próprio esforço, conseguiu retirar o veículo. Mesmo assim a missão ainda seguiu em frente até ao grande colosso da C.A.D.A. onde se almoçou o inefável pacote de ração individual de reserva.
Depois o comandante, um sargento, devido ao dilúvio que por ali tinha passado, verificou não haver condições de prosseguir a viagem e optou pelo regresso à base.
Ficou contrariado o grande desejo aventureiro do Onofre, de lhe calhar em sorte uma missão à vila portuária de Porto Amboim, mas mesmo assim, detectou motivos de nota.
A determinada altura, estava-se como que sem orientação. Abordado um nativo, à pergunta:
- Porto Amboim, ainda fica longe?
- Fica sim!...
- Feita a mesma, ao contrário, Porto Amboim fica perto?
- Fica sim!...
A interpelação foi feita a outros transeuntes nativos, sempre com o mesmo resultado.
Ficou logo a certificação, que os indígenas a viver mais afastados dos centros dominados pelos colonos, só sabiam alguns monólogo da língua portuguesa.
Verificou-se o grande desenvolvimento agrícola, que realmente existia na Província do Cuanza Sul , pois grande parte do caminho estava bordejado de laranjeiras, que na circunstância e com a colaboração do condutor, a acção dos militares fazia juncar de laranjas o estrado da viatura, que depois transportou para o quartel, tudo executado em andamento.
Anotou-se posteriormente, que as missões seguintes, do Esquadrão à vila da beira-mar, foram feitas no comboio do Amboim.
Ouvir descrever as peripécias de quem efectuava a viagem era, como que, ouvir um conto de aventuras.
Cabe descrever o elevado tempo gasto, para andar, naquele comboio, cerca de cento e vinte e quilómetros de linha, ida e volta. Tinha de andar em volta de uma montanha, por onde passava, ainda próximo dos laranjais.
Dava o tempo necessário, aproveitado nas calmas, para encher o bornal de frutos daquelas árvores e depois de devidamente abastecidos, voltar a tomar o lugar na viatura do caminho-de-ferro.
Estava-se perante parte do folhetim da vida que se oferecia a quem estacionava em serviço militar na Gabela.
Isto e muito mais, fazia o Onofre, oriundo de meios modestos, recordar o título e o conteúdo do livro de Camilo Castelo Branco - "Riquezas do Pobre e Misérias do Rico"!...
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

quarta-feira, 7 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 14

O MÍTICO MORRO
DA PEDRA VERDE
No dia cinco de Abril do longínquo ano mil novecentos e sessenta e três, todo o Batalhão espalhado por Fazendas na vasta região dos Dembos, a norte de Luanda, deixou essa zona de intervenção, para depois de cumprido ali o tempo de guerra, se ir instalar mais a sul, onde o serviço era destinado apenas a salvaguardar, com a sua presença, a soberania portuguesa no território, enquanto se ia dedicar a uma acção psico social mais calma.
A verdadeira aventura do Onofre, começou logo nessa manhã, no corredor entre o Tari e o Mucondo, num sítio onde se evidencia uma curva, a ideal para os terroristas da UPA planearem uma emboscada ao Esquadrão, de modo que durante quarenta e nove minutos, estalaram inúmeros disparos, por parte das tropas atacadas em movimento.
Pela única vez o Esquadrão se viu envolvido num ataque de tal envergadura. A estrada tomava o aspecto de uma verdadeira batalha, em que o armamento disponível era desusado, mesmo para o tipo de guerrilha a despontar, já que era o proveniente da substituição, composto por Mausers e metralhadoras ligeiras.
Onofre, especialista em metralhadoras pesadas, do que sempre fora acompanhado, foi com certa surpresa, a destreza evidenciada, primeiro com uma espingarda Mauser, depois como ajudante de uma ligeira, já que o respectivo apontador, a trabalhar individualmente com aquela arma, por muito bom que fosse e provou-o, a funcionar como atirador e a municiar, não podia extrair o rendimento devido.
A nova dupla acabou por funcionar em pleno. Parecia que tinham treinado juntos a acção, pois o fogo a sair do cano da arma passara a ser muito denso.
O ataque acabou por ser mais longo do que o conhecido, usualmente, em que a técnica usada era o "bate e foge"!
Aquele, porém foi muito vasto, porque era a retaliação reservada ao 297, uma vez que o Esquadrão tinha sido considerado, pelo inimigo, como inacessível, ao poder militar da força terrorista da região.
Ao avaliar os estragos, houve quem subisse de novo às camionetas e ainda visse fugitivos muito ao longe, a lei da balística contrariava as hipóteses de os atingir, não obstante ainda saiu bastante tiroteio, á mistura com contundentes imprecações direccionadas aos "turras" em debandada.
Aconteceu uma verdadeira tragédia de guerra, que se irá contar sem truques de ficção, como é recorrente desta narrativa.
Começa pelo Comandante do Esquadrão, Alves Ribeiro, a subir à camioneta civil, principal acidentada, porque terá entrado na zona mais nevrálgica, atingida por uma granada incendiária. Transportava
Onofre sempre atento a todos os pormenores, que alcançasse pôde testemunhar esse verdadeiro acto de bravura, deixando assim de ficar ignorado, como muitos outros o foram nas últimas campanhas militares, que a juventude protagonizou durante cerca de treze anos em África.
Foi uma grande odisseia este cinco de Abril, porque se passava o dia mais marcante em más recordações, para todos os intervenientes do Grande Esquadrão. Transportava apenas sacos de campanha e algumas, Mausers.
Quando ainda não havia total conhecimento da dimensão da batalha, em relação à força militar, de outro lado, pode considerar-se actuação de bravura a do soldado Dimas, que com as muitas imprecações evidenciadas, a esvair-se em sangue dos membros inferiores, continuava a disparar, tiro a tiro, com a sua Mauser, em ritmo frenético no abre a culatra, fecha a culatra e dispara.
O Dimas, já depois de passada a mobilização, ainda se encontrava em Lisboa, a receber tratamento no hospital militar, o que aconteceu durante muito tempo, acabando por ficar com um certo grau de invalidez.
No terreno, muitas observações podiam ser apontadas. O transporte era efectuado por viaturas alheias a serviços de guerra, em campanhas militares. Não obstante a Companhia de Transporte Militares Elefante, que também participava, com camionetas blindadas, ostentando o paquiderme como emblema, a torná-la muito conhecida nos meios.
Debaixo de um desses, um furriel pertencente, com o bronzeado de verdadeiro veterano, manejava a sua arma automática com grande destreza e a escorrer muito sangue pela testa. O Onofre quase lhe rezara pela alma, mas felizmente não era caso disso.
Verificou-se que tinha sido atingida, mas só de raspão, o suficiente para sangrar e o deixar marcado por levíssimo ferimento sem consequências.
Um sargento falava para um gravador as suas impressões relativas ao momentoso acontecimento.
Perto, o Onofre sempre acompanhado dos inseparáveis papéis e caneta, também tomava as suas notas, para quando possível, adicioná-las ao seu Diário.
Com razoável rapidez chegaram meios aéreos, já desnecessários, mas não deixando de marcar presença com o despejo de alguma artilharia.
Chegou a altura de conferir, não só a devastação, mas tomar conhecimento de outros casos, como o espantoso do Alípio, atirador cuja formação profissional e dotes foram aproveitados para tarefas administrativas.
Por não ter chegado a pertencer à tropa de guerra, foi-lhe destinado lugar ao lado do motorista numa viatura civil. O condutor foi abatido, ao atirar-se para o chão.
Presume-se que o lado do Alípio também estava no ponto de mira - abria a porta e seria mais uma baixa mortal. Tal não aconteceu, o militar mostrando um coeficiente de inteligência muito elevado, saltou para o lado contrário, ainda que, por cima do cadáver.
No momento seguinte a outra porta da mesma viatura, que não se abrira, foi cravejada de balas!
Anotadas as respectivas baixas, cifravam-se em seis mortos, entre eles o condutor civil e doze feridos.
Reparadas as viaturas acidentadas pela violência, eram quatro horas da tarde, o pessoal apenas tinha ingerido um madrugador pequeno-almoço e assim foi retomado o rumo.
Uma viatura transportava os cadáveres a sepultar na Fazenda Mucondo, os feridos já tinham sido evacuados, por helicóptero para o Hospital Militar de Luanda.
O dito - " um mal nunca vem só" - nunca terá sido tão bem adaptado. Depois de tudo resolvido reiniciara-se a marcha e por ser época de tempestades tropicais, desatou a chover e ao contrário do habitual, a chuva, durou até ao dia seguinte, o que causava enorme lentidão dos transportes.
A certa altura, chegou-se à ex povoação do Quicunzo e houve necessidade de ser mudada a estratégia da progressão.
Em resultado, a viatura que transportava a esmo, os corpos dos falecidos, passou a formar uma coluna avançada, com escolta própria a que foi adicionada uma outra força, incluindo o próprio Onofre, que nessa noite de seis de Abril, ainda esteve em movimento, andando apenas alguns quilómetros, até se chegar á fazenda Bombo, onde se esperou pela restante componente daquele movimento militar.
O Onofre, mesmo sempre debaixo de chuva, talvez por estar esgotado das muitas emoções, dormiu profundamente, na camioneta civil de caixa aberta, em que viajava armado, no serviço de guarda aos cadáveres.
Chegada a coluna, que tomara a dianteira, à grande cantina da Fazenda, cessara a chuva e a vontade de ingerir alimentos, em virtude de prolongado jejum até os produtos menos atraentes se esgotaram, pelos componentes daquele grupo avançado, que acabou por ignorar o conjunto das muitas unidades militares que o antecediam.
Com a melhoria, evidente das condições atmosféricas, após ser feita a junção das tropas naquela Fazenda.
Foram então os feridos evacuados e a coluna passou a seguir de novo unida até ao próximo acampamento militar, o Mucondo, onde estacionara um outro esquadrão da mesma Cavalaria.
Já a sete de Abril os mortos, com a assistência militar disponível, ficaram ali sepultados.
De seguida, foi retomada a ida para o Grafanil - Luanda.
Aquela viagem de tragédia, iria passar por estrada alcatroada, trabalho de engenharia militar, coisa que durante treze meses esteve vedada à maioria dos militares que compunham a coluna, como se estivessem a entrar no éden do planeta terra.
Rumando em estrada pavimentada, logo quase de inicio, deparou-se à esquerda o morro da Pedra Verde, agora pacificado e altaneiro, como um ícone dos alvores do terrorismo, tomado nos mesmos tempos, com os foros de heroicidade e a mesma euforia verificada com a reocupação de Nambuangongo.
No mesmo dia, finalmente, por todo o Batalhão perpassava a alegria do regresso a conhecidas terras de Luanda, capital da Província.
Ia dar-se começo a nova fase da grande aventura do Onofre.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

segunda-feira, 5 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 13

COMUNICAÇÕES OPERACIONAIS
Todas as tropas regulares apresentavam serviços de Transmissões, assim como as companhias militares eram acompanhadas de grupos próprios de comunicações.
O Esquadrão, que era denominado pelo número 297, não podia estar fora de tão elementar regra e apresentava o seu grupo, comandado por um sargento especializado, com curso militar próprio.
Além do responsável, o núcleo era composto por outros especialistas entre soldados e cabos onde, um era formado na decifração de mensagens codificadas.
Da parte da UPA, o grupo opositor, na altura e na região, forçosamente, tinha os seus modos de comunicar entre as diversas posições e comandos, estes normalmente situados fora das fronteiras do território.
Com a colaboração do "arrependido" Lopes Cabanda, conhecedor da zona envolvente, suas picadas e respectivas movimentações, numa operação concebida para capturar dois elementos que serviam de "correios", no caminho a percorrer na execução rudimentar daquela normal missão de transporte de informações.
Sob o comando do alferes Ribeiro, o seu pelotão levou a cabo a missão de capturar os dois elementos encarregues da importante tarefa.
A determinada altura surgiram dois vultos, personificando o motivo da emboscada, À ordem de paragem não houve cedência tanto bastou, para que, uma saraivada de balas das G3, perfurassem ambos á altura do tronco. Como será de imaginar, vieram a tornar-se em mais duas baixas infligidas aos rebeldes.
A parte interessante do episódio, foi um dos protagonistas do tiroteio, que tinham chegado ao Esquadrão na zona operacional, por castigo e consequente expulsão aplicados na origem
Um deles, talvez já por deformação, apresentava ares de verdadeiro terrorista, mas todos deram na presença dos ainda moribundos, uma de bonzinhos, exclamando!... "Levantam-se que a tropa é amiga e trata bem os doentes"!...
Obviamente, não demorou muito a que se registassem as duas baixas.
A operação foi concretizada dentro do previsto.
Só que depois de geralmente conhecidos os contornos, chegou a ocasião de ser encontrado ali um motivo de piadas de divertimento e os protagonistas principais, durante algum tempo ouviram, com gozo, a glosa:
- "Levanta, que a tropa é amiga... pum... pum... pum!...
Coisas, que iam aparecendo e serviam de motivos de brincadeira, no obrigatório isolamento, davam o passar mais despercebido.
Deve estranhar-se esta operação ser considerada importante e de êxito total, mesmo só com as baixas dos dois únicos "turras" emboscados, por todo um pelotão de cerca de trinta homens. Como todas as outras eram sempre de fraca produção, assim determinava a própria natureza do conflito, levado a cabo sempre em meio dominado por uma exuberante vegetação.
A quinze de Fevereiro, uma coluna do Batalhão, sedeada na Fazenda Mucondo, em deslocação para Muxaluando, no caminho sofreu um ataque de apenas um tiro, dirigido a um Jeep, transportando o alferes Ferrão, no comando da coluna.
Foi este oficial a baixa registada, já no posto médico do Tari, depois de ser tentada a reanimação.
Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação: Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, que seguia no Jeep da frente, que embora blindado, passava a ser o alvo a atingir.
Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por "mata alferes", o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria.
No dia vinte e três ainda em Fevereiro, reuniu em formatura o Grande Esquadrão para ouvir a leitura, pelo próprio Comandante, de um louvor colectivo que lhe fora atribuído por relevantes serviços, pelo comandante em chefe de Batalhão.
Nesta altura já o jogo de cartas, com imensa pena do Onofre, era outro, o do "abafa", talvez por influência de novos elementos, das várias proveniências, que foram chegando ao Esquadrão, normalmente na sequência de castigos, por ser zona de intervenção e naquele tempo a considerada de maior perigosidade.
O novo modelo de jogo tornava-se perigoso, pois via por vezes, boas somas de Angolares em cima da banca, era mesmo brincar com o dinheiro. Já não era para "intelectuais", como o Onofre que se poderia considerar um bom jogador de sueca, visto memorizar as cartas saídas, pelo que com com os trunfos divididos, como se dizia, ele e o Picão ganhavam sempre.
Outra coisa recorrente, até depois durante toda a comissão, foi o reparar-se serem os frigoríficos alimentados a petróleo, onde uma torcida acesa provocava o funcionamento do motor, a gerar o frio, tal como eram alimentados os candeeiros a alumiar ainda as casas da maioria das aldeias metropolitanas.
Em zona de mato os indispensáveis serviços eléctricos eram da proveniência de potentes geradores.
Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas do esquadrão de comando, houve a baixa de um furriel, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.
Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam. Algumas vezes, tendo-se como alimentação as caixas de ração de reserva, concebidas como uma refeição substancial, o que não se podia negar, mas por demasiada utilização, eram detestadas.
Entre os mais variados serviços de escoltas, por todo o género de picadas, sobretudo dentro do capim, mais alto e a sobrepor a própria viatura, chegou mais uma a dezanove de Março, a acompanhar camaradas de regresso de mais uma operação, em que não foi avistado qualquer elemento da insurreição.
Mais uma vez chegara o tempo das grandes tempestades tropicais, muito visíveis, por se tornarem frequentes naquela zona Norte de Angola, entre os inúmeros casos cita-se o de um dia em que integrado numa escolta a Muxaluando, Onofre e camaradas chegaram ao Tari pela noite dentro, denotando a falta de jantar.
Aí revelou-se a atenção do comandante do Esquadrão, Alves Ribeiro que, vindo a acompanhar via rádio, a penosa progressão da coluna, recebeu os comandados e assistiu ao jantar, mandando distribuir bagaceiras e cafés, no fim, a todos os que viveram a odisseia.
Aconteceu mais a demora porque, uma camioneta GMC, como se tornara habitual, para aguentar eventual impacto de minas, encabeçara a coluna e ao passar por uma subida bastante inclinada, face ao terreno empapado da persistente chuva dificultava extremamente a progressão.
A vinte e sete de Março chegou, finalmente uma companhia a render o Esquadrão do Lifune Tari.
Em vinte e cinco ainda foi feita uma escolta de viaturas civis, pela esquadra da Breda e elementos do respectivo pelotão a que pertencia o cabo Onofre, à Fazenda Mucondo.
Como o dia se apresentava ainda chuvoso, por aquelas verdadeiras veredas, o serviço numa extensão a rondar os trinta quilómetros ou seja sessenta, ida e volta demorou todo aquele dia.
Logo no seguinte começava, de facto a tão almejada rendição com a entrega da metralhadora pesada montada em Jeep blindado.
A verificação do contador de quilómetros, deu que Onofre e colegas especialistas daquela unidade pesada, porque tinham tomado conta da viatura com zero quilómetros, pudesse ver haverem percorrido naqueles terrenos dos Dembos cheios de irregularidades, cerca de oito mil quilómetros.
Até então só tinha pressentido três tiros, de canhangulo.
Tão dissuasora arma era trocada por uma espingarda Mauser, para servir no que a revelar-se na mais atribulada viagem, o regresso a Luanda, com destino posterior a uma região livre de terrorismo.
Ainda no dia vinte de Março objectivando uma cerimónia do render, com certa dignidade, elementos do Esquadrão fizeram o acompanhamento da nova companhia a uma operação, de que resultou uma baixa de uma baixa rebelde e a apreensão da respectiva arma.
Já a quatro de Abril formou todo o Esquadrão, afim da formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida, visto que, no dia seguinte deixávamos definitivamente o Lifune Tari.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

sábado, 3 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 12

TRÊS-MARIAS – LUACA
Um pelotão, vindo do quartel de Nova Lisboa, estava estacionado na Fazenda Três-Marias, objectivando fazer parte da logística do Esquadrão 297.
Não estava enquadrado com armas pesadas, pelo que logo do comando operacional, avançou para a nova força com essa componente.
A catorze de Novembro, a nomeação chegou ao pelotão a que pertencia o Onofre, para preencher essa lacuna, com o consequente novo destacamento da respectiva esquadra.
A metralhadora pesada Breda, era como que indispensável, em qualquer aquartelamento, em virtude da eficácia que lhe era atribuída.
O serviço nunca precisou de mudar, a vigilância nas viagens entre as Três-Marias e Tari, sempre em todo o caso actividades dissuasoras, era no fundo uma das missões obrigatórias, levar a cabo naquele terreno.
Assim, no dia dezoito, ainda no mês onze, deu-se a primeira deslocação à Fazenda sede do Esquadrão, foi a oportunidade de, pelo apelidado "jornal de caserna", serem postos em dia acontecimentos de toda a índole, a informação era indispensavelmente desejada.
A vinte e dois de Novembro a rádio difundiu o estranho assassinato em Dallas, do Presidente dos Estados Unidos. Era Jonh Fitzgerald Kennedy, exactamente o governante, de uma das maiores potências mundiais. Onofre muito dado a estados nostálgicos, apenas por pensamento, porque nunca divagava para além de se questionar sobre o andamento dos acontecimentos, mesmo de âmbito mundial.
Foi assim que nesse dia, logo concluiu que a guerrilha iria durar mais alguns anos, porque desaparecera um governante de muita influência nas políticas mundiais, mostrando de várias formas, da sua aversão ao colonialismo, porque continuava a motivar o racismo.
Entre as operações de caçadas, sempre infrutíferas, parecia que a guerrilha com os muitos tiroteios, também tinha afastado os animais de caça, que só uma ou outra vez se deixavam ver, a não ser o caso de se apanhar de uma ou outra pacaça, a servir de rancho, onde se verificou ser de carne dura.
A nomeação para serviços, mesmo os dedicados à caça, que poderiam ter a conotação de lúdicos, sempre eram rodeados do necessário aparato militar e bélico, permanente indispensável.
No dia cinco do décimo segundo mês de 1962, soube ter-se a lamentar mais três baixas no esquadrão do comando.
Na Fazenda Três-Marias as deslocações eram em menor quantidade, houve algumas a Quimanoche, para trazer materiais destinados a melhorar aquelas instalações paramilitares.
A maior parte destinavam-se a viagens ao "velho" Tari. Nessas, mais uma vez se reparou na habitual passagem, por um grupo de árvores, em que podia ser observada a graciosidade dos macacos, tipo saguins, que se exibiam entre pequenos ramos, executando um espectáculo inolvidável.
Aquele género de símios, eram já conhecidos em cativeiro na metrópole, mas vistos no seu babitat natural, em grandes grupos era diferente, deveras interessante o seu equilíbrio e como os ramos, mesmo os de diminuto porte os suportavam!...
Dos muitos quilómetros percorridos, só ali se encontrava a espécie.
Foi também, relativamente perto, na fazenda Lifune, onde se podia ver um desses exemplares em cativeiro, que se havia tomado conhecimento da forma de apanhar vivo um desses buliçosos animais.
Munia-se o caçador de uma cabaça previamente tornada oca, com algumas pevides no interior, uma cavidade própria onde o símio pode deitar a mão ao petisco, de que é extremamente guloso.
Sendo um tipo de animal com características de muita esperteza, nesse particular é incapaz de intuir que, só largando as sementes, que apanhara, tornando a mão maior do que o buraco, por onde a fizera entrar, se conseguirá libertar.
Como teima, em não largar o pecúlio e em manter-se na posse do mesmo, facilmente é apanhado vivo pelo caçador!...
Foi na posição Três-Marias que se festejou o Natal de 1962, houve diferença, em relação a outros dias, o rancho do jantar, constituído por galinha corada, foi melhorado, tendo em conta a degustação, no fim um bom brandy.
A apoteose esteve a cargo dos militares nativos, com a execução de um batuque que durou até alta madrugada.
Chegou o fim de 1962, com tempos passados perto do rio de referência, do nome da Fazenda, o Luaca vagueava perto, entre inolvidável paisagem, com inúmeros fraguedos, várias vezes visitado para banhos, com o indispensável acompanhamento bélico, para fazer face a qualquer surpresa.
Nada aconteceria, por aqueles sítios de ataques armados, houve dias em que o labor se resumia a leitura e... "esperar com impaciência as horas da comida"... mais ou menos, como o escritor se referiu a um frade, cuja frase é pouco abonatória, para a espirítualidade do pastor de almas, onde era citado, em criação, Frei Januário,
Um de Janeiro de 1963, entrava-se num novo ciclo anual, para lembrar o Dia de Ano Novo, o rancho foi apresentado com uma soculenta carne, proveniente de matança de porco, um bácoro que por sorte tinha sido apreendido algures em posição terrorista.
A sete do primeiro mês de sessenta e três, o Esquadrão, sempre em serviço, numa das habituais batidas de limpeza, viu-se obrigado a infligir várias baixas, além de que capturou dois rebeldes.
No seguinte, doze, em mais uma batida, numa outra operação, novo êxito em baixas humanas, no campo terrrorista e a captura de vários elementos, entre eles dois considerados muito perigosos e activos.
Por esta altura, o Major Caldeira, entretanto Comandante interino do Batalhão de Cavalaria 350, em virtude de baixa por doença do Tenente-Coronel Costa Gomes, que logo mostrara aversão ao Esquadrão 297, já que o mesmo tinha sido formado de outra incorporação anterior, considerado mais apto, em virtude de ter passado três meses, adido ao Regimento de Infantaria, na cidade de Faro, onde esperou embarque, sempre em preparação militar adequada à guerrilha, o que bastava para detestar qualquer soldado que informasse ter passado aquele tempo adido no sul do país.
Porém, o Major com as provas da acção no terreno, com o notável comando operacional, um dia foi ao seio do Esquadrão para participar numa batida, uma vez que era, agora para ele, no Tari que havia guerreiros a sério.
Lá foi fazer parte do que seria uma grande operação, comandada por um alferes que, talvez por ser familiar do General Governador de Angola, estava a preparar a sua desvinculação do serviço militar.
Esta terá sido uma das circunstâncias do relatório a mencionar a impraticabilidade de prosseguir a operação, por o inimigo se apresentar com efectivos bastante superiores às tropas, que este comandava.
Assim, o Oficial Superior, em Comandante do Batalhão nada viu, porque quem competia conduzir a acção, recusara manifestamente a sua cumplicidade.
Como epílogo, diga-se sem receio, "farsa fardada", o Major Caldeira, o tal "pai da cuca", em conjunto com o Capitão Alves Ribeiro, criaram problemas ao alferes, que depois de deixar o Esquadrão, já estando no aeroporto pronto a embarcar para a metrópole e ver-se livre do serviço militar, acabou nas fileiras, mais propriamente no R.I.L - Regimento de Infantaria de Luanda, que também funcionava como depósito de Adidos, por mais algum tempo.
No fundo, o Onofre apesar da natureza de aventureiro e de ser dado a muitas reflexões, já tinha reparado no caso de, como militar, não ter permanecido mais de três meses seguidos no mesmo local.
No dia vinte de Janeiro, à passagem das onze horas de Domingo, a tropa conheceu um alerta de se manter preparada para qualquer eventualidade, pois havia chegado denúncia, via rádio de aproximação de novas actividades terroristas.
Não havendo algo de anormal, chegou a altura de baixar a guarda.
Na Fazenda o pólo vivencial das actividades, civis de laboração, distava quinhentos metros do núcleo do aquartelamento militar e era cercado de arame de cobre, de noite ligado à electrificação, para uma primeira defesa. Inúmeras vezes ali se encontravam serpentes electrocutadas, ficavam presas. Mais nenhuma espécie do reino animal conheceu ali o seu fim.
A catorze de Novembro, exactamente dois meses, após a chegada à Fazenda, que se situava perto do Rio Luaca, a guarnição de apoio ao pelotão que viera da cidade capital do Huambo, Nova Lisboa, foi rendida por outra de colegas do mesmo Esquadrão.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA