quinta-feira, 19 de junho de 2008

ESQUADRÃ 297 EM ANGOLA - 34

DA PORTUGÁLIA AO GRAFANIL
Num Domingo, quinze de Março de 1964 às cinco da manhã, o esquadrão eventual 350, partiu finalmente da Portugália, rumo ao Campo Militar do Grafanil, às portas de Luanda. A viagem foi feita em camionetas civis de caixa aberta.
Seguiu-se a estrada, uma recta sem qualquer asfalto, ladeada de bambus, até ao destacamento militar do Camissombo, onde se encontrava estacionado um Batalhão. Chegou-se sem qualquer incidente, logo às sete da manhã, com a habitual paragem, afim do respectivo comandante receber o testemunho do responsável da tropa que ali passava.
Cumprida a praxe, com pequenas avarias mecânicas, atingiu-se Henrique de Carvalho às seis da tarde do mesmo dia, onde se pernoitou, com exposição ao luar, dentro do grande complexo militar, com os mais variados serviços respeitantes ao Sector ali existente.
Entretanto, o Onofre com alguns amigos, aproveitaram a jantar num dos restaurantes da cidade. A certa altura discutia-se se a região também era dominada pelo dialecto quioco. Podendo o facto ser testado visto o empregado de serviço ser indígena, de imediato se utilizou o procedimento seguinte:
- Genarié (como te chamas)?
- José, mata (senhor).
- As duas palavras, algumas das que tinham sido aprendidas daquele dialecto, deram resposta à questão equacionada, Henrique de Carvalho, pertencia ainda à vasta região onde todo o povo se expressava em quioco. De facto estava-se na capital da Lunda, cuja criação foi defendida em Lisboa pelo oficial do exército português e grande explorador, desse nome, que em 1928, Norton de Matos, o Alto-Comissário de então, atribuíra à cidade.
No dia seguinte, pelas quatro da madrugada, debaixo de chuva intensa, estava o comboio militar, de novo, na rota da viagem, que o havia de conduzir ao Grafanil.
Conseguiu-se alcançar a povoação de Cocolo, onde se procedeu ao almoço, que em trânsito consistia na usual ração de reserva.
Para o Onofre, cozinheiros, sargento escrevente do rancho e outros, que faziam parte dos amigos mais próximos ainda havia restos de chouriço enlatado e outros produtos de longa duração, que conseguiu reservar.
Ainda exposto à intempérie, o numeroso grupo retomou caminho, para uma etapa atribulada, com o atascar de várias viaturas, acabando por pernoitar naquele caminho, sempre de terá areenta e batida, perdida algures, ainda em pleno distrito da Lunda.
A dezasseis, sempre debaixo de chuva, conseguiu-se a libertação da lama e de novo se deu o seguimento da viagem.
Perto da povoação de Quissange, na aproximação da hora de almoço, um dos carros onde na cabine, viajavam o médico e a esposa, com o respectivo motorista, carregado com um pesado gerador eléctrico, acabou por tombar numa ravina, não houve danos nem ferimentos.
Habituados àquelas variações atmosféricas tropicais, os homens civis do volante, conseguiram impor os seus apelos, perante o comandante da coluna, capitão Ferrand de Almeida, para que mandasse parar todo o contingente, até que o terreno enxugasse.
Era assim, que as grandes viagens, naqueles terrenos e com condições atmosféricas adversas, os haviam traquejado!
Arreados os seus equipamentos de viagem, enquanto os militares iam tomando a refeição do meio-dia, a partir das caixas de rações individuais, cozinharam as suas batatas com bons nacos de bacalhau, em fogueiras improvisadas.
Depois de tudo saciado, como por encanto parara de chover, mediando o espaço de tempo suficiente, para que o caminho enxugasse, como se as bátegas de água caíssem sob sol ardente, porque em pouco verificara-se a total secagem do terreno.
Chegou, pois, o tempo de erguer a viatura caída, parecendo que a tragédia assolara aquele contingente militar, em movimento.
Tudo foi resolvido, com a astúcia dos profissionais civis, utilizando o cordame, que sempre os acompanhava, como medida preventiva. Fez-se jus ao dito popular: “Muita gente faz a guerra”! Um deles postou-se a comandar a melindrosa operação, pois todas as mãos se agarravam a cordas, amarradas de todos os ângulos, a fim de se estabelecer equilíbrio.
Com a grande força exercida, em pouco tempo estava a viatura levantada e em condições de seguir viagem.
O Onofre teria de confessar ter aprendido ali muito, de como era o modo vivencial daqueles destemidos motoristas da África negra.
Ainda a dezoito de Março, estando-se no ano de 1964, passou-se por Nova Gaia, além de várias povoações. Era já noite estava-se a entrar os portões do aquartelamento de Malange, já em novo Distrito de Angola, com sede naquela cidade, onde se fez a refeição, recorrendo á famigerada ração de reserva.
A dormida dessa noite teve também lugar naquelas instalações e de novo junto das respectivas unidades de transportes.
Chegados às dez da manhã do dia seguinte, dezanove, perto de onde existem as grandes cataratas de água de cento e oito metros de altura, uma das jóias de Angola, proporcionadas pelo caudal do rio Lucala, na altura designadas por Duque de Bragança.
Depois atingiu-se a picada que ia dar a Cacuso, com a inevitável deslocação ao aquartelamento local, pelo comandante para deixar as saudações militares. A oportunidade foi aproveitada pelo Onofre que, por correspondência, tivera conhecimento do facto de ai estacionar um primo, a que fez também a visita.
Tendo havido pouca demora, seguiu-se a viagem, com passagem por Lucala e Salazar, onde Onofre teve outro casual, encontro com um conterrâneo, que fez chegar à família o estado em que o encontrou: Cheio de pó, mal dormido, no fundo relatou a odisseia.
Não seria para menos, se bem que para o visado, não passasse de mais uma aventura para contar.
Depois da passagem por Dondo e Catete, povoações já conhecidas, finalmente a vinte, já entrada a noite, chegou-se ao Grafanil.
No famoso campo militar, ponto de chegada e abalada da maioria dos elementos que, iam fazer frente à guerrilha. O esquadrão eventual 350, ficou abruptamente sem qualquer cadeia de comando, como se entrasse na orfandade, ninguém mais se preocupou.
Então, cada qual procurou os colegas do Esquadrão de origem, a eles se juntando, para orientações.
Posto isto, depois das respectivas e necessárias providências pessoais, cada um tratou de respirar fundo e passar uma noite de tranquilidade, dormida no chão, sob abarracamentos provisionais militares.

Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

12 comentários:

Menina do Rio disse...

Quioco? Eu não conhecia este dialeto...
Um beijo

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Hj não estou podendo fazer muitos comentários porque descobriram o meu mal,algo inesperado, meio sério e vou ser operada. Mas deixei um presente para vcs, uma resenha.
Apareçam por lá:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto depois de www
Um abraço,
Renata
PS: Estou mandando a mesma mensagem a todos por motivos óbvios.

xistosa - (josé torres) disse...

Amigo Daniel.
Fiz a viagem consigo.
Quem não esteve em África não acredita que uma picada intransitável, depois duma chuvada diluviana, em pouco tempo o Sol abrasador seca-a.
Até se v~e a água a evaporar do chão ...
Então viu as famosas quedas de água do Duque de Bragança.actualmente, KALANDULA.
Está quase no "Puto"

Carla disse...

É sempre diferente ler-te e imaginar como serião as coisas nessa altura...a tua descrição é tão viva que acho que o consigo fazer
bom fim de semana
beijos

Bandys disse...

Daniel,
Teus relatos me comovem.

......@.............@ O AMOR e a AMIZADE são como uma
......@.@.@.@..@.. Plantinha que precisa ser
....@........@..........@ regada todo dia.
...@............@....@@ Com muito carinho,
...@..............@@..@ muita atenção e
....@..............@...@ muito amor.
.........@......@..@ e muita compreensão
..............@..@ Que o jardim da nossa
..................@ amizade permaneça
....................@ sempre cheio de
.....................@ flores!!
......................@
......@@@@..@....@..........@
...@.............@@@......@@
.......@@@.......@..@@
.........................@ tudo de bom
.......................@ para você.

Beijos
PS: Li o post de baixo e comentei

o¤° SORRISO °¤o disse...

Oi Daniel. Agora sim, temos o Onofre às voltas com o clima tropical e seu aprendizado no local.

Genial como sempre.

Excelente fim-de-semana!

Beijos mil! :-)

daniel disse...

Menina do rio

Aprendi mais temos, não anotei e perdi. Achei giro o colóno gerente do aviário da Cacanda, sabia quioco, e usavo-o para se fazer entender melhor.
é um dos muitos dialetos de Angola.
Beijo, Daniel

daniel disse...

Renata Cordeiro

Desejo melhoras com um abraço, para que tudo corra bem.
Daniel

daniel disse...

José Torres

Aconteceu e o dito muita gente faz a guerra foi evocado ao vivo com limpeza.
Inacreditável!...
De longe vi as magistrais quedas de água. Fique a saber que se passaram a chamar KARANDULA.
Depois de amanhã irei para o "Puto"!
Depois, depois começo a trabalhar em Lisboa.
Daniel


Daniel

daniel disse...

Carlas

As pobreza das guerrilhas de ontem em comparação com a riqueza das de hoje.
O poder económico evoluiu!

Beijos
Daniel

daniel disse...

Bandys

Como não se faz nada sem amor!...
Até na gerra funcionava bem.
Oito tentativas depois... sem consequências. Estava longe a revolução sexual!

Beijos
Daniel

daniel disse...

Sorrisos

Por mais três vezes, talvez intervaladas.
Depois a terra prometida, Lisboa.
Grato.
Beijos, Daniel