sábado, 30 de agosto de 2008

LISBOA CAFÉ - 14

BRANCO E NEGRO

O Dafundo, como local de trabalho, continuava o máximo e o permanente optimismo irradiado por João Moisés era contagiante, capaz de ultrapassar todas as barreiras, que se deparam em qualquer ocupação laboral. Bem vistas as coisa apareciam muitas, que sempre iam sendo sanadas pessoalmente, com um certo jeito de negociação e o dever de cumprir bem o que prometera ao cliente.
No fundo, tratava-se da necessidade de atentar nos prazos, já que a mercadoria não saia de prateleiras, tinha de ser construída em várias etapas a serem ratificadas pelos clientes. Para além da fabricação havia o pressuposto de que cada obra tinha uma componente artística, que não podia ser ignorada.
Para isso, tinha sido criada a secção dos CONTACTOS, a funcionar também como a primeira linha crítica.
No caso dos livros, havia as primeiras provas a partir de granéis de composição tipográfica, pelo que existia uma sala cheia de linotypes de serviço, com os seus operadores, a funcionar por turnos.
Depois das provas revistas, outros especialistas formavam as páginas, para nova revisão.
Só então vinha a imposição, ou seja a formação dos cadernos em chumbo para a impressão tipográfica em papel, por máquinas próprias com o seu operador experimentado e especializado. Contava sempre com sempre com um ajudante, que estaria a fazer o seu estágio, para mais tarde também ele vir a ser oficial.
Para chegar á impressão, uma última revisão, era feita por revisores da própria empresa, para que tudo saísse certo.
Quando as tiragens atingiam números mais elevados, imprimiam-se as páginas em papel “couché”, o mesmo era fotografado e depois feita a montagem das películas.
Das mesmas faziam-se cópias em ozalide, formando o livro virtual para a aprovação do cliente, passando pelo filtro do respectivo elemento do CONTACTO.
As revistas, executadas nos mesmos moldes, por serem periódicos havia maior aceleração. Deslocava-se ali algum responsável pela edição, por qualquer falha da gráfica ou da própria editora, para maior eficácia e rapidez.
Atento aos perfis humanos, começou por atentar nas visitas do editor da “Branco e Negro”, o José Vilhena, o próprio titular da empresa, que indiciava um pouco da personalidade do seu criador.
Ainda por cima, com o Estado Novo em actividade, mal entrava no gabinete e sem conhecer ainda bem a pessoa, que o passara a atender, referia-se a qualquer estrutura administrativa, mesmo que fosse estatal e que englobasse o senhor António de Oliveira Salazar, como “aqueles tipos”, sempre de maneira sarcástica.
Devia ser um anarquista de primeira apanha!
- E se encontrasse ali, um informador da PIDE?
Nem pensar nisso era bom, a acontecer não seria inédito, também não lhe traria saúde, porque era assíduo “cliente” de Caxias, “refúgio” onde escrevia os seus livros mensais de bolso, para um público fiel, que os comprava via correio.
Deve ter-se dado uma empatia e na secção de CONTACTOS, o Vilhena era sempre bem recebido, homem de aspecto vigoroso, impecavelmente trajado, porém circunspecto.
Sabendo o que queria, tratava de assuntos importantes, como se parecesse uma criança grande, dizia o estritamente necessário, a que não seria alheio o seu permanente contencioso com o poder instituído.
Como encontrava simpatia, também sabia estar à altura e sempre correspondeu.
Invariavelmente deslocava-se ao Dafundo para tratar de assuntos relacionados com a feitura dos seus livros e passou a confiar a João Moisés, no seu jogo do gato e do gato, com a Censura até à última hora, do armazém onde eram entregues os livros, nada podia constar nem imaginar,
Chegava a indicação de pronta a obra e apenas nessa altura era comunicado ao chefe da expedição, onde devia ser feita a entrega.
A “Branco e Negro fazia distribuição por algumas livrarias, e de imediato os exemplares eram apreendidos!
Os restantes estavam algures a ser enviados aos indefectíveis compradores, já os mesmos pagos adiantadamente.
De seguida a autor e editor, ia uns dias para a prisão política de Caxias e era movida investigação:
- Onde estariam os muitos exemplares?
Na Bertrand & Irmãos, já se conhecia bem do assunto e os risinhos nunca se faziam esperar, porque chegava sempre a abordagem.
Normalmente a Censura, na sua usual estupidez, convocava o respectivo chefe de produção, que obviamente, não curava dum assunto a que podia passar sem dar importância. Tinha-se produzido o trabalho e lavava as mãos.
Um dia, depois de ser ouvido na comissão, este chamou João Moisés ao seu gabinete e deu-lhe a notícia, de que Censura estatal, depois do interrogatório inconclusivo, como sempre, planeava confrontá-lo, que se preparasse!
Juntamente com um sorriso ouviu logo:
- Nem sei de nada!...
- É isso afinal que tens para dizer – coitado de ti, nada sabes!...
Logicamente, não houve mais comentários, nem mais indagações.
À data José Vilhena, com o fim de desviar os seus trabalhos da Censura, que não passavam de sensualmente políticos, viraram para os de tema religião, mas: Dos três departamentos superiores, um tratava da religião!
De qualquer maneira o Vilhena era tido da secção, como um grande ponto, até pela sua finura. As instalações da editora, eram de requinte digno de nota.
Como gostava de boas mulheres, só tinha empregadas, novas e esculturais. O soalho da casa era alcatifado, com música em gravador de gravador espalhado na própria. Um primor de bom gosto em suma!
Os livros e postais da sua autoria, sempre de cariz sensual, tinham fama. Um dia um chefe de secção veio aos CONTACTOS e com certo jeito, insinuou a condição de João Moisés tratar muito com o autor, Dizendo ao que ia, se lhe pedisse, ele podia enviar uns livros para a malta.
Este duvidando, apresentou o pedido. E não é que o mesmo foi bem aceite?
- Passados dias, chegaram dois embrulhos, coma recomendação:
- Este é para si, o outro para os seus amigos!...

Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

19 comentários:

Cadinho RoCo disse...

De onde menos esperamos é que deparamos com simpáticas surpresas.
Cadinho RoCo

* Casal do Arrocha * disse...

Retribuindo a visitinha.
Beijinhos e volte sempre!

* Casal do Arrocha * disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
* Casal do Arrocha * disse...

Menos estético?
Pra vc?
Pois é, viva as diversidades, também de opiniões!
Bjs.

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Oi, Daniel!
Obrigada pelo trabalho de me acompanhar nessa minha "via-crucis" virtual. Ter amigos virtuais assim, como você, é uma dádiva, mas há "uns espíritos de porcos" (me desculpe o termo) que vou te contar!
A tua trama é extremamente descritiva, parece-me até o livro do Camilo (Amor de Perdição) que releio agora, mas tendo já uma maturidade intelectual já entendo certos termos e imbricações. Porém, sendo você um "camilista" devotado, estarei a perguntar-lhe sobre essa figura ímpar da Literatura Mundial. E já começo: é verdade que ele foi o primeiro a sobreviver dos seus escritos? Em Portugal ou no mundo?
Tá vendo? Já estou a lhe dar trabalho...Um Afetuoso Abraço, Amigo!

xistosa - (josé torres) disse...

Suponho que herdei a colecção de todos os livros dele e muitos postais, mas só de antes do 25 de Abril.
Depois só alguns esporádicos ...
Não sei ao certo quantos são, mas muito perto de 50, se não forem mais.
Chegavam pelo correio a Castelo Branco, quando aí vivi dos 4 aos 15 anos.
O mundo dos livros.
Também utilizei em desenho, (projectos) o papel ozalide.
Uns utilizavam-no para provas de texto, eu, como cópias de projectos que sempre gostei que fossem em sépia, talvez por ser um pouco amarelado e não em preto.

Bem, já matei saudades dum escritor e dum papel que até já me tinha esquecido do nome.

Marta disse...

Interessante a descrição como se trabalhava na década de 60...
Como se publicava uma revista, a que estava sujeita...
Obrigada pela visita...
Beijos e abraços
Marta

Laura disse...

Ai voltar aos tempos dos livros do Camilo, a minha coleção foi toda por água acima, a minha garagem há coisa de 5 anos inundou-se até ao telhado e...perdi tudo, mas tudo o que tinha ali guardado e as coleções dos livros do Eça do Camili e do julio Diniz!, fora os outros, sempre adorei colecionar, ler e ter, enfim...
ah, o Vilhena sabia viver...Beijinhos e acho que já melhoraste de todo...Feliz Domingo.

São disse...

Quem não conhece Vilhena, na nossa geração? De qualquer modo, foi este seu texto que o que me deu mais informações sobre a pessoa em si: só foi pena , não ter posto foto dele.
Bom domingo.

mariam disse...

Olá!
li de "relance" mais este belo capítulo de reais aventuras...este "seu" João Moisés é demais...

fiz um pequenino hiato, de dia e meio nestas férias, regressei à "base" e à net, sigo amanhã para Madrid e Saragoça, vou à EXPO (apenas 3 dias), depois Castelo branco, quando voltar em meados de Setembro, vou ler tudinho com calma, agora vim só dar um abraço

e um sorriso :)

mariam

Pelos caminhos da vida. disse...

Agradecendo visita.

bom domingo.

beijooo.

Hermínia Nadais disse...

Tempos difíceis... mas pessoas de garra. Gostei muito do texto.

Laura disse...

O João Moisés está-se a tornar meu conhcido, parece que já o li nalgum lado, ehhhhhh...beijinhos de feliz domingo. laura..

Bandys disse...

Oi Daniel,

Sempe que venho aqui tenho uma aula de cultura.
Um beijo

poetaeusou . . . disse...

*
fico,
"agarrado" á tua escrita,
,
foram dolorosos
"esses" tempos . . .
,
abç,
,
*

jo ra tone disse...

Ainda cheguei a ler algumas revistas do "Vilhena"
Tinham imagens fantásticas.
Ai lá isso tinham!

Ana Martins disse...

Belo texto, enquanto lia parecia que estava lá.

Beijinhos

o¤° SORRISO °¤o disse...

Oi Daniel. Não só o otimismo de Moisés é contagiante como também suas histórias, sem falar no aprendizado que temos ao ler seus escritos.

Uma semana cheia de alegrias.

Beijos mil! :-)

NAELA disse...

Mais um post que nos projecta para a vida de João Moisés e a sua passagem numa epoca cheia de surpresas interessantes que contribuiram para uma historia tao bem contada!
Beijo terno