segunda-feira, 5 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 13

COMUNICAÇÕES OPERACIONAIS
Todas as tropas regulares apresentavam serviços de Transmissões, assim como as companhias militares eram acompanhadas de grupos próprios de comunicações.
O Esquadrão, que era denominado pelo número 297, não podia estar fora de tão elementar regra e apresentava o seu grupo, comandado por um sargento especializado, com curso militar próprio.
Além do responsável, o núcleo era composto por outros especialistas entre soldados e cabos onde, um era formado na decifração de mensagens codificadas.
Da parte da UPA, o grupo opositor, na altura e na região, forçosamente, tinha os seus modos de comunicar entre as diversas posições e comandos, estes normalmente situados fora das fronteiras do território.
Com a colaboração do "arrependido" Lopes Cabanda, conhecedor da zona envolvente, suas picadas e respectivas movimentações, numa operação concebida para capturar dois elementos que serviam de "correios", no caminho a percorrer na execução rudimentar daquela normal missão de transporte de informações.
Sob o comando do alferes Ribeiro, o seu pelotão levou a cabo a missão de capturar os dois elementos encarregues da importante tarefa.
A determinada altura surgiram dois vultos, personificando o motivo da emboscada, À ordem de paragem não houve cedência tanto bastou, para que, uma saraivada de balas das G3, perfurassem ambos á altura do tronco. Como será de imaginar, vieram a tornar-se em mais duas baixas infligidas aos rebeldes.
A parte interessante do episódio, foi um dos protagonistas do tiroteio, que tinham chegado ao Esquadrão na zona operacional, por castigo e consequente expulsão aplicados na origem
Um deles, talvez já por deformação, apresentava ares de verdadeiro terrorista, mas todos deram na presença dos ainda moribundos, uma de bonzinhos, exclamando!... "Levantam-se que a tropa é amiga e trata bem os doentes"!...
Obviamente, não demorou muito a que se registassem as duas baixas.
A operação foi concretizada dentro do previsto.
Só que depois de geralmente conhecidos os contornos, chegou a ocasião de ser encontrado ali um motivo de piadas de divertimento e os protagonistas principais, durante algum tempo ouviram, com gozo, a glosa:
- "Levanta, que a tropa é amiga... pum... pum... pum!...
Coisas, que iam aparecendo e serviam de motivos de brincadeira, no obrigatório isolamento, davam o passar mais despercebido.
Deve estranhar-se esta operação ser considerada importante e de êxito total, mesmo só com as baixas dos dois únicos "turras" emboscados, por todo um pelotão de cerca de trinta homens. Como todas as outras eram sempre de fraca produção, assim determinava a própria natureza do conflito, levado a cabo sempre em meio dominado por uma exuberante vegetação.
A quinze de Fevereiro, uma coluna do Batalhão, sedeada na Fazenda Mucondo, em deslocação para Muxaluando, no caminho sofreu um ataque de apenas um tiro, dirigido a um Jeep, transportando o alferes Ferrão, no comando da coluna.
Foi este oficial a baixa registada, já no posto médico do Tari, depois de ser tentada a reanimação.
Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação: Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, que seguia no Jeep da frente, que embora blindado, passava a ser o alvo a atingir.
Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por "mata alferes", o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria.
No dia vinte e três ainda em Fevereiro, reuniu em formatura o Grande Esquadrão para ouvir a leitura, pelo próprio Comandante, de um louvor colectivo que lhe fora atribuído por relevantes serviços, pelo comandante em chefe de Batalhão.
Nesta altura já o jogo de cartas, com imensa pena do Onofre, era outro, o do "abafa", talvez por influência de novos elementos, das várias proveniências, que foram chegando ao Esquadrão, normalmente na sequência de castigos, por ser zona de intervenção e naquele tempo a considerada de maior perigosidade.
O novo modelo de jogo tornava-se perigoso, pois via por vezes, boas somas de Angolares em cima da banca, era mesmo brincar com o dinheiro. Já não era para "intelectuais", como o Onofre que se poderia considerar um bom jogador de sueca, visto memorizar as cartas saídas, pelo que com com os trunfos divididos, como se dizia, ele e o Picão ganhavam sempre.
Outra coisa recorrente, até depois durante toda a comissão, foi o reparar-se serem os frigoríficos alimentados a petróleo, onde uma torcida acesa provocava o funcionamento do motor, a gerar o frio, tal como eram alimentados os candeeiros a alumiar ainda as casas da maioria das aldeias metropolitanas.
Em zona de mato os indispensáveis serviços eléctricos eram da proveniência de potentes geradores.
Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas do esquadrão de comando, houve a baixa de um furriel, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.
Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam. Algumas vezes, tendo-se como alimentação as caixas de ração de reserva, concebidas como uma refeição substancial, o que não se podia negar, mas por demasiada utilização, eram detestadas.
Entre os mais variados serviços de escoltas, por todo o género de picadas, sobretudo dentro do capim, mais alto e a sobrepor a própria viatura, chegou mais uma a dezanove de Março, a acompanhar camaradas de regresso de mais uma operação, em que não foi avistado qualquer elemento da insurreição.
Mais uma vez chegara o tempo das grandes tempestades tropicais, muito visíveis, por se tornarem frequentes naquela zona Norte de Angola, entre os inúmeros casos cita-se o de um dia em que integrado numa escolta a Muxaluando, Onofre e camaradas chegaram ao Tari pela noite dentro, denotando a falta de jantar.
Aí revelou-se a atenção do comandante do Esquadrão, Alves Ribeiro que, vindo a acompanhar via rádio, a penosa progressão da coluna, recebeu os comandados e assistiu ao jantar, mandando distribuir bagaceiras e cafés, no fim, a todos os que viveram a odisseia.
Aconteceu mais a demora porque, uma camioneta GMC, como se tornara habitual, para aguentar eventual impacto de minas, encabeçara a coluna e ao passar por uma subida bastante inclinada, face ao terreno empapado da persistente chuva dificultava extremamente a progressão.
A vinte e sete de Março chegou, finalmente uma companhia a render o Esquadrão do Lifune Tari.
Em vinte e cinco ainda foi feita uma escolta de viaturas civis, pela esquadra da Breda e elementos do respectivo pelotão a que pertencia o cabo Onofre, à Fazenda Mucondo.
Como o dia se apresentava ainda chuvoso, por aquelas verdadeiras veredas, o serviço numa extensão a rondar os trinta quilómetros ou seja sessenta, ida e volta demorou todo aquele dia.
Logo no seguinte começava, de facto a tão almejada rendição com a entrega da metralhadora pesada montada em Jeep blindado.
A verificação do contador de quilómetros, deu que Onofre e colegas especialistas daquela unidade pesada, porque tinham tomado conta da viatura com zero quilómetros, pudesse ver haverem percorrido naqueles terrenos dos Dembos cheios de irregularidades, cerca de oito mil quilómetros.
Até então só tinha pressentido três tiros, de canhangulo.
Tão dissuasora arma era trocada por uma espingarda Mauser, para servir no que a revelar-se na mais atribulada viagem, o regresso a Luanda, com destino posterior a uma região livre de terrorismo.
Ainda no dia vinte de Março objectivando uma cerimónia do render, com certa dignidade, elementos do Esquadrão fizeram o acompanhamento da nova companhia a uma operação, de que resultou uma baixa de uma baixa rebelde e a apreensão da respectiva arma.
Já a quatro de Abril formou todo o Esquadrão, afim da formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida, visto que, no dia seguinte deixávamos definitivamente o Lifune Tari.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

sábado, 3 de maio de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 12

TRÊS-MARIAS – LUACA
Um pelotão, vindo do quartel de Nova Lisboa, estava estacionado na Fazenda Três-Marias, objectivando fazer parte da logística do Esquadrão 297.
Não estava enquadrado com armas pesadas, pelo que logo do comando operacional, avançou para a nova força com essa componente.
A catorze de Novembro, a nomeação chegou ao pelotão a que pertencia o Onofre, para preencher essa lacuna, com o consequente novo destacamento da respectiva esquadra.
A metralhadora pesada Breda, era como que indispensável, em qualquer aquartelamento, em virtude da eficácia que lhe era atribuída.
O serviço nunca precisou de mudar, a vigilância nas viagens entre as Três-Marias e Tari, sempre em todo o caso actividades dissuasoras, era no fundo uma das missões obrigatórias, levar a cabo naquele terreno.
Assim, no dia dezoito, ainda no mês onze, deu-se a primeira deslocação à Fazenda sede do Esquadrão, foi a oportunidade de, pelo apelidado "jornal de caserna", serem postos em dia acontecimentos de toda a índole, a informação era indispensavelmente desejada.
A vinte e dois de Novembro a rádio difundiu o estranho assassinato em Dallas, do Presidente dos Estados Unidos. Era Jonh Fitzgerald Kennedy, exactamente o governante, de uma das maiores potências mundiais. Onofre muito dado a estados nostálgicos, apenas por pensamento, porque nunca divagava para além de se questionar sobre o andamento dos acontecimentos, mesmo de âmbito mundial.
Foi assim que nesse dia, logo concluiu que a guerrilha iria durar mais alguns anos, porque desaparecera um governante de muita influência nas políticas mundiais, mostrando de várias formas, da sua aversão ao colonialismo, porque continuava a motivar o racismo.
Entre as operações de caçadas, sempre infrutíferas, parecia que a guerrilha com os muitos tiroteios, também tinha afastado os animais de caça, que só uma ou outra vez se deixavam ver, a não ser o caso de se apanhar de uma ou outra pacaça, a servir de rancho, onde se verificou ser de carne dura.
A nomeação para serviços, mesmo os dedicados à caça, que poderiam ter a conotação de lúdicos, sempre eram rodeados do necessário aparato militar e bélico, permanente indispensável.
No dia cinco do décimo segundo mês de 1962, soube ter-se a lamentar mais três baixas no esquadrão do comando.
Na Fazenda Três-Marias as deslocações eram em menor quantidade, houve algumas a Quimanoche, para trazer materiais destinados a melhorar aquelas instalações paramilitares.
A maior parte destinavam-se a viagens ao "velho" Tari. Nessas, mais uma vez se reparou na habitual passagem, por um grupo de árvores, em que podia ser observada a graciosidade dos macacos, tipo saguins, que se exibiam entre pequenos ramos, executando um espectáculo inolvidável.
Aquele género de símios, eram já conhecidos em cativeiro na metrópole, mas vistos no seu babitat natural, em grandes grupos era diferente, deveras interessante o seu equilíbrio e como os ramos, mesmo os de diminuto porte os suportavam!...
Dos muitos quilómetros percorridos, só ali se encontrava a espécie.
Foi também, relativamente perto, na fazenda Lifune, onde se podia ver um desses exemplares em cativeiro, que se havia tomado conhecimento da forma de apanhar vivo um desses buliçosos animais.
Munia-se o caçador de uma cabaça previamente tornada oca, com algumas pevides no interior, uma cavidade própria onde o símio pode deitar a mão ao petisco, de que é extremamente guloso.
Sendo um tipo de animal com características de muita esperteza, nesse particular é incapaz de intuir que, só largando as sementes, que apanhara, tornando a mão maior do que o buraco, por onde a fizera entrar, se conseguirá libertar.
Como teima, em não largar o pecúlio e em manter-se na posse do mesmo, facilmente é apanhado vivo pelo caçador!...
Foi na posição Três-Marias que se festejou o Natal de 1962, houve diferença, em relação a outros dias, o rancho do jantar, constituído por galinha corada, foi melhorado, tendo em conta a degustação, no fim um bom brandy.
A apoteose esteve a cargo dos militares nativos, com a execução de um batuque que durou até alta madrugada.
Chegou o fim de 1962, com tempos passados perto do rio de referência, do nome da Fazenda, o Luaca vagueava perto, entre inolvidável paisagem, com inúmeros fraguedos, várias vezes visitado para banhos, com o indispensável acompanhamento bélico, para fazer face a qualquer surpresa.
Nada aconteceria, por aqueles sítios de ataques armados, houve dias em que o labor se resumia a leitura e... "esperar com impaciência as horas da comida"... mais ou menos, como o escritor se referiu a um frade, cuja frase é pouco abonatória, para a espirítualidade do pastor de almas, onde era citado, em criação, Frei Januário,
Um de Janeiro de 1963, entrava-se num novo ciclo anual, para lembrar o Dia de Ano Novo, o rancho foi apresentado com uma soculenta carne, proveniente de matança de porco, um bácoro que por sorte tinha sido apreendido algures em posição terrorista.
A sete do primeiro mês de sessenta e três, o Esquadrão, sempre em serviço, numa das habituais batidas de limpeza, viu-se obrigado a infligir várias baixas, além de que capturou dois rebeldes.
No seguinte, doze, em mais uma batida, numa outra operação, novo êxito em baixas humanas, no campo terrrorista e a captura de vários elementos, entre eles dois considerados muito perigosos e activos.
Por esta altura, o Major Caldeira, entretanto Comandante interino do Batalhão de Cavalaria 350, em virtude de baixa por doença do Tenente-Coronel Costa Gomes, que logo mostrara aversão ao Esquadrão 297, já que o mesmo tinha sido formado de outra incorporação anterior, considerado mais apto, em virtude de ter passado três meses, adido ao Regimento de Infantaria, na cidade de Faro, onde esperou embarque, sempre em preparação militar adequada à guerrilha, o que bastava para detestar qualquer soldado que informasse ter passado aquele tempo adido no sul do país.
Porém, o Major com as provas da acção no terreno, com o notável comando operacional, um dia foi ao seio do Esquadrão para participar numa batida, uma vez que era, agora para ele, no Tari que havia guerreiros a sério.
Lá foi fazer parte do que seria uma grande operação, comandada por um alferes que, talvez por ser familiar do General Governador de Angola, estava a preparar a sua desvinculação do serviço militar.
Esta terá sido uma das circunstâncias do relatório a mencionar a impraticabilidade de prosseguir a operação, por o inimigo se apresentar com efectivos bastante superiores às tropas, que este comandava.
Assim, o Oficial Superior, em Comandante do Batalhão nada viu, porque quem competia conduzir a acção, recusara manifestamente a sua cumplicidade.
Como epílogo, diga-se sem receio, "farsa fardada", o Major Caldeira, o tal "pai da cuca", em conjunto com o Capitão Alves Ribeiro, criaram problemas ao alferes, que depois de deixar o Esquadrão, já estando no aeroporto pronto a embarcar para a metrópole e ver-se livre do serviço militar, acabou nas fileiras, mais propriamente no R.I.L - Regimento de Infantaria de Luanda, que também funcionava como depósito de Adidos, por mais algum tempo.
No fundo, o Onofre apesar da natureza de aventureiro e de ser dado a muitas reflexões, já tinha reparado no caso de, como militar, não ter permanecido mais de três meses seguidos no mesmo local.
No dia vinte de Janeiro, à passagem das onze horas de Domingo, a tropa conheceu um alerta de se manter preparada para qualquer eventualidade, pois havia chegado denúncia, via rádio de aproximação de novas actividades terroristas.
Não havendo algo de anormal, chegou a altura de baixar a guarda.
Na Fazenda o pólo vivencial das actividades, civis de laboração, distava quinhentos metros do núcleo do aquartelamento militar e era cercado de arame de cobre, de noite ligado à electrificação, para uma primeira defesa. Inúmeras vezes ali se encontravam serpentes electrocutadas, ficavam presas. Mais nenhuma espécie do reino animal conheceu ali o seu fim.
A catorze de Novembro, exactamente dois meses, após a chegada à Fazenda, que se situava perto do Rio Luaca, a guarnição de apoio ao pelotão que viera da cidade capital do Huambo, Nova Lisboa, foi rendida por outra de colegas do mesmo Esquadrão.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

quarta-feira, 30 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 11

A COMUNICAÇÃO SOCIAL
NA GUERRA DE ANGOLA
Abordar o conflito que as tropas portuguesas começaram a enfrentar em Angola, logo em 1961, sem mencionar o quanto foi retrógrada a comunicação social, que terá sido desviada da missão que lhe cabia na circunstância, pelos poderes instalados, é de extrema importância.
Em 1962 a Televisão, dava passos de apenas cinco anos, pelo que não se vê algo de televisionado, do princípio do conflito (da maka, no dizer local).
As rádios ainda estavam longe de manter sinal aberto, durante vinte e quatro horas. Apenas a Emissora Nacional tinha o seu correspondente, que não ultrapassaria o perímetro de Luanda e os grandes jornais só observariam de Lisboa o que se passava no Ultramar.
É interessante verificar o facto de só mais tarde a Rádio Televisão Portuguesa gravar e transmitir, pelo Natal, aqueles insípidos programas em que, os elementos militares em fila proferiam, algumas palavras, que faziam parte da obrigação estatal.
A mesma transmissão começou por ser cometida à Emissora Nacional, logo em 1962, numa altura em que o próprio Onofre disse não, à oportunidade proporcionada a partir da região dos Dembos.
Com a grande distância temporal, poder-se-á questionar, mesmo tendo em conta a política da época, o quanto uma maior divulgação seria importante.
No entanto a falha, nem é vista com outras intenções, a não ser a constatação de um facto do tempo da célebre frase de Salazar - "para Angola em força" - ignorando-se a necessária propaganda nos meios de comunicação.
Só de uma política passadista!...
Ao elaborar este trabalho, só há um interesse, talvez no ineditismo de se basear a proposta, no testemunho vivencial de uma praça, porquanto o tema tem tido muitas abordagens, mas ao que se pôde saber, a maior parte por escritores serviram como oficiais, o que torna as visões extremamente diferenciadas e até antagónicas.
Acrescenta-se para apoiar a tese desta grande falha, o facto de ainda por volta de 1967, portanto contemporâneo, ter tombado no conflito do Vietname um Repórter de Guerra português, ao serviço do jornal "Diário Popular", de apelido Câmara Leme.
Nos documentos da guerrilha, que a Televisão vem passando, mesmo sendo posteriores aos primeiros anos, não se conseguirá ver algum episódio a que não se possa atribuir o rótulo de encenação.
Entre os muitos sucessos, algo ocorreu no aquartelamento do Esquadrão, o Comandante estava ausente, em gozo de férias na metrópole. Interinamente fora substituído pelo tenente Araújo.
Não teria sido acaso a ausência do Capitão, pois já se sabia do rigor da sua actuação em qualquer circunstância, nos actos da sua competência, porém num determinado dia ao jantar, o que fica demonstrado, ser de verdadeiro levantamento de rancho.
Ninguém tinha vontade de comer!...
A alegação geral era a de terem ingerido algo, para a inibição de se entregarem à degustação daquele jantar.
Pareceria estranho, se não tivesse chegado o aviso a todos os militares, até com a cumplicidade dos próprios cozinheiros.
O posto de Oficial de Dia, obrigatoriamente comum em todas as unidades, dispensava a ordem de serviço, em cenário de alerta permanente, a circunstância revelou ser o alferes Faria a deter o cargo, naquela jornada.
O Onofre, mesmo estando de serviço de vigilância no torreão, com a sua observação, apenas detectou um militar a "fingir" que comia, naturalmente, de mentalidade mais fraca, instado pelo Oficial de Dia, a provar o rancho destinado naquela refeição.
Tanto bastou para o levantamento não ter sido considerado, o que traria consequências disciplinares ao mais alto nível.
No dia seguinte, mesmo na interinidade, o Comandante deslocou-se a Muxaluando, local onde estava a logística do Batalhão, para apresentar os factos ao responsável máximo.
Verificou-se assim, que tinha ocorrido algo de muito grave, originando uma formatura onde foi dado conta das providências, levadas a efeito, para que tão relevante ocorrência ficasse sanada.
Ficou registada uma frase, de certo modo humanística. Foi assim: "O que se faz nem tudo é por mal"
Terá sido a encontrada ao conferenciar com o Comandante.
O pensamento pode parecer vulgar, mas pronunciado na altura e a culminar um caso de reivindicação justa, mas de muita gravidade no seio forense, revelava mesmo um grande sentido de humanidade.
De facto, houve retaliações!
A seu tempo regressado o Capitão Alves Ribeiro, pretendeu fazer justiça, atribuindo algumas sanções com a respectiva expulsão.
No caso específico, a coerência, só podia determinar um culpado, o exclusivo alvo da contestação, o furriel especializado na manutenção alimentar.
De qualquer modo, ficava demonstrado, se isso fosse necessário, que a grande coesão do 297 era obra de um comando eficaz, a acção reivindicativa, um alienável direito. Estava em causa uma alimentação condigna, o que não estava a acontecer.
Deve admitir-se, que o território de Angola exercia uma grande atracção, não obstante estar-se a viver uma guerrilha, num obrigatório isolamento, só superado por ser exercido em grupo e pelas actividade lúdicas, que iam nascendo da criatividade inerente à juventude, como o eram por exemplo os torneios de futebol, entre pelotões, jogados num campo que havia sido construído fora dos limites do arame farpado, como primeira defesa do recinto militar.
Viviam-se os jogos a sério, visto fazer parte do Esquadrão muito material de desporto, como bolas e equipamentos.
Era possível realizar grandes partidas, até porque havia jogadores de certa valia técnica, como um elemento, que fora campeão de juniores da Europa.
Normalmente, os militares disponíveis sempre assistiam. Em virtude do recinto desportivo ser exterior ao acampamento, os assistentes muniam-se, obrigatoriamente, do seu armamento, em guerra não era permitido descurar o aspecto bélico!...
E para os que não viveram no tempo, fica aqui referido o facto de um esquadrão de cavalaria ou outra qualquer companhia, em campanha, completar-se de inúmeras actividades de entretenimento, com especialistas,
Assim, foi exibido no Tari, dedicado aos militares, evidentemente, o filme português "O Grande Elias, serão inesquecível, na circunstância!...
Três tiradas fizeram o divertimento da malta: Uma em que, num jogo da roleta o Elias aconselha o parceiro a jogar no número dezassete. Claro que ao invés de ganhar o dinheiro de que necessitava, ficou ainda mais na penúria, porém o Elias nunca o desencorajava e numa outra cena, vê-se ele a dizer ao acompanhante:
- "Pois é...como sair no dezassete"!...
A última é quando o Elias, a servir de mordomo, conquista o coração da velha tia rica e segue com ela para a América, dirigindo-se ao avião; volta-se e diz:
- "Agora!... vai ser milho"!...
Estas exclamações, entre o grupo, durante muito tempo, foram adaptadas por muito bons rapazes, que à falta de melhor, de tudo se serviam.
Como ainda se estava em tempo de tempestades tropicais, assistiu-se a várias, era a África!...
Onofre não podia deixar de observar também esse aspecto, de que guardou recordações.
A nove de Novembro 1962, pôde ficar anotada uma dessas memórias. Na pista de aterragem do Tari, onde estava de guarda a uma avioneta ali em estacionamento, havendo um calor desmedido, face ao mesmo, foi erguida uma tenda, para protecção dos raios solares, a qual veio a servir de abrigo, a qual veio a servir de abrigo de uma chuvada extremamente intensa, de seguida.
Era assim o clima tropical daquela parte de África!....
Tinha-se iniciado a cobertura defensiva da citada avioneta, adstrita a um grupo dos homens de um grupo pára quedista, em missão de "limpeza" na zona,
A operação durou até dia catorze, naturalmente com várias rendições, mas depois de passada a tempestade tropical, o tempo e o serviço até se tornavam agradáveis, mesmo dormir ao luar, fora dos necessários tempos de alerta.
Até que, precisamente nessa tarde, ouviu-se uma grande explosão, parecia que na cozinha do aquartelamento do Tari.
Pensou-se em muitas hipóteses, não tardou a resposta, visto que se estava apenas a três quilómetros. Começaram logo a chegar feridos em transportes terrestres, do ar avionetas e helicópteros, para os transportar ao Hospital Militar de Luanda.
Todo o grupo de serviço na pista, actuou a ajudar na instalação, até acarinhando os camaradas feridos, a evacuar, que em breve podiam ser assistidos.
O lance causou elevado constrangimento, marcado também por um dos hélis transportar dois feridos na parte de fora, numa espécie de caixa, dando a ideia de se tratar de caixões fúnebres.
Do acidente, resultaram duas baixas e oito feridos.
Aconteceu que, talvez por descuido, tendo regressado um pelotão de uma batida, a Bazuca ficou ligada, com a respectiva granada.
Alguém, desconhecendo o facto, terá "brincado" com a mesma, provocando o seu rebentamento.
Em termos operacionais, não se pode saber, o que teria ter acontecido de pior, se isso se o ataque terrorista previsto, à tropa em vigilância, pois de seguida ao rebentamento, ouviu-se o característico alerta, denunciado por uma batucada, o abortamento do ataque terrorista que estava em movimento.
A UPA também ouvira o estrondo, pensando ter sido descoberta, alertava para a retirada.
A operação terrorista, se levada a cabo teria sido desastrosa, uma vez que o grupo, em serviço ao campo de aterragem, se encontrava muito descontraído e o factor surpresa é importante em todas as guerras.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

segunda-feira, 28 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 10

NO DIA DO SANTO DE ASSIS
A menção de Santo tem razões várias, se outras não existissem, começa-se porque todos os Batalhões estacionados em Angola tinham o seu padre capelão, tal como o 350 usufruía do serviço religioso, a cargo de um eclesiástico graduado em Alferes, de que era componente e ia percorrendo todas as bases, rezando missas dominicais, aquando passava em cada sede de esquadrão. Aconteceu diversas vezes na posição do 297.
Naquela zona de mato, só se conhecida a capela de Nambuangongo, o clérigo que pertencia e acompanhava espiritualmente esta Cavalaria, era munido dum altar portátil, tipo mala de viagem, para a concretização dessas funções.
Ainda em 1962 o comandante do grande Esquadrão, Capitão Alves Ribeiro, que ia dando mostras, em todas as circunstâncias do seu valor militar, como comandante de operações, da sua capacidade organizacional e estética, com as matérias primas que iam vindo de Quimanoche, transformara por inteiro o complexo operacional do Tari, provendo-o duma caserna para cada pelotão, o que tornava muito mais prática a reunião, sempre de madrugada, porque o sigilo das acções levadas a cabo, só naquela hora era um pouco revelado, ao acordar os elementos de cada pelotão, sem ter de passar a outros canais.
Além de melhores condições de operacionalidade, contava-se com a colaboração do Lopes Cabanda, como guia eficaz, em virtude de conhecer o terreno, tudo factores, que em muito aumentavam a eficácia do Esquadrão.
Chegado a dia quatro de Outubro, que o capelão saberia de cor ser o de S. Francisco de Assis, não só pela sua importância, mas também, por ser mencionada em todos os calendários litúrgicos.
Pois no dia da celebração do famoso Santo, na caserna onde se encontrava instalado o Onofre e o seu "staff", a madrugada esteve muito agitada, alertavam-se todos os elementos, porém eram excluídos os especialistas que poderiam fazer funcionar a metralhadora Breda, contra o usual nestes casos.
O dia do Santo que nascera em Assis, Itália, no seio de riqueza e ali havia feito votos de pobreza, a que se dedicou até à morte, acabaria por ser o mais promissor da existência do Esquadrão.
A azáfama madrugadora, na caserna acabou por ser frutuosa, foram eliminados vários terroristas, enquanto se contavam em número de dezanove os forçados a entregarem-se, escolhendo a sobrevivência.
Aconteceu um outro facto, menos dignificante:
Desse grupo fazia parte uma trabalhadora do sexo, eventualmente, em cuja laboração se empenhou parte da noite. Naturalmente, com a passividade oficial, que terá ao mesmo tempo estipulado o custo de cada "volta".
No mesmo mês de Outubro, precisamente no dia dez, numa batida efectuada por outro pelotão de serviço, resultou o aprisionamento de mais dois elementos afectos ao terrorismo.
Depois das novas instalações, passou ao Tari uma companhia em, deslocação. Em casos destes, o comandante da força em movimento, conferenciava com o homólogo local.
Todas as conferências, nestas paragens de intervenção eram, necessariamente demoradas, desta movimentação, resultou todos os elementos jantarem localmente.
Findo o repasto, com o objectivo sofisma de bem receber os visitantes, numa das novas casernas começaram os dois acordeonistas do Esquadrão a actuar. Tinha-se criado a configuração de um arraial em terras de província.
A breve trecho a luz com apagada, como por encanto, deixou de funcionar e os quicos, que cobriam as cabeças dos militares em trânsito voaram.
Foi a mais ousada recolha daquela peça de vestimenta, tornada em estima para muitos, por servir de entretenimento para os rapazes do Tari.
No dia vinte e três de Outubro, havia intranquilidade no comando do Batalhão, sito em Muxaluando, uma coluna militar a rodar para aquela posição, foi atacada, sofrendo duas baixas mortais, mais alguns feridos.
Era um dia de muita chuva, vários acampamentos da região estavam também a ser atacados e todo o pelotão do Onofre estava de prevenção face ao conflito, tendo depois seguido em missão de auxílio.
Chegado o reforço, foi-lhe destinada uma ida a Nambuangongo, com o fim de trazer, sobre escolta, um pronto socorro, afim de recolher as viaturas sinistradas no ataque que destruiu a sua autonomia de locomoção.
Não havia viatura do género, à altura pelo que, sempre pronta a entrar em acção, a coluna voltou como tinha seguido e ficava na sede do Batalhão alerta para actuar.
Como entretanto, tinham seguido outros reforços disponíveis, os mesmos ao voltarem foram surpreendidos com o rebentamento duma mina anti carro, a primeira com que o Batalhão se deparou, talvez uma daquelas que deu início a novo tipo de guerrilha.
Resultaram vários feridos, entre eles, um Alferes, que ficou com as pernas praticamente decepadas. Veio a ser baixa mortal, já verificada no posto de socorros de Muxaluando.
No mesmo dia, a aviação interveio, serviu apenas para verificar terem ficado no terreno algumas viaturas destruídas.
Da facto, depois de um período mais calmo na actividade terrorista, tinha começado uma nova fase da guerrilha e por causa das minas anti carro os oficiais deixaram de andar na frente nos Jeeps pessoais, para andarem nos Unimogs, fazendo parte integrante do pessoal, que estes transportavam.
Na dianteira de cada coluna, passou a seguir uma camioneta GMC, extremamente pesada e com uma frente grande a qual podia provocar o rebentamento sem afectar o próprio condutor.
Aquele monstro passou a andar com a caixa cheia de sacos de areia, afim de se tornar ainda mais pesado e por isso menos vulnerável.
As GMC e outros veículos, que dotavam todas as companhias militares, tinham sido resultado de resíduos da motorização, que tinha servido a Segunda Grande Guerra, vindo depois para Portugal.
O grande conflito tinha chegado ao fim em 1945, havia poucos anos em 1962, afinal todos os militares tinham nascido ainda no tempo em que o maior conflito bélico do mundo grassava.
Ao passar a noite de sete, precisamente à uma hora calhou de novo a Onofre e companhia, com outras unidades, integrar uma escolta. Por alguns dias, a força de cobertura da deslocação a proceder a uma importante operação, esteve aquartelado na Fazenda Três-Marias. A dormida era conjunta com os colonos, que se encarregavam de zelar nos trabalhos a efectuar por nativos de raça bailunda, por mais fácil e de adaptação mais dócil.
A trinta e um foi a guarnição ao encontro da tropa em operação, na picada próxima, com passagem pelos destroços das viaturas, momentaneamente abandonadas, transportando alguns de imediato.
A seguir, logo a um de Novembro, houve mais uma espécie de destacamento para Muxaluando de um grupo do pelotão a que Onofre pertencia, a missão era a da equipa da Breda escoltar o grupo de militares do esquadrão do comando que foram escalados para transportar o resto dos destroços das viaturas que tinham ficado nos terreno, após o duro golpe sofrido na picada, havia poucos dias, o que veio a acontecer.
Depois de realizada a operação, Onofre, Esquim Pinto, Teodoro e Gastão, com todo o equipamento, ficaram três dias junto do Batalhão, o que depois dos acontecimentos, emprestava maior segurança, já que aquele aquartelamento não estava munido de equipas de metralhadoras pesadas, ao contrário dos restantes três esquadrões.
Em Muxaluando ouvia-se comentar, seriam aquelas armas pesadas, que os terroristas apelidavam de costureirinhas, pela rapidez e poder de fogo que, realmente possuíam, se encontravam em segurança.
No breve destacamento, para um observador e com espírito aventureiro, tudo servia de reflexão.
Então um dia assistiu a um daqueles desafios de futebol, não tão improvisado, como poderia parecer, porque era vulgar em qualquer acampamento militar, observou um dos guarda-redes, o segundo comandante da força, o Major Caldeira, já com idade. Pelo elevado posto, não lhe seria apropriada a dedicação àquele exercício, mesmo usado uma camisola regulamentar, por ser um pouco forte para poder vestir a camisola do próprio equipamento.
Ora, já era do conhecimento geral, o homem padecer da "bola", tanto mais que era um bom motivo para conversas anedóticas, entre os seus comandados.
Já era conhecido pela alcunha do "pai da Cuca", pela dedicação à bebida alcoólica, mais usada na colónia de Angola.
Diga-se que nas cantinas da tropa, o seu custo ficava em metade, o que se tornava mais um aliciante.
No dia quatro, deu-se o regresso ao Tari, não sendo novidade absoluta, na parede de uma das casernas, a primitiva que continuava a funcionar, só com um pelotão, ver-se num nicho, uma imagem da Senhora de Fátima.
O ícone, uma espécie de troféu apreendido numa batida, teria sido arrancando pelos terroristas em alguma fazenda abandonada, depois de atacada.
O Comandante Alves Ribeiro achou por bem mandar colocá-la num nicho, bem visível, na parede do grande edifício, que apesar de sido arranjado, nomeadamente na cobertura, depois de danificada pela guerrilha, permaneceu com a pedra da parede à vista.
Daniel Costa – in JORNA DA AMADORA

sábado, 26 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 9

A MAGIA DO RIO LIFUNE
O Rio Lifune está implantado na região onde principiou a rebelião da grande Colónia de Angola, que Portugal ia administrando em África, destinada a subverter a situação que os naturais, assim como a opinião pública mundial, consideravam injusta.
Na antiga Região dos Dembos, banhada pelo Lifune, onde o Onofre se movimentava, vivendo uma aventura, que não era mais do que o grande desejo de liberdade de conhecer novos horizontes, em resumo a mobilização para a guerra estava ali a conferir-lhe a grande oportunidade desejada.
Assim aquele Rio era a magia com que se convivia diariamente, ainda por cima, sustentava a ponte de alvenaria por onde tinha passado toda a estrutura militar que tomara á ainda rudimentar organização da UPA a "fortaleza" que esta fizera da célebre povoação de Nambuangongo, não sem antes os terroristas terem tentado destruí-la, com o sentido de cortar o avanço à coluna militar que para aí se deslocava.
Por a posição da tropa do terreno, no encaminhamento do objectivo não o permitir, só foram destruídas a maior parte das guardas laterais, bem como alguns locais onde estavam impostos os pilares dessa.
O Lifune percorria a calma região entre a Fazenda Tari, que assim ganhara o prefixo do Rio e a Fazenda que ostentava a designação da mesma corrente aquífera, de seu nome próprio Lifune, tudo por uma questão de proximidade e referência.
Todo o corredor feito picada, era o mais percorrido em viaturas, pelo Esquadrão sedeado no Tari, bem como a parte destacada na Vista Alegre a constituir também um ponto da importante rota.
Torna-se claro que o Grande Esquadrão a ocupar uma vasta zona, estava sempre em movimento, por tudo o que era picada, mesmo secundária, mas aquela era a mais directa ao Comando do Batalhão sito em Muxaluando.
Nas roças abandonadas, em virtude do terrorismo, de designações como Portugália, Quincuso e outras, situadas nas zonas de intervenção, as visitas só tinham a ver com a manutenção da soberania nacional, ao tempo tão propalada em todo o território.
Como um militar, fazendo parte de um grupo está sempre em guerra, nas quase diárias surtidas naquele corredor, sempre se passava pelo Lifune (Fazenda).
O Lifune fica logo no fim da descida, do que fora a grande povoação de Muxaluando e ao mesmo tempo centro comercial de certa importância, antes da actuação guerrilheira, do grupo denominado UPA, pelo que o Onofre e a estrutura do pelotão a que pertencia, estavam muito em acção e sempre a passar por ali, onde se cultivava um enorme palmeiral.
A grande plantação originava uma fábrica em laboração quase contínua, na produção de óleo de palma. A única que se podia encontrar naquelas latitudes.
Porém o que mais despertava entusiasmos, nos militares era a Dolores, uma preta relativamente nova, que sempre se deixava ver.
Refira-se a circunstância da raridade que representava, naquelas paragens, uma visão feminina. No entanto sabia-se da sua união conjugal ao chefe da laboração da fazenda.
Uma das atribuições que cabia aos militares, era o de também escoltar trabalhadores na safra do café, abundante e de grande qualidade na região, em fazendas que iam laborando, mesmo que os fazendeiros tivessem tido de abandonar as roças e procurado refúgio junto dos aquartelamentos, improvisados para efectivar a defesa de todos os bens da comunidade.
O rio Lifune também tinha a sua utilidade para a pesca dos lagostins, de vez em quando ia-se a determinando o ponto onde colocar armadilhas, para o efeito. Depois o resultado da pesca seguia direito à messe de Oficiais e Sargentos, porque eram eles quem beneficiava do produto.
Para essa actividade, como para todas as efectuadas fora do arame farpado a rodear as instalações, sempre tinha de haver um serviço de escolta.
No Lifune Tari, além de existir um rebanho de cabras, que se possuía por compra à tropa substituída e foi criada uma exploração agrícola cujos produtos frescos produzidos serviam muitas vezes para abastecer o rancho.
Os soldados a colaborar na agricultura, faziam-no sempre devidamente armados. O Sargento que se encarregava do comando daquela exploração, depressa tomou o cognome de "Lavrador".
Coisas que também os rapazes, mesmo em guerra não se cansavam de inventar, no caso partindo do atribuído a um monarca da primeira dinastia.
A vinte e nove de Julho, foi dia de outra integração, pelas três da manhã, em escolta de protecção a um outro pelotão do Esquadrão a participar numa das muitas operações militares, incluindo incursões no denso matagal, com o objectivo de reduzir o terreno desfrutado a belo prazer pelos bandidos da mata.
Consumada a operação terrestre, enquanto os elementos de serviço, em grupo motorizado deixando, como acontecia regra geral, em sentido contrário os soldados atacantes foram recolhidos a meio da manhã pela mesma força, numa via trasversal situada num ponto pré determinado.
Veio a saber-se terem sido feitas várias baixas.
E tempo de expressar-se, desde já, que as mortes infligidas a terroristas em plena mata, ficavam à conta dos seus camaradas. Obviamente o transporte feito pelas tropas regulares era impossível. Por outro lado deve ficar claro que, no Esquadrão, era ponto assente que só se recorria à força de tiroteio, depois de dada ordem para os opositores se entregarem.
Aquela guerra visava apenas a integração. Passada a fase da grande violência terrorista, a força de retaliação, queria evitar represálias.
Estas eram as ordens emanadas dos comandos e eram respeitadas escrupulosamente no Esquadrão 297.
Por esta altura tornava-se muito frequente as idas a Quimoche.
Enquanto se recuperava material de construção, não deixava de estar em acção um objectivo principal, a vigilância do perímetro adstrito àquela força expedicionária. No âmbito desse desiderato havia já um pelotão, do grande quartel da cidade de Nova Lisboa, constituído por militares locais, em que só o superior, um alferes, um sargento e dois cabos eram brancos.
Era aí na Fazenda Três-Marias, a base para em muitos regressos, se efectivar os ranchos relativos a almoços.
Sempre no âmbito da operacionalidade, coube ao Onofre e companheiros, participarem em mais uma escolta, onde só se contou a apreensão de valiosos documentos e variados objectos.
A dez de Agosto houve novo destacamento de substituição em Vista Alegre. Além da continuidade em posição operacional, foi retomado o que já se tornara rotineiro: Posição adaptada à espera de entrar em combates de guerra!...
Em vinte e quatro de Agosto, numa viagem, ao Tari, tomou-se conhecimento, que um dos pelotões, numa operação, haviam aprisionado duas mulheres.
Agosto de 1962, dia vinte e nove, a tropa do Esquadrão numa acção de assalto, a que se ia dando a denominação de batida, fez várias baixas e apanhou um casal, cuja condição de terrorista não seria adequada, pelo que enquanto permaneceu no Tari, não foi muito molestado nos normais e habituais interrogatórios, que estes casos exigiam.
No dia doze de Setembro, foi a vez do Onofre, em substituição alinhar numa batida apeado.
Pela única vez, andou cerca de oito horas embrenhado na mata e no capim. Deu para entender melhor o grande esforço desenvolvido pelo Esquadrão.
Nada tendo resultado, serviu apenas para ver um terrorista de longe, fuga desordenada fora do alcance de trajectórias balísticas, com o armamento disponível ou com perseguição, naquele terreno com vegetação tão exuberante, sempre mais favorável a fugitivos conhecedores do meio.
No dia dezassete, ainda no mês de Setembro, de novo formado pelo pelotão do Onofre, com a metralhadora pesada Breda, montada no Jeep que este comandava, constituído para, a partir das duas da madrugada entrar em nova batida, onde foram efectuados mais mortos.
Recorda-se aqui o vinte e sete de Setembro, em que numa missão das habituais escoltas, desta vez a Mucondo, no caminho foi avistado e caçado um javali: Foi necessário todo um pelotão, o efectivo da tropa em movimento, para efectuar a caça à peça, que depois serviu uma refeição, com a verificação de que seria difícil na metrópole uma mesa de carne tão saborosa.
No seio de uma guerrilha, como a que se verificava, se vista com espírito de aventura, como o Onofre, pode encontrar-se momentos agradáveis. Numa altura em que se ia desenvolvendo imensa luta com o inerente trabalho para quem fazia com que o terrorismo reconhecesse ali predominar o Grande Esquadrão.
Em virtude da amizade muito pessoal e próxima que o Onofre mantinha com o Jaime, um dos poucos a possuir um rádio portátil a operar naquele acampamento, algures numa mata a Norte, em quartel militar, a audição do receptor era um dos entretenimentos disponíveis. Como os inúmeros postos emissores difundiam para os muitos contingentes militares que ocupavam a zona envolvida pela guerrilha, todos tinham já na grelha de programas, vários de discos pedidos, muitos dos quais chegavam de familiares, amigos e Madrinhas de Guerra, vindas do Continente.
Nomes em voga muito passados nessa altura, além de outros eram os de António Prieto (latino-americano), Paul Anka (Canadiano), Frank Sinatra (americano), Gelú (espanhola), Ângela Maria (brasileira), Fernando Farinha, "Os Planetas da Kaala" (grupo de militares aprestar serviço em Angola), "Conjunto Maria Albertina") ou Raúl Solnado (mormente com a "História da Ida à Guerra").
As Madrinhas de Guerra constituíam também um paliativo para ajudar na passagem daqueles tempos, portanto a chegada da avioneta à pista do aquartelamento era muito saudada. Não se pensava tanto na carne, peixe e outros frescos que deveria transportar, bissemanalmente para a alimentação, mas o correio, no qual devia vir correspondência das mesmas!...
Onofre parecia viver obcecado por aquela que sempre adocicou a sua existência por toda a comissão, marcando constante presença.
Era a Ana Zé, que mantendo a sua obsessão, hesitou em subir de "posto", como se diria em conversas de caserna, encontrando sempre uma bondade incomensurável da parte do Onofre!...
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

quinta-feira, 24 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 8

VISTA ALEGRE

A substituir a guarnição ali instalada, chegados à Fazenda Vista Alegre, local do percurso da tropa do Tenente Coronel Maçanita, no ataque final ao bastião dos terroristas da UPA, agrupados na povoação de Nambuangongo, retomada alguns meses antes. A troca dera-se de imediato, uma vez os militares pertencerem ao mesmo Esquadrão e já estarem muito rodados nos movimentos a efectuar no cenário.
O serviço de escoltas continuou. A partir daquele destacamento saia-se muito, em reconhecimento as roças vizinhas, onde se encontrava tudo destruído.
As muitas visitas que se faziam ao Tari, onde estava instalado o comando do Esquadrão, eram sempre em missão de escolta, a par de trazer a área sempre debaixo de protecção, visavam o abastecimento e sempre na mente de todos os elementos, o correio que a avioneta devia trazer duas vezes por semana, para dar o tão simples, como o esperado conforto aos militares, mas continuava a ser miragem muitas vezes, tantas quantas as falhas.
Então no Domingo 10 de Junho de 1962, numa operação levada a cabo por tropa do Tari, deu-se a primeira baixa do Esquadrão.
A bandeira estava içada a meia haste e reinava a tristeza naquele aquartelamento.
Aconteceu num reconhecimento feito a um local, bombardeado pela aviação, além da baixa, resultaram ainda quatro feridos, que acabaram por ser evacuados para o hospital militar de Luanda.
O Onofre havia travado conhecimento com um dos evacuados, numa efémera passagem pelo Hospital Militar de Elvas. A sua baixa àquela unidade teria em vista livrar-se da guerra, já que era proveniente de família abastada, que tudo podia pagar.
Na circunstância pôde ler a notícia da sua morte, num jornal luandense. Pensara-se, por via disso, que a local poderia objectivamente ser forjada, pois nunca mais o regresso daquele elemento foi verificado.
A vida nas instalações improvisadas da Fazenda Vista Alegre, com o optimismo do Onofre, era agradável e o jogo de cartas continuava uma constante dos tempos livres, pois tornara-se uma actividade rentável. Pertencendo o Picão também ao destacamento, continuava a ser o providencial parceiro.
Determinado furriel também pertencia ao pelotão e era civilmente bastante rico, logo de manhã fazia a sua abordagem para a sueca. Como era evidente, perdia todos os dias.
Naquele aquartelamento fora passada a primeira quadra dos Santos Populares, em Angola, comemorada no perímetro do próprio, com as tradicionais e festivas fogueiras.
No destacamento, além dos serviços de escoltas, inevitavelmente, estava presente a vigilância, dela dependia a relativa tranquilidade que se ia usufruindo, até que chegados a sete de Julho o pelotão regressou á base, depois de assegurado o serviço, com a substituição por outro.
Foi mesmo nesse dia, já em nova missão no corredor Tari - Vista Alegre, no célebre "bate e foge" daqueles tempos, que o Onofre e companheiros, sentiram a flagelação de uns tiros sem importância, mais para lembrar o estar-se ali a enfrentar uma guerra.
Estava a entrar-se numa fase de mais maturidade e muita actividade, naquela zona caracterizada por densa vegetação, grandes árvores e muitas plantações de cafeeiros.
Bananeiras, uma planta a poder ser considerada endémica, havia-as de várias qualidades e toda a gente tinha o seu próprio fornecimento dessa fruta, colhida numa das inúmeras sanzalas e roças abandonadas.
Ao contrário os ananases, frutos que por vezes se encontravam, nas mesmas circunstâncias, tornavam-se mais apetecíveis, mas não se reproduziam sem um tratamento, pelo que não se podiam aprovisionar individualmente.
A tropa do Tari adoptara um colono fazendeiro, a morar aí como defesa, bem como os seus trabalhadores, para guia naquela labiríntica vegetação, onde se podiam dar inúmeras voltas e se dar conta de estar sempre a caminhar para ponto de partida.
Numa operação deu-se a chegada a um local, a servir de esconderijo e habitação de elementos da UPA, tendo as sua sentinelas. Dado o alerta, verificaram-se as fugas, foi apenas apanhado um rapaz de cerca de quinze anos.
Estava ferido e escapou à chacina, por intervenção oportuna do própria Comandante do Esquadrão, a comandar a operação: É que sendo os militares muito aguerridos, ao ouvir o jovem proferir alto e bom som: "UPA... UPA... UPA!... A tropa estragou a minha vida"... Um dos mancebos não se susteve e já levantava uma catana, afim de lhe cortar o pescoço!...
No mesmo dia, o médico do Esquadrão, o Alferes Azevedo Gomes, que dava mostras de humanidade, talvez para conseguir abstrair-se e desanuviar a mente, subiu ao torreão, que servia de vigia ininterrupta ao aquartelamento, onde Onofre cumpria as suas horas de serviço.
- Deu-se, entre ambos, o seguinte diálogo:
- Dr. Azevedo Gomes: - "Passei um dia bastante preenchido, além do muito trabalho com alguns de vocês, que me têm aparecido, ainda tive de tratar o jovem prisioneiro".
- Onofre - "o Doutor aí podia aplicar determinado comprimido e ocasionar a morte".
A resposta indignada, não se fez esperar: "O médico é para tratar da cura e não da morte, mesmo de um inimigo capturado".
Deu-se também um facto, que à distância de quatro décadas, ou por isso, é para rir: Ia o Onofre no Jeep com os seus companheiros, acompanhando o respectivo pelotão, em serviço na picada que vai dar a Muxaluando.
Havia muitas perdizes, por aqueles sítios e como o apontador da Breda, o Teodoro, era amador de caça na vida civil, ao ver uma dessas aves, dispondo apenas de metralhadora pesada, a que se agarrava, apontou e zás!... Tiro!...
Era uma curva muito acentuada, própria para a ocorrência de uma emboscada.
Antes de entrar nessa, transitava uma outra coluna em sentido oposto, pertencia ao esquadrão de comando, com o próprio Tenente-Coronel nas suas próprias funções de comandante.
Tanto bastou para a segunda força abrir fogo, como lhe competia, visto que logo entendeu estar a sofrer um ataque.
Felizmente, não passou de uma brincadeira, ali pouco original, que podia ter o seu fatalismo, até no aspecto disciplinar, que não funcionou, talvez porque não foi investigada a verdadeira origem do episódio.
Na Segunda-Feira, nove de Julho, depois de ser escoltada uma missão, na volta para de regresso, constatou-se a apreensão de alguns canhângulos.
Para que pudessem efectuar a fuga, os terroristas, foram obrigados a abandoná-los.
A partir desse mesmo mês de Julho o Esquadrão iniciou grandes obras da sua base no Lifune-Tari, sendo que a referência Lifune se deve ao rio do mesmo nome, situado quase junto,
A metamorfose, que acabou por ser efectivada, ficou a dever-se aos escombros da nova povoação branca de Quimanoche. Foi dali que saíram, em várias colunas militares, todos os materiais de construção, nomeadamente madeiras para vários edifícios como mais duas casernas, para que cada pelotão tivesse a sua, com muito mais conforto.
Ficava patente o grande poder organizativo do comandante do Esquadrão, Capitão Alves Ribeiro e também do valor demonstrado por vários militares oriundos da construção civil, cujo trabalho apresentado mostrou grande perícia.
Das várias idas, um dia em duplicado, do pelotão a que pertencia o Onofre, deu para verificar que se tratava duma povoação fundada recentemente, para colonos, pois mesmo completamente destruída, sentia-se a solidez dos materiais utilizados e uma razoável grandeza, que o terrorismo acabara por aniquilar.
Entretanto continuava a registar-se um grande movimento de operações militares, que se denominavam batidas, visto que eram levadas a cabo com incursões no denso capim a rodear a imensa floresta, servindo de protecção aos grupos de "turras", como eram apelidados em simplificação.
Numa dessas acções, a dois de Julho, depois de uma actuação, a que se poderia chamar de psicossocial, pendurou-se numa árvore uma garrafa, protegendo uma mensagem, convidava todos os que viviam na clandestinidade a entregarem-se. Resultou a recolha de um elemento, que se viria a tornar precioso como guia, dado ter relevo e conhecimento da zona.
Na mesma operação, foram ainda apanhados documentos que se revelariam importantes.
Dizia-se que a população colonial ao redor não sofrera os conhecidos e horríveis massacres que haviam chegado à Fazenda Maria Fernanda, onde estava instalado outro esquadrão do Batalhão 350, porque o pai, não concordando com a operação nos moldes apresentados, retardou a respectiva informação.
O homem começou por ter uma guarda de dois militares, passando apenas a um, para depois ser como mais um militar e atingir a posição de guia, com direito a ir integrado nas operações, armado com espingarda Mauser.
Era o Lopes Cabanda, que realmente se tornou elemento incontestado a guiar os militares pela mata, na prevista intenção de pacificar a zona onde fora desencadeada a guerra no Norte de Angola.
A tropa do Tari ia assim desenvolvendo grande actividade operacional, enquanto se iam vivendo tempos de pura abstracção com envolvimento na criação de factos divertidos, como a de "roubar" o maior número de quicos possíveis. Chegou ao ponto de serem criadas estratégias interessantes, como aquela que o Belo um dia levou à prática. Uma dessas peças regulamentares foi presa a um alfinete, seguro num cordel. O contentamento gerado pelo suposto achado desvanecia-se abruptamente quando se apercebia ter caído numa armadilha.
Resta registar que os designados quicos, eram coberturas de cabeça, que faziam parte do fardamento, a usar em tempos inoperacionais.
Eram muito leves e caracterizavam por possuírem duas bandas, pendentes atrás sobre o pescoço, fazendo lembrar novas orelhas.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

terça-feira, 22 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 7

LIFUNE - TARI
Depois de se tomar conhecimento da devastadora acção de puro terrorismo, não só de grupos, como do então famigerado pelotão comandado pelo Alferes Robles, com a primeira resposta militar, dando consistência à máxima: "ao terrorismo só se pode responder com terrorismo", acabou por ser toda a zona afectada, a começar na vasta Região dos Dembos a norte de Luanda.
Ainda cá no "Puto", como a tropa por influências locais, se habituara a designar o Portugal da Metrópole, a 10 de Agosto de 1961, o mais forte bastião terrorista da altura, a povoação de Nambuangongo foi tomada pelo Batalhão 96 comandado pele lendário Coronel Armando Maçanita, numa verdadeira epopeia relatada pelo repórter da Emissora Nacional, Ferreira da Costa, deixando a Região temporariamente mais calma.
Era essa zona a destinada ao grande Esquadrão, que veio a substituir na fazenda Lifune - Tari uma das companhias pertencentes ao glorioso 96, que ali se fixara, depois de recuperado Nambuangongo ao então grupo de bandoleiros da UPA, tornara assim a zona mais pacificada.
Recorde-se que o pessoal comandado pelo Coronel Maçanita atingiu o grande feito com a velha espingarda Mauser, visto ser a arma que o exército possuía. Afinal o opositor, além dos "canhângulos" (espingardas improvisadas com canos rudimentares e munições feitas de vários materiais, até com pregos velhos...) e catanas, utensílios cuja utilidade, além de outras tarefas do campo locais, era a de ceifar o capim, aparecendo só aqui e além, alguma espingarda, naturalmente em mãos de superiores, a dirigir a rebelião.
A Região dos Dembos, durante um ano ficou mais calma, especialmente na parte onde estava sedeada a tropa sob o comando de Batalhão em Muxaluando.
Dali, como já se viu, partiu a sortida final para a célebre tomada da célebre povoação de Nambuangongo
Na larga extensão que servira de Base ao grande feito guerreiro, talvez um dos maiores travados por portugueses em toda a África na século XX, passaram a dominar os militares pertencentes ao Batalhão 350, comandado pele Tenente-Coronel Costa Gomes, o tal irmão do que tendo o mesmo apelido, atingiu a Presidência da República e o alto posto de Marechal.
Durante cerca de um ano, salvo algumas escaramuças, conheceu-se aquilo a que poderia chamar-se a segunda fase da guerra de Angola. Por exemplo, em períodos mensais, havia um ataque de três ou quatro tiros, num verdadeiro "bate e foge", a uma das muitas colunas militares auto transportados, por aqueles caminhos, roças e muceques destruídos e desabitados, procurando manter a soberania e a paz.
Como não havia troca de armas, visto todo o Batalhão já ir provido, com espingardas novas modernas, que por deficiente fabrico, em breve foram substituídas por G3, cuja maior eficiência era inegável.
Logo no dia sete iniciou-se o serviço destinado ao Esquadrão, que tinha a comandá-lo o Capitão João Ramiro Alves Ribeiro, um homem que já ia dando provas de talento militar, não só pela dignidade do posto, como pelos inegáveis dotes de comando, em toda a linha.
No entanto só no dia oito Onofre e os seus camaradas, mais próximos, Esquim Pinto, Teodoro e o motorista Gastão, no Jeep que lhes estava destinado, iniciaram verdadeiramente os serviços de escoltas transportadas, trabalho que lhes fora atribuído, pela sua própria especialização.
Começou com a amenidade de um pequeno itinerário, cerca de quinze quilómetros, o que dista do Tari a Vista Alegre, numa coluna destinada a transportar pão, para acompanhar as refeições de um pelotão, uma fracção do Esquadrão que, destacado, tinha a missão de assegurar presença naquele local a servir de corredor na épica tomada de Nambuangongo.
A partir desta data, entre as muitas escoltas, outros serviços no aquartelamento, muitas conversas, a escrita de cartas à família e amigos e ás cerca de dezena e meia de Madrinhas de Guerra, Onofre nunca deixara de estar activo.
Evidentemente, que se viviam a partir daquele local, inúmeros episódios, uns menos alegres e outros de puro divertimento.
Logo a dezasseis de Março, depois de um dia trabalhoso, houve ordem de ir um pelotão a Vista Alegre reforçar o ali residente, pois havia-se sentido algo estranho. Depois de muito se escutar, chegou-se á conclusão de ser nula presença de rebeldia.
Como o alarme não passara de rebate falso, já madrugada o reforço voltou à base, sem novidade.
Entretanto, começaram as batidas, essas eram efectuadas por um pelotão de militares, levando sempre por escolta um ou vários Unimogs transportando tropas, acompanhadas de um Jeep equipado com metralhadora pesada Breda e o respectivo grupo, dos três existentes, um por cada pelotão, muitas vezes calhava a Onofre, tanto mais que quase todos os dias havia os mais variados serviços exteriores.
Considera-se importante mencionar o Arsénio, também especializado em armas pesadas, na vertente morteiros, na maior parte também ao serviço de escoltas, portanto só andava em corredores compostos por picadas, tomou a opção de oferecer-se voluntariamente para se movimentar na qualidade de atirador. Não havendo desprestigio era bem aceite a ideia, acontecendo algumas vezes nas acções chamadas batidas, haver apreensão e recolha de diverso material, à mistura com Angolares.
Depois de tudo passar pelo Comandante, o dinheiro voltava sempre a quem o entregara.
O recolhido pelo Arsénio, ia logo direito a umas "cucas", para os amigos, onde nunca podia faltar o Onofre!...
Ainda nesse mês de Março, logo no dia doze houve o primeiro ferido, com pouca importância, calhou ao Alferes Faria.
Em quatro de Abril desse ano, de mil novecentos e sessenta e dois, numa das constantes operações (batidas), o Esquadrão fez os primeiros prisioneiros, dois miúdos que não terão tido a ligeireza e a sagacidade suficientes para fugirem com os progenitores. Pensa-se que, pelo menos uma morte aconteceu do lado inimigo.
Após as escoltas já, entradas nos serviços de rotina, fazendo parte da vida, que terá sido de facto a mais aventurosa do Onofre, este muito dado à nostalgia, que erroneamente podia parecer tristeza, pois o nosso homem acatara aquela fase da existência, como um pensador, sendo uma maneira de a levar como se descesse a rua assobiando uma ária, a mente conduzia-o a estados de alma, que lhe traziam recentes memórias de juventude presente.
Um dia concluiu que, afinal aquele tipo de ocupação involuntária, estava a tornar-se na aventura, que a ainda curta existência não lhe proporcionara, estava sendo o trabalho melhor remunerado até então, visto que jornadeando, aqui e além, mesmo tendo em conta épocas do ano mais promissoras, devido ao status de grandeza atingida na execução de qualquer tarefa do campo. Aquela era monetariamente a melhor conseguida, sem contar com o fornecimento de comida e vestuário.
Falar do Onofre trabalhador é mencionar, quase de certeza um dos últimos grandes trabalhadores do campo, que o Oeste possuiu.
Era assim, que muita tropa sustentava a possessão, após a Segunda Guerra Mundial, em que se estavam a tornar, independentes vários territórios ultramarinos.
A Pátria Lusitana, do Minho a Timor, a partir de um pedaço de terra chamado Portugal estava a desmoronar-se.
De qualquer modo, os militares habituavam-se, por influência nativa, sem qualquer sombra de maldade, a apelidar de "Puto" a parte da grande Nação, que se encontrava mais a norte da Europa.
Não havia dúvida, aquela guerra ainda em princípio, seria a grande semente, para tornar Portugal num verdadeiro País europeu, onde ia deixar de haver grandes homens, apenas a servir para alimentar guerras.
Naquele acantonamento, era suposto duas vezes por semana aterrar uma avioneta, transportando produtos comestíveis frescos, para alternar com os abastecimentos chegados em coluna militar, na confecção da alimentos, como também o pacote com o correio, enviado por familiares, amigos ou Madrinhas de Guerra, porém chegava a haver falhas de quinze dias e mais.
Isto revelava-se uma grande lacuna, que se podia apontar, ao que se poderia considerar uma razoável organização estratégica de serviços de retaguarda.
De uma maneira geral, todo o pessoal possuía a modéstia suficiente para sofrer, mas a falta de correio trazia grande desânimo ao grupo.
De notar que a cerca de três quilómetros do aquartelamento, já havia uma pista de terra batida, para pequenos aviões, havendo nos dias convencionados da chegada destes, um pelotão de serviço, com o fim de tomar posição de guerra, para os receber com a devida protecção anti terrorista.
Por vezes, um sargento piloto, amigo sobretudo do Primeiro-Sargento residente, que respondia pelo Esquadrão, passava por ali obviava a falha, rasando o aquartelamento, com o lançar do saco de correio para terra, onde alguém o apanhava com sofreguidão.
Chegado o primeiro dia de Páscoa, naquela zona de guerra, houve uma confraternização mais alargada, com militares artistas ali estacionados, onde se contavam dois acordeonistas.
A vinte e três de Abril o pelotão de que fazia parte a equipa do Onofre foi destacado para a Fazenda Vista Alegre, em substituição da guarnição que o Esquadrão ali mantinha sempre, como parte integrada.
Daniel Costa –in JORNAL DA AMADORA