quinta-feira, 24 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 8

VISTA ALEGRE

A substituir a guarnição ali instalada, chegados à Fazenda Vista Alegre, local do percurso da tropa do Tenente Coronel Maçanita, no ataque final ao bastião dos terroristas da UPA, agrupados na povoação de Nambuangongo, retomada alguns meses antes. A troca dera-se de imediato, uma vez os militares pertencerem ao mesmo Esquadrão e já estarem muito rodados nos movimentos a efectuar no cenário.
O serviço de escoltas continuou. A partir daquele destacamento saia-se muito, em reconhecimento as roças vizinhas, onde se encontrava tudo destruído.
As muitas visitas que se faziam ao Tari, onde estava instalado o comando do Esquadrão, eram sempre em missão de escolta, a par de trazer a área sempre debaixo de protecção, visavam o abastecimento e sempre na mente de todos os elementos, o correio que a avioneta devia trazer duas vezes por semana, para dar o tão simples, como o esperado conforto aos militares, mas continuava a ser miragem muitas vezes, tantas quantas as falhas.
Então no Domingo 10 de Junho de 1962, numa operação levada a cabo por tropa do Tari, deu-se a primeira baixa do Esquadrão.
A bandeira estava içada a meia haste e reinava a tristeza naquele aquartelamento.
Aconteceu num reconhecimento feito a um local, bombardeado pela aviação, além da baixa, resultaram ainda quatro feridos, que acabaram por ser evacuados para o hospital militar de Luanda.
O Onofre havia travado conhecimento com um dos evacuados, numa efémera passagem pelo Hospital Militar de Elvas. A sua baixa àquela unidade teria em vista livrar-se da guerra, já que era proveniente de família abastada, que tudo podia pagar.
Na circunstância pôde ler a notícia da sua morte, num jornal luandense. Pensara-se, por via disso, que a local poderia objectivamente ser forjada, pois nunca mais o regresso daquele elemento foi verificado.
A vida nas instalações improvisadas da Fazenda Vista Alegre, com o optimismo do Onofre, era agradável e o jogo de cartas continuava uma constante dos tempos livres, pois tornara-se uma actividade rentável. Pertencendo o Picão também ao destacamento, continuava a ser o providencial parceiro.
Determinado furriel também pertencia ao pelotão e era civilmente bastante rico, logo de manhã fazia a sua abordagem para a sueca. Como era evidente, perdia todos os dias.
Naquele aquartelamento fora passada a primeira quadra dos Santos Populares, em Angola, comemorada no perímetro do próprio, com as tradicionais e festivas fogueiras.
No destacamento, além dos serviços de escoltas, inevitavelmente, estava presente a vigilância, dela dependia a relativa tranquilidade que se ia usufruindo, até que chegados a sete de Julho o pelotão regressou á base, depois de assegurado o serviço, com a substituição por outro.
Foi mesmo nesse dia, já em nova missão no corredor Tari - Vista Alegre, no célebre "bate e foge" daqueles tempos, que o Onofre e companheiros, sentiram a flagelação de uns tiros sem importância, mais para lembrar o estar-se ali a enfrentar uma guerra.
Estava a entrar-se numa fase de mais maturidade e muita actividade, naquela zona caracterizada por densa vegetação, grandes árvores e muitas plantações de cafeeiros.
Bananeiras, uma planta a poder ser considerada endémica, havia-as de várias qualidades e toda a gente tinha o seu próprio fornecimento dessa fruta, colhida numa das inúmeras sanzalas e roças abandonadas.
Ao contrário os ananases, frutos que por vezes se encontravam, nas mesmas circunstâncias, tornavam-se mais apetecíveis, mas não se reproduziam sem um tratamento, pelo que não se podiam aprovisionar individualmente.
A tropa do Tari adoptara um colono fazendeiro, a morar aí como defesa, bem como os seus trabalhadores, para guia naquela labiríntica vegetação, onde se podiam dar inúmeras voltas e se dar conta de estar sempre a caminhar para ponto de partida.
Numa operação deu-se a chegada a um local, a servir de esconderijo e habitação de elementos da UPA, tendo as sua sentinelas. Dado o alerta, verificaram-se as fugas, foi apenas apanhado um rapaz de cerca de quinze anos.
Estava ferido e escapou à chacina, por intervenção oportuna do própria Comandante do Esquadrão, a comandar a operação: É que sendo os militares muito aguerridos, ao ouvir o jovem proferir alto e bom som: "UPA... UPA... UPA!... A tropa estragou a minha vida"... Um dos mancebos não se susteve e já levantava uma catana, afim de lhe cortar o pescoço!...
No mesmo dia, o médico do Esquadrão, o Alferes Azevedo Gomes, que dava mostras de humanidade, talvez para conseguir abstrair-se e desanuviar a mente, subiu ao torreão, que servia de vigia ininterrupta ao aquartelamento, onde Onofre cumpria as suas horas de serviço.
- Deu-se, entre ambos, o seguinte diálogo:
- Dr. Azevedo Gomes: - "Passei um dia bastante preenchido, além do muito trabalho com alguns de vocês, que me têm aparecido, ainda tive de tratar o jovem prisioneiro".
- Onofre - "o Doutor aí podia aplicar determinado comprimido e ocasionar a morte".
A resposta indignada, não se fez esperar: "O médico é para tratar da cura e não da morte, mesmo de um inimigo capturado".
Deu-se também um facto, que à distância de quatro décadas, ou por isso, é para rir: Ia o Onofre no Jeep com os seus companheiros, acompanhando o respectivo pelotão, em serviço na picada que vai dar a Muxaluando.
Havia muitas perdizes, por aqueles sítios e como o apontador da Breda, o Teodoro, era amador de caça na vida civil, ao ver uma dessas aves, dispondo apenas de metralhadora pesada, a que se agarrava, apontou e zás!... Tiro!...
Era uma curva muito acentuada, própria para a ocorrência de uma emboscada.
Antes de entrar nessa, transitava uma outra coluna em sentido oposto, pertencia ao esquadrão de comando, com o próprio Tenente-Coronel nas suas próprias funções de comandante.
Tanto bastou para a segunda força abrir fogo, como lhe competia, visto que logo entendeu estar a sofrer um ataque.
Felizmente, não passou de uma brincadeira, ali pouco original, que podia ter o seu fatalismo, até no aspecto disciplinar, que não funcionou, talvez porque não foi investigada a verdadeira origem do episódio.
Na Segunda-Feira, nove de Julho, depois de ser escoltada uma missão, na volta para de regresso, constatou-se a apreensão de alguns canhângulos.
Para que pudessem efectuar a fuga, os terroristas, foram obrigados a abandoná-los.
A partir desse mesmo mês de Julho o Esquadrão iniciou grandes obras da sua base no Lifune-Tari, sendo que a referência Lifune se deve ao rio do mesmo nome, situado quase junto,
A metamorfose, que acabou por ser efectivada, ficou a dever-se aos escombros da nova povoação branca de Quimanoche. Foi dali que saíram, em várias colunas militares, todos os materiais de construção, nomeadamente madeiras para vários edifícios como mais duas casernas, para que cada pelotão tivesse a sua, com muito mais conforto.
Ficava patente o grande poder organizativo do comandante do Esquadrão, Capitão Alves Ribeiro e também do valor demonstrado por vários militares oriundos da construção civil, cujo trabalho apresentado mostrou grande perícia.
Das várias idas, um dia em duplicado, do pelotão a que pertencia o Onofre, deu para verificar que se tratava duma povoação fundada recentemente, para colonos, pois mesmo completamente destruída, sentia-se a solidez dos materiais utilizados e uma razoável grandeza, que o terrorismo acabara por aniquilar.
Entretanto continuava a registar-se um grande movimento de operações militares, que se denominavam batidas, visto que eram levadas a cabo com incursões no denso capim a rodear a imensa floresta, servindo de protecção aos grupos de "turras", como eram apelidados em simplificação.
Numa dessas acções, a dois de Julho, depois de uma actuação, a que se poderia chamar de psicossocial, pendurou-se numa árvore uma garrafa, protegendo uma mensagem, convidava todos os que viviam na clandestinidade a entregarem-se. Resultou a recolha de um elemento, que se viria a tornar precioso como guia, dado ter relevo e conhecimento da zona.
Na mesma operação, foram ainda apanhados documentos que se revelariam importantes.
Dizia-se que a população colonial ao redor não sofrera os conhecidos e horríveis massacres que haviam chegado à Fazenda Maria Fernanda, onde estava instalado outro esquadrão do Batalhão 350, porque o pai, não concordando com a operação nos moldes apresentados, retardou a respectiva informação.
O homem começou por ter uma guarda de dois militares, passando apenas a um, para depois ser como mais um militar e atingir a posição de guia, com direito a ir integrado nas operações, armado com espingarda Mauser.
Era o Lopes Cabanda, que realmente se tornou elemento incontestado a guiar os militares pela mata, na prevista intenção de pacificar a zona onde fora desencadeada a guerra no Norte de Angola.
A tropa do Tari ia assim desenvolvendo grande actividade operacional, enquanto se iam vivendo tempos de pura abstracção com envolvimento na criação de factos divertidos, como a de "roubar" o maior número de quicos possíveis. Chegou ao ponto de serem criadas estratégias interessantes, como aquela que o Belo um dia levou à prática. Uma dessas peças regulamentares foi presa a um alfinete, seguro num cordel. O contentamento gerado pelo suposto achado desvanecia-se abruptamente quando se apercebia ter caído numa armadilha.
Resta registar que os designados quicos, eram coberturas de cabeça, que faziam parte do fardamento, a usar em tempos inoperacionais.
Eram muito leves e caracterizavam por possuírem duas bandas, pendentes atrás sobre o pescoço, fazendo lembrar novas orelhas.
Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA

14 comentários:

Liz / Falando de tudo! disse...

Pelo visto fui a primeira a chegar!
Como mais uma vez passo correndo para olhar meus comentarios, não pude deixar de vim te agradecer pela sua visita no meu cantinho. Quero te dizer que é uma honra te ter por la, e que podes voltar quando quiser!
Obrigada, um abraço!
Liz

Carla disse...

memórias de um tempo que continuo a acompanhar
bom fds

Sophiamar disse...

Venho deixar-te um rubro cravo de Abril com aroma de Liberdade.

Mil beijinhossss

Rui Caetano disse...

Um bom dia de 25 de Abril!

daniel disse...

Olá liz

Lisonjeado, agradeço!
Também me sinto honrado. Passa sempre que o desejares
Eu é que agradeço, com um abraço.

Daniel

daniel disse...

Olá Carla

Obrigado!
Foi um prazer!
Bom fim de semana.

Daniel

daniel disse...

Olá

Obrigado, pelo bonito cravo.
Que a Revolução de o salpique sempre, para que tenha viço e fescura.
Beijinhos,
Daniel

daniel disse...

Olá

Agradeço e retribuo desejos de um bom 25 de Abril.

Daniel

xistosa disse...

Estive nesse local 10 anos depois.
Já estava tudo calmo.
A fazenda Vista Alegre era a maior a seguir à Maria Luísa do Governador, no meu tempo, Reboxo Vaz.
Estive em Zala, na altura abria-se a picada Zala-Zalala e fazíamos protecção à Engenharia. Fui em rendição individual e gramei 31 meses.
Foi do ponto maos a Norte de Mabinda, Miconge, ao mais a Sul de Angola, Luiana, com passagem pelo leste, onde a aragem era mais de chumbo.

Obrigado pela visita.
Continuo a leu o "livro"

daniel disse...

Olá xistosa

Creio que a tua Vista Alegre é outra, mais perto do Zala. Esta está no corredor Muxaluando a Mucondo, não será tão grande.
Esta Vista Alegre, estaria isenta de terrorismo, mais tarde soube-se, que o chefe pactuava com o terrorismo.
Sabes quem estava em Nambuangongo, em 1962? O poeta Manuel Alegre e Fernando Assis Pacheco. Do primeiro, no jornal da caserna, dizia-se fugiu um cão grande. O segundo cheguei a interagir com ele na feitura da revista "Musicalíssimo", em que funcionou como director. Não gostei da pessoa.
Ambos escreveram sobre Nambuangogo.
O meu amigo Abel Soeiro Figueiredo, o Abel Figueiredo, que foi relator desportivo. foi individual, em substitução e só l6 esteve meses, o tempo necessário, para regressar com todo Esquadrão, que fez 27 meses.
Foi um prazer, debitar mais algumas recordações. Passa sempre, que o entendas.

Obrigado
Daniel

Lyra disse...

Olá, bom dia,

Passei por aqui só para desejar em excelente fim de semana e deixar um beijinho grande.

Voltarei na segunda-feira para te ler. Até breve.

;O)

daniel disse...

Olá Lyra

Retribuo e agradecido, deixo também beijinhos.

Daniel

gasolina disse...

Uma crónica (mais) cheia de cor.
Sublinho o episódio da perdiz atacada a tiro de metralhadora... será que restou alguma coisa?
Pior as consequências do acto impensado!

Continuo no "teu" terreno.

daniel disse...

Olá Xistosa

O rapaz, como pratica a caça, na vida civil e entusismou-se. Havia perdizes perdizes, mas acertar-lhes com uma metralhadora pesada?...
Não chegou a haver problema, alguém terá percebido?
Já agora!... O rapaz alentejano, amigo que não voltei a ver, vim a saber: Perdeu uma vista num acidente de caça, soube por outro companheiro também caçador.

Daniel