segunda-feira, 14 de abril de 2008

ESQUADRÃO 297 EM ANGOLA - 3

EM NAMBUANGONGO
Até 1961 Portugal era potência administrativa de variados territórios coloniais, um pouco por todo o mundo, fruto das vastas viagens feitas por terras desconhecidas até então, pela gesta lusitana de 1500.
Nesse ano deu-se o início ao desmoronamento do mesmo. Uma escaramuça começada nos subúrbios de Luanda, que logo se estendeu a Norte de Angola, foi a causa próxima.
O cabo Onofre, dito comandante de esquadra, mais os dois soldados do mesmo núcleo, Teodoro e Esquim Pinto, integrando o motorista Gastão, num Jeep propositadamente blindado e com metralhadora Breda montada, que lhes havia sido distribuído, pertenciam a um grande Esquadrão que substituíra no Tari-Lifune, uma das célebres Companhias do Batalhão 96, que havia reconquistado a zona de Nambuangongo.
A missão de Onofre e camaradas, com essa dissuasora arma, era o serviço de escoltas.
Foi assim, que logo nos primeiros meses de 1962, Onofre estava na vila de Nambuangongo, para onde tinha viajado em apoio ao pelotão a que pertencia. Havia sido formada uma coluna de abastecimento.
Era naquele local que se centrava o Comando do Sector Militar, que actuava na zona.
Nambuangongo era uma das regiões por onde, já em 1961, havia sido lançada, a rebelião que haveria de se estender a todo o mundo ultramarino até 25 de Abril de 1974, data em que se deu a célebre Revolução, tornando possível a democratização do País.
A povoação era composta por uma igreja. A ladeá-la um cemitério todo cimentado, onde ficaram a repousar os militares mortos em combate, na zona.
Muita tropa passou por ali, desde praças, a oficiais superiores, em missões de comando. Formavam uma comunidade a tornar aliciante a visita de gente na flor da vida, como o observador Onofre.
Para começar, o abastecimento demorava quase todo o dia, preenchido pela classe das praças, na procura de conterrâneos, o que proporcionava inesperados encontros.
Nas cantinas militares, eram lembrados episódios pitorescos tudo natural duma fogosa mocidade. Ali era sede do teatro terrorista, em virtude de tal circunstância, verificara-se um êxodo total de residentes, incluindo já se vê o elemento feminino, a ponto de a a zona se um exclusivo de homens fardados, servindo o exército,
Na verdade, muitas incidências valiam exacerbadas recordações, Normalmente metiam namoradas ou aventuras vividas.
As cantinas, obviamente, eram os únicos pontos de encontro dos circunstantes, em serviço, que mais tinham a fazer senão a escolta de volta. Então era à roda das "Cucas" que se processava todo o tipo de conversas, até que vinham à baila as localizadas naquele espaço e no próprio tempo que ali se vivia.
Onde há muita gente, existe sempre infinita matéria factual a abordar.
Os circunstantes sempre iguais, na aparência, porque fardados, regra geral, pertenciam a classes mais baixas. Vários oficiais superiores , até por mais velhos, serviam os muitos motivos de interesse anedótico, aos olhos da juventude.
Havia um Tenente-Coronel que já se celebrizara pela denominação de "Totobola". Em operações militares, comandava os seus efectivos, viajando em avião, proferindo incentivos como o de ter sido grande desportista do volante e entre outros, o de ter conquistado grande número de mulheres. Outro comandante dum Batalhão estacionado ali, num monte imediatamente a norte, todas as manhãs vinha à localidade fazendo uso da pistola, num tipo de preparação física, pelo que era alvo das maiores chacotas.
Depois das obrigações militares tornava-se obrigatório, falar sem qualquer cerimónia de certos oficiais, mesmo superiores.
Não deixava de ser curial, pois já o próprio Montegomery, figura muito conhecida da Segunda Grande Guerra, como a raposa do deserto, tinha pouco apreço por elevadas patentes, embora pertencendo a essa alta classe militar.
Naquela primeira cavaqueira, entre muitos assuntos, surgiu aquela de os terroristas terem atacado a cozinha. Da escaramuça não resultaram mortos ou feridos, pelo que a boa disposição não arrefeceu. Só os grandes tachos haviam sido furados pelas cargas dos canhângulos (espingardas artesanais) dos inimigos.
De volta, nos cerca de trinta quilómetros, que era necessário percorrer, metidos naquela fortaleza, em estradas de terra batida, muitas peripécias havia a comentar, como a do Esquim Pinto que, tendo possuído uma oficina de bicicletas, encontrava amigos, como ninguém:
- Dizia ele: Em Nanbuangongo há grandes camaradas!
- O Teodoro retorquiu: Pudera!... Passámos todo o tempo no meio de cervejas "Cuca" e havia sempre alguém a pagar, para nós!
Outra do Esquim Pinto, inveterado fumador:
- Agora só fumo C.T. (era considerado o melhor tabaco), mas só se for dado!
Viagens em escolta eram quase diárias. Tudo era levado em jeito de divertimento e passatempo lúdico, não excluindo os perigos que podiam vir das matas.
No acampamento do Tari, o Onofre reflectia muito, uma forma de ser e estar, embora em contraste com a situação de guerrilha, dava para se sentir bem, apesar de tudo a sua existência, era melhor do que a passada, assim como a futura jamais seria tão sofrida.
O optimismo iria manter-se em alta, durante os vinte e sete meses seguintes, que culminaram com o fim da comissão.
Daniel Costa – in Jornal da Amadora

2 comentários:

Auréola Branca disse...

Olá, Daniel, passei aqui para comentar sua visita no meu blog e o recado.

Muito grata.

Espero ver (e ler) mais vezes seu blog.

daniel disse...

auréola branca

Eu, a mim também cabe agradecer.
Sempre de pé um permanente convite, para a passagem!

Daniel