sexta-feira, 14 de novembro de 2008

RECORDAÇÃO

Vou contar um segredo
Sentia frémito, suave vibração
Quando fui guardador de patos
Com a manada ia para o Val Medo
Ninhadas do tipo marrecos *
A mãe sempre criava
Em procura no ciclo da carôcha **
Do guardador porfiava
Na imensidão do campo
Guardar agradava
O mar em frente
No princípio do Verão
Os patos deglutiam o molusco
Com sofreguidão
O pastor olhava patos e vastidão
Podia entregar-se às nostalgias
Muito comuns então
Sonhava com outro mundo
O eterno desconhecido
Seria melhor de antemão
Aquele não o sentia cruel, não
Seria como um universo de papel
Ali andavam os patos
Não se cansavam
Sempre direitinhos
Engordavam como calmos gaiatos
Pareciam gostar da gamela
Muito juntinhos
Não precisavam de trela
Até que valiam vinte paus
Comprava-os o regateiro ***
O que, na sua carroça
Aparecia primeiro
O guardador ainda criança
Saberia ser feliz…
Agora, talvez um bom petiz!...

Daniel Costa

NOTAS:
* Raça de patos comuns
** Chama-se assim à caracoleta no concelho de Peniche
*** Corresponderia ao almocreve



quarta-feira, 12 de novembro de 2008

COISAS DA VIDA

ACÁCIO BARRADAS

Trago aqui uma das minhas figuras inesquecíveis, que reparo, ao longo da caminhada foram muitas, se bem que para as considerar assim, apresentaram um grande humanismo, a par de outros valores que mostraram.
Neste caso esteve o jornalista Acácio Barradas, falecido no próximo passado dia 26/l0/2008.
Por uma vida, demasiado absorvente, da minha parte, confesso não lhe ter prestado a atenção que me merecia.
Vi-o pela última vez, a falar para a RTP, num dos programas da série, sobre a Guerra do Ultramar, em que falou sobre Angola, onde de facto tinha trabalhado, como jornalista.
Por 1973, trabalhava no extinto jornal “Diário Popular” e ao mesmo tempo dirigia a revista “Rádio & Televisão”, propriedade da mesma empresa do jornal.
A capa era feita a cores, o que motivava, não ser executada nas oficinas do jornal. Era-o então na empresa, onde trabalhava. Todas Sextas-Feiras, cabia-me apresentar ao Director, para recolher fotografias e outros elementos.
A visita dava-se à tardinha, na mesma hora, em que devia acabar a reunião de agenda, para a feitura do número da semana seguinte. Acontecia por vezes, a mesma ainda não ter começado, era normal dizer que voltaria depois.
Assim procedia, até que um dia Acácio Barradas, olhou-me de frente, mirando os presentes, onde se encontravam nomes, hoje sonantes, das letras e disse: “o Daniel é da casa, deve sentar-se e assistir ás reuniões”.
As fotografias a cores raramente estavam prontas, quando acabavam as reuniões. Enquanto as esperava, fui conhecendo, internamente, todos os mecanismos do jornal, desde oficinas, sala de trabalho dos jornalistas, câmaras escuras (onde se revelam fotografias) a impressionante sala dos telex, com estes ininterruptamente a matraqueando a sós, recebendo notícias de todo o mundo e por fim a própria expedição do jornal,
Foco um episódio a que assisti: tinha-se sido eleição da miss Portugal, muita matéria específica, para a revista.
Ao telefone com Vera Lagoa, que coordenava, sobre algo que envolvia noticiário, havia complicação por problema com Ramiro Valadão, o então, director poderoso da RTP:
- Acácio Barradas:
Quero que o Ramiro Valadão se “F”…
Repare-se: era antes da Revolução, no fim olhei-o, este percebeu:
- Que queres? Para conseguir o que se pretende, no próprio interesse deles, por vezes é necessário ser bruto. Verás que assim consigo! Vê tu que a Vera ainda me disse:
- Ai Acácio!...
Em Janeiro de 1974, dada a escassez de papel, devido ao boicote internacional, que estava a ser feito, ao Governo de Marcelo Caetano, tinha havido necessidade de reduzir páginas do jornal.
Várias rubricas foram omitidas, necessariamente. Uma delas era a secção “Filatelia” de Sábado, conduzida por Costa Júnior. Porém, o Acácio Barradas sabia de andar a trabalhar nela. Sem qualquer intenção dei-lhe conta da saída, no mesmo momento agarrou no telefone, do qual falou com o Costa Júnior, disse:
- “Meu caro, saiu a revista “Franquia”, esta semana tens de fazer a tua secção “Filatelia” e editar texto a propósito”.
Não é que saiu?...
Acácio Barradas, que faleceu com 72 anos, depois de passar pelo “Dário de Notícias”, ainda colaborava no “JL – JORNAL DE LETRAS, ARTES E IDEIAS”.
Um artigo seu, do número de 17 a 23 de Setembro noticiava a morte de um amigo comum, João Leitão, que falecera repentinamente, estando em gozo de féria no Algarve.
Coisas da vida!...


Daniel Costa

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

LISBOA CAFÉ - 24

BAIRRO DE SANTA CRUZ

Da Pascoal de Melo, as instalações do que em pouco se transformara em grandiosa empresa, esta mudou para um novo prédio na Rua Tomás de Figueiredo, em Benfica, junto do Bairro de Santa Cruz, como se fizesse parte do mesmo.
As instalações consistiam na parte baixa do grande prédio, a parte que se destinariam, a partir da construção, talvez licenciadas para ser oficina de automóveis e talvez garagem para recolhas afins, mas o que não pode ser transformado em Portugal? Tratando-se de uma grande empresa, como já o era o Circulo!...
Até às novas instalações, seria difícil verificar o quanto a empresa estava em crescimento, espalhava-se por mais do um dos andares e não se podia ter uma visão geral das proporções, que cresciam dia a dia.
Em Benfica havia só uma sala, um grandioso espaço, para funcionamento dos escritórios. A decoração ia revelando-se simples, moderna, criada a propósito e adequada à funcionalidade.
João Moisés, como conhecia o sítio, viera cair ali como num mundo encantado e quando não se ausentava por serviços externos, nas horas da refeição acabava por ser o cicerone de serviço, para indicar e recomendar restaurantes na zona.
Um assíduo companheiro era o Zé, que embora o tenha definitivamente adoptado como émulo, ao mesmo tempo era um amigo e um bom camarada e comparsa.
Com uma certa mania de intelectual e muito dado a leituras, de que fazia parte o esporádico uso de cachimbo, era mais um acto de intenção que estimularia o Zé.
Então este um dia apareceu também armado dessa interessante peça, que certos fumadores gostam de usar. Fumando a sua cachimbada, foi insinuando e exibindo o cachimbo, com três cortes de faca e atirou propositadamente:
- Sabes o porquê destas marcas?
- Atónito, o interlocutor ouviu o que não se fez esperar: cada vez que vou tendo o prazer de estar com uma miúda e fico com a certeza que vesti a camisola amarela, assinalo aqui e repara que o vou conseguindo e tu como é que sabes?
- Possivelmente, nunca terás conhecido tão inebriante prazer!...
Havia testemunhas e acabou tudo de taxa arreganhada, com esta novidade.
Convém esclarecer, que embora não muito distantes os tempos, ainda não tinha sido atingida a liberdade sexual e essa consumação na noite de núpcias era então o supremo acontecimento.
Um dia entrou ali uma nova empregada, jóia mesmo, embora não fosse, nem de longe aquela mulher matadora e insinuante, era um amor. O Zé logo se enlevou e fez a conquista, ambos sempre juntos para o almoço e como no fundo era amigo de João Moisés, este foi sempre companheiro e a garota seguia-o, por vontade própria ia revelando também amizade e companheirismo.
O ambiente, tornava-se extremamente agradável, enquanto pairava algo a intrigar o espírito de João Moisés, algo não muito bom, que o fazia reflectir, cismando o porquê, já que a qualidade de trabalho estava a dar nas vistas ao próprio administrador, o catalão José Maria Esteve, que já o tinha proclamado em reunião de chefias, confidenciado por alguém presente.
De facto o João já tinha transformado toda a Lisboa em sectores de trabalho, que tinha agradado ao ponto de já ter sido convidado a ir uns tempos para a cidade do Porto, proceder ao mesmo indispensável, para uma distribuição eficaz dos agentes de tutela.
Depois de ser avisado, que a hipótese Porto estava abortada, um alívio que retirava o sentimento de ser obrigado, por dever, a cumprir um desígnio de chefias.
Entretanto, foi convocado, durante dois dias a fazer testes, numa empresa exterior com vista a uma subida. No fim dos mesmos o examinador, perguntara:
- Estando um novo lugar à espera, tem a noção de qual?
O que sabia era confidencial, pelo que apenas respondeu, calcular e o examinador, em jeito de conversa amigável e animada:
- Muito bem, apresento os meus parabéns!...
Dias passados o chefe disse:
- Afinal o resultado foi, que se perderia um elemento eficaz, nos serviços comerciais!
Inacreditável!... Podia provar-se o inacreditável, por trabalho anterior e por outros testes de resultados extremamente positivos, o novo serviço seria adequado!
Foi aí que, interiormente João Moisés intuiu, ainda por outros pequenos indícios, que estava formada uma cabala, um loby, objectivamente, com destino a uma perseguição encapotada mas feroz.
Assunto a ser mais pensado, para tomar as previdências adequadas.

Daniel Costa – in JORNAL DA AMADORA – 2008

sábado, 8 de novembro de 2008

POEMA AREIA BRANCA

AREIA BRANCA

Chamou-se praia da Charrua
Quando a povoação estava nua
Depois Areia Branca
Sazonalmente ali trabalhei
Não devia dizer eu sei
Serventia a pedreiros dei
As primeiras paixonetas
Um pouco a vida ali amei
Olhava a passagem de miúdas
Vinha a sopeirita fardada e bonita
Também a sopeira matrafona
Ares de Dona
Nada de beleza
De observação em observação
Belo tempo de Verão!...
Naquele o Vigia foi erguido
Lá estava ele, entre a terra e mar
Em jeito de vigiar areias
Mulheres bonitas e feias
Diria democrata
Reservado a gente de gravata
Jogava e se divertia
Confraternizava e a noite vivia
As marés e praia vigiavam de dia
Ali amei e deixei amores
Trabalhei e vivi meus senhores!

Daniel Costa

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

POEMA VÍCIOS

VICÍOS

Apelidar de desperdícios
Todas as actividades
Relacionadas com vícios
Fumar, comer ou bebericar
Jogar, muitos outros tentar
Dir-se-á que são tiques
Os vícios serão de experimentar
Ver e aprender estará bem
Desde que não se passe o limiar
Passar o patamar será doce
Mas causa danos de arrepiar
Por exemplo, se drogar
Causará incompatibilidades
Com terceiros, que a notar
Sofrendo serão os primeiros

Ao prazer
Vícios podem suceder
Quem se vicia, arrisca-se
Prematuramente a perecer
Quem gostar de viver
Terá de procurar outro prazer
Deixar o vício tomar poder
É achar-se forte, mandão
Afinal prepotente,
Doente então
Deixou que o vício o domasse
Na sua vida entrasse
Qual sereia, que atrai e enleia
Transforma
Na sua própria teia
Contra o vício, sejamos fortes
Não é, o danado, a doce Hermengarda
É como demónio de espada
Denodadamente içada

Daniel Costa

terça-feira, 4 de novembro de 2008

LISBOA CAFÉ - 23

O CRESCIMENTO DE UMA EMPRESA

O João Moisés estava de facto a viver e a colaborar com entusiasmo no crescimento de uma empresa editora de uma grandeza insuspeita, efectivamente.
De primeiro a entrar, destinado a serviços externos de tutela, a controlar agentes de vendas em tempos livres, ia assistindo à entrada de outros colegas directos de trabalho. Entretanto o primeiro consistiu na divisão da cidade de Lisboa em sectores. Cada um ia pertencer a um agente, de preferência a morar no mesmo, um trabalho muito interessante. Tudo ficava anotado na fixa respectiva: nome de rua especialmente, que era percorrida de carro e a pé, a procurar que tudo ficasse muito claro, para quem quer que necessitasse de a utilizar.
Isto acarretou um conhecimento profundo da cidade, o que era extremamente agradável, para quem tanto gostava da mesma. Ainda os sectores não estavam todos prontos, enquanto já eram seleccionados colaboradores externos de vendas, que por sua vez, começavam a fazer uma rápida formação, com acompanhamento até junto dos primeiros sócios. Enfim contactos e um trabalho aliciante.
Depois entrou novo inspector de tutela, mais outro, a seguir mais. O Circulo de Leitores crescia imenso e em toda a linha. Por força entrava muita gente e dos vários quadrantes, para todos os sectores.
Um dia entrou o Zé, para destinou-se a serviços de contabilização, tudo o que dizia respeito a entregas e vendas aos funcionários externos. Depressa elegeu o João Moisés como seu émulo, não havia explicação para o caso, pois era um bom e competente camarada.
O primeiro motivo interessante que matinalmente trazia sob observação era um pedaço de mulher, que se vinha exibir sem roupas, de janela aberta e sem cortinas, frente ao espelho a maquilhar-se. Um dia veio à sala do colega e amigo, que tinha elegido como rival, mostrou o “achado” dizendo:
- Onde e quando descobriste borrachos destes para observar: De facto o panorama descoberto pelo Zé, na janela fronteiriça era digno de se ver, um “voyeur” não encontraria maior deleite.
Chegara-se, dia para dia a um desenvolvimento cada vez mais rápido, recrutavam-se muitos agentes locais, que depois da formação, equacionariam melhor o tempo extra a despender, com a nova ocupação e concluiriam ser demasiado, ou que o trabalho não se adequaria às suas capacidades e apresentavam escusa. Além de que o crescimento estaria a ultrapassar previsões, por muito optimistas que fossem.
Havia sócios, que tendo dito sim na promoção, depois não confirmavam, com o envio de carta para a empresa, havia os provenientes da promoção amizade, desgarrados dos sítios já preenchidos a com o seu agente, porque aí ainda não tinham chegado os ventos da nova e eficaz promoção.
A esses era necessário ser um delegado a passar e dar assistência.
Um dia, os noticiários, tratavam do inédito, de facto, um assalto a um banco em Campolide. Não contando o “assalto” ao banco na Figueira da Foz, por Palma Inácio, que mais tarde foi dado como político, era o primeiro feito a uma agência bancária no país.
Vendo os contornos, só podia ter sido levado a efeito por alguém sem a “preparação” adequada, que apenas utilizou o efeito surpresa e João Moisés logo disse: fizeram tão ingenuamente o trabalhinho, que a judiciária depressa resolverá a questão, eu próprio em poucos dias descobriria toda a trama. O amigo Zé, sempre do outro lado, nem pensou e saltou, lá estás tu, resolvias logo e pronto!...
O facto é que passados poucos dias se sabia que a “obra”, seria (?) uma experiência de dois estudantes, que já tinham sido identificados, apanhados e presos.
O interessante da questão é que os dois rapazes, estando hospedados na mesma casa, duma rua do chamado Bairro do Actores, por os arruamentos terem todos a sua toponímica dedicada a essas relevantes figuras, sem o saber ao certo, o João Moisés, em serviço da empresa, tocou a campainha da porta.
A locatária, saturada de atender jornalistas, que ali se apresentavam, ou por telefone, escusava-se a contactos, mas falou de dentro, ouvindo do que se tratava, ficou muito curioso e interessado em saber mais. Conseguiu refinar a sua maneira de fazer relações públicas até que a senhora acabou por abrir a porta e desabafar.
Era outra no fim, tinha dito o que se lhe acumulara na alma, o medo deu lugar a uma pessoa de índole extremamente interessante e interessada e João Moisés cheio de contentamento, pelo que achava ter feito um bom trabalho, pois levara a confirmação assinada, tinha acabado de nascer uma sócia!
Do rápido florescimento resultou, as instalações da Pascoal de Melo em breve terem-se tornado exíguas. O armazém de livros nascera em Benfica e para o mesmo edifício transitou toda a empresa, outra amplitude, mais espaço e melhores condições de laboração!

Daniel Costa - in JORNAL DA AMADORA - 28/02/2008.

sábado, 1 de novembro de 2008

POEMA AVENTURA

AVENTURA
A vida é aventura
É-o mesmo que seja
Extremamente dura
A minha se bem contada
Faria chorar
As pedrinhas da calçada
Quiçá o átomo
Mas que nada
Olhemos com optimismo
A sempre fiel amada
Esquecer, não resulta
Equacionar tormentos, sem fim
Resultaria muito ruim
Falo das boas recordações
Dirão muitos:
Mundos de ilusões!...
Falar só em jeito de aventura
Da vida, é atitude segura
Pressupõe optimismo de puritano
Brinquedos, digo em segredo
Só os que fabriquei – aventura!...
Hortas e árvores
As que semeei e plantei
De cereal, confesso que sei
Em enologia total trabalhei
Por fim de sol a sol
Ceifando a jorna ganhei
Tentar perseguir
Alguém ainda cavador
Devia ser vergonha
Dos prepotentes senhores
No Circulo de leitores
Mais audácia e arrogância
Deveriam ter quando expulsos
Prepotentes, que podiam fazer?
Trabalhassem com lisura
Muito tinham de aprender
Deveriam ter sido subservientes!...
Jamais necessitaria de dizer sim
A prepotentes
Nada de hombridade
Criaram ambientes
Pior que masmorras da PIDE
Devem!…
Nunca responderam porquês
Podem, continuar a ser prepotentes!
Oh Zeus!...
Mais uma aventura adeus
Sei trabalhar, Há mais a fazer
Outra aventura
Encontrarei outros ateus!।


Daniel Costa


NOTA: Fernando Pessoa escreveu isto (cito do cor): “Não há empregados maus, há é empresas que têm empregados maus.”