terça-feira, 4 de novembro de 2008

LISBOA CAFÉ - 23

O CRESCIMENTO DE UMA EMPRESA

O João Moisés estava de facto a viver e a colaborar com entusiasmo no crescimento de uma empresa editora de uma grandeza insuspeita, efectivamente.
De primeiro a entrar, destinado a serviços externos de tutela, a controlar agentes de vendas em tempos livres, ia assistindo à entrada de outros colegas directos de trabalho. Entretanto o primeiro consistiu na divisão da cidade de Lisboa em sectores. Cada um ia pertencer a um agente, de preferência a morar no mesmo, um trabalho muito interessante. Tudo ficava anotado na fixa respectiva: nome de rua especialmente, que era percorrida de carro e a pé, a procurar que tudo ficasse muito claro, para quem quer que necessitasse de a utilizar.
Isto acarretou um conhecimento profundo da cidade, o que era extremamente agradável, para quem tanto gostava da mesma. Ainda os sectores não estavam todos prontos, enquanto já eram seleccionados colaboradores externos de vendas, que por sua vez, começavam a fazer uma rápida formação, com acompanhamento até junto dos primeiros sócios. Enfim contactos e um trabalho aliciante.
Depois entrou novo inspector de tutela, mais outro, a seguir mais. O Circulo de Leitores crescia imenso e em toda a linha. Por força entrava muita gente e dos vários quadrantes, para todos os sectores.
Um dia entrou o Zé, para destinou-se a serviços de contabilização, tudo o que dizia respeito a entregas e vendas aos funcionários externos. Depressa elegeu o João Moisés como seu émulo, não havia explicação para o caso, pois era um bom e competente camarada.
O primeiro motivo interessante que matinalmente trazia sob observação era um pedaço de mulher, que se vinha exibir sem roupas, de janela aberta e sem cortinas, frente ao espelho a maquilhar-se. Um dia veio à sala do colega e amigo, que tinha elegido como rival, mostrou o “achado” dizendo:
- Onde e quando descobriste borrachos destes para observar: De facto o panorama descoberto pelo Zé, na janela fronteiriça era digno de se ver, um “voyeur” não encontraria maior deleite.
Chegara-se, dia para dia a um desenvolvimento cada vez mais rápido, recrutavam-se muitos agentes locais, que depois da formação, equacionariam melhor o tempo extra a despender, com a nova ocupação e concluiriam ser demasiado, ou que o trabalho não se adequaria às suas capacidades e apresentavam escusa. Além de que o crescimento estaria a ultrapassar previsões, por muito optimistas que fossem.
Havia sócios, que tendo dito sim na promoção, depois não confirmavam, com o envio de carta para a empresa, havia os provenientes da promoção amizade, desgarrados dos sítios já preenchidos a com o seu agente, porque aí ainda não tinham chegado os ventos da nova e eficaz promoção.
A esses era necessário ser um delegado a passar e dar assistência.
Um dia, os noticiários, tratavam do inédito, de facto, um assalto a um banco em Campolide. Não contando o “assalto” ao banco na Figueira da Foz, por Palma Inácio, que mais tarde foi dado como político, era o primeiro feito a uma agência bancária no país.
Vendo os contornos, só podia ter sido levado a efeito por alguém sem a “preparação” adequada, que apenas utilizou o efeito surpresa e João Moisés logo disse: fizeram tão ingenuamente o trabalhinho, que a judiciária depressa resolverá a questão, eu próprio em poucos dias descobriria toda a trama. O amigo Zé, sempre do outro lado, nem pensou e saltou, lá estás tu, resolvias logo e pronto!...
O facto é que passados poucos dias se sabia que a “obra”, seria (?) uma experiência de dois estudantes, que já tinham sido identificados, apanhados e presos.
O interessante da questão é que os dois rapazes, estando hospedados na mesma casa, duma rua do chamado Bairro do Actores, por os arruamentos terem todos a sua toponímica dedicada a essas relevantes figuras, sem o saber ao certo, o João Moisés, em serviço da empresa, tocou a campainha da porta.
A locatária, saturada de atender jornalistas, que ali se apresentavam, ou por telefone, escusava-se a contactos, mas falou de dentro, ouvindo do que se tratava, ficou muito curioso e interessado em saber mais. Conseguiu refinar a sua maneira de fazer relações públicas até que a senhora acabou por abrir a porta e desabafar.
Era outra no fim, tinha dito o que se lhe acumulara na alma, o medo deu lugar a uma pessoa de índole extremamente interessante e interessada e João Moisés cheio de contentamento, pelo que achava ter feito um bom trabalho, pois levara a confirmação assinada, tinha acabado de nascer uma sócia!
Do rápido florescimento resultou, as instalações da Pascoal de Melo em breve terem-se tornado exíguas. O armazém de livros nascera em Benfica e para o mesmo edifício transitou toda a empresa, outra amplitude, mais espaço e melhores condições de laboração!

Daniel Costa - in JORNAL DA AMADORA - 28/02/2008.

16 comentários:

Laura disse...

Olha moço, isso faria cá um jeitão agora, teres uma Editora tua e ajudavas-me a promover e fazer e explicavas o melhor para o sucesso de vendas dos meus livritos!...era isso...Beijinhos.

Pelos caminhos da vida. disse...

Bom dia!

Hoje tenho um selinho especial para vc, passe lá pegar.

beijooo

poetaeusou . . . disse...

*
e narrativa
continua,
no capitulo dos assaltos,
a seguir foi á carrinha
do banco de portugal . . .
,
um abraço,
,*

NAELA disse...

Daniel mais um post magnifico, que apetece sentar e ver o filme! A tua descricao e fantastica e nos leva a viajar pelo tempo!
Obrigado por partilhar a tua historia;)
Beijo doce

SÓ EU disse...

Gostei do seu post, Daniel, pena que estou longe.
Estou à sua espera. Não postei nada hoje, mas ainda há muita coisa não explorada.
Um beijo,
Lucienne

Carla disse...

que bela narrativa que aqui nos deixas
beijos

Carol disse...

Brigada pela visita!
=D

Pelos caminhos da vida. disse...

Obrigado pela visita!

Bom dia.

beijooo.

EternaApaixonada disse...

*****

Olá Daniel,

obrigada pela visita ao meu mais novo blog. Você é muito gentil!
Lá irei colocar o que já tenho pronto e farei, certamente, outras fotomontagens, pois tem sido uma boa distração...
Mais uma narrativa que nos prende ao blog! Me encanta a maneira como escreve, nos levando a visualizar cada passagem...
Aos poucos irei "conhecer" um pouco Portugal!
Bom final de tarde, ótima noite!
Beijos

PS: Estou desde cedinho tentando deixar o comentário. Inclusive postei sobre essa dificuldade hoje no Sintonias do Coração

*****

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Oi, Daniel!
Lembrei-me de ti ontem quando li num jornal literário um dos Poemas que Machado de Assis fez à época em homenagem a Camões. Se permitires, o trarei aqui, amanhã, pois hoje o tempo me atiça.
Pois bem, o que posso depreender é que o nosso herói, João Moisés, é um cara dinâmico, tipo pau-pra-toda-obra...e assim, vamos conhecendo Portugal através da "tua pena", do teu olhar.
As favelas não existem porque os seus habitantes "gostem" de ser favelados, elas são o resultado da ausência de vontade política dos poderosos, infelizmente. Como eu gostaria de só falar das belezas magníficas do Brasil e do mundo, mas esse lado obscuro existe e não podemos fazer-lhe vista grossa.
Obrigada por sua opinião sempre bem antenada e me aguarde. Até amanhã, se Deus quiser!Bjs

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Amigo:
Não consigo comentar nada. Fiz um post a duras penas em memória a uma pessoa que perdi. Peço que me dê uma força, indo ao meu Blog.
Obrigada desde já,
Renata

SÓ EU disse...

Estou à sua espera.
Lucienne

Olhos de mel disse...

Lindo amigo Daniel! As suas narrativas são impressionantes, porque nos dá uma visão da pessoa e do cenário. Assim, aos poucos vamos conhecendo mais um pouquinho dessa terra querida.
Beijos

Laura disse...

Ah, um beijinho e um abraço apenas, andei pla rua em passeatas sem fim e assim não vim cá dar-te os bons dias..Um xi, de mim..

Desnuda disse...

Amigo Daniel, e assim vou me informando em detalhes! Obrigada

Beijos

mariam disse...

Daniel,
continuação da epopeia do engenhoso, dinâmico e empreendedor João Moisés... este e os outros episódios podiam muito bem ser adaptados para cinema... dariam boas cenas decerto!

um abraço
mariam