quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A GALENA

O QUE É UMA GALENA?
Muitos não saberão o que foi um aparelho radiofónico, que julgo ter sido pouco utilizado, o qual tomou o nome de GALENA.
Pensando no assunto e porque me coube o privilégio de usar um desses receptores, proporcionando-me um período de rara felicidade, nos meus tempos de juventude.
Tentarei descrever o aparelhómetro.
Verificando vários dicionários e enciclopédias, não encontrei este nome, senão mencionando um metal como sendo um dos mais vulgares dos minerais de chumbo. Por outro lado, fazendo uma recolha, pude verificar serem os cristais de galena usados como detectores na T.S.F.
Depois destas breves pesquisas, conclui que a denominação de GALENA para o citado aparelho emissor de ondas de rádio, vem do metal galena, visto ser um pedaço desse, o principal elemento funcional da citada peça radiofónica.
Nos tempos em que utilizei o tal aparelho, porque foi na década de cinquenta, só a Emissora Nacional possuía capacidade de difusão, para se fazer ouvir com tão rudimentares recursos, que dispensava energia eléctrica. Lembro contudo de ter conhecimento da Rádio Graça, a difundir da Rua da Verónica e dos Emissores Associados de Lisboa. Com certeza haveria outros.
Ainda não existia TV em Portugal e a rádio sendo já uma "senhora", era uma coisa de real sedução.
Por isso a GALENA era uma verdadeira atracção, até pelo gozo que proporcionava, uma vez que era um autêntico "faça você mesmo". Ainda muito miúdo lidava bem com a atraente geringonça!
Primeiro estendia um longo fio desde o cocoruto de uma árvore até uma janela, que havia no sótão. Antes da entrada, três elementos de louça ligados com a ponta do fio, evitavam qualquer contacto entre a parede e o mesmo, daí derivava a ligação para o interior. Depois uma extensão segura a uma pedra enterrada no chão, fazendo a necessária "terra" a completar o exterior. Chegado o Verão, tornava-se necessário regar o chão, afim de ser criada a humidade necessária ao contacto com as ondas de rádio.
Aquilo era de uma simplicidade que, por falta de uma parte dos elementos, começou por funcionar apenas com fios, com ligações aérea e terráquia, a uma ficha cada, uma das quais ligada a um pedacinho de galena, a outra estabelecia o contacto com a Emissora, com a busca de qualquer saliência a dar essa possibilidade. Um auscultador apenas fazia chegar a emissão ao tímpano respectivo, que por sua vez só era audível com aquele elemento pegado mesmo ao ouvido.
Mais tarde chegou o resto do material, que se resumia a quatro tabuinhas, com as quais foi montada uma caixa própria encimada com um pequeno rolo de vidro, onde era introduzido o tal pedaço de galena e uma espécie de monitor, composto por um fio de forma encaracolada. Ficava mais prática, rodando a peça, a forma de entrar no som do posto da Rádio Nacional. A mesma estrutura ficava a constituir o rudimentar rádio, tinha acopladas as respectivas ligações referidas anteriormente.
Evidentemente que hoje, por puro entretenimento, ainda se podia montar um destes sistemas tanto mais que já cheguei a ver apresentado um exemplar num célebre programa de televisão, que dava pelo nome de 1-2-3.
Claro que, para montar o esquema, seria necessário espaço abundante fora de zonas citadinas, porque nestas é reduzido.
No entanto com a vivência dos dias de hoje não se pode pôr algo do género em equação, basta ver que a rádio de há cinco décadas, nem funcionava todo o dia, não havia ainda satélites, para se ter no ar todas as transmissões efectuadas actualmente, por tudo e por nada, em todo o mundo moderno.
Daniel Costa, in JORNAL DA AMADORA

23 comentários:

Laura disse...

Qué bueno chico!... Que magia não senti ao imaginar-te a percorrer aqueles espaços e a levar a tua, avante!....Miudo, foste um felizardo por poderes ter essas experiências sendo tão rapazito!...
Adorei.
Quandoe stava em Serpa Pinto e na casa do meu amigo havia um rádio e este por vezes avariava, rádio amador! e ele falava e as sepulcrais palavras; escuto terra tal e tal bláblá, escuto; e nada, era um nervoso pois estavmos no mato!Graças que lá ia dando e ficavamos todos aliviados, pois estavamos todos pendentes daquela geringoncinha da qual tantas vidas pendiam!... Abraçoooo da laura.

rosa dourada/ondina azul disse...

Belas recordações. Hoje carrega-se no botão e já está... É o progresso...



Boa semana,

Lisa disse...

Oláaaa Dan...

Se me pergutasse antes de ler este interessante texto sobre o que é Galena...garanto a ti que não saberia dizer...rsrsrs...

Obrigada pelo carinho víu?!

Maravilhoso dia e uma semana regada de mto sucesso...amor e carinho pra ti...

Beijosss...

Olhos de mel disse...

Poxa lindinho, nunca ouvi falar nesse aparelho. Mas pelo que foi dito, uma grande invenção. É de uma pequena descoberta que se chega a grandes invenções...
Beijos

Liz / Falando de tudo! disse...

ta explicado, pelo menos um pouoc, pra esclarecer melhor a historia da GALENA.
beijos

Celia Rodrigues disse...

A mim me parece meio mágica a era do rádio. Todos a ela se referem com tamanho saudosismo, um tanto nostálgicos e até românticos. Eu não sabia da tal galena.
Até mais!

Anja Rakas disse...

A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prémio. Não sejamos vítimas ingénuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.
Mário Quintana

Anja Rakas disse...

Querido Daniel..
Sao apenas 9.58 e já me sinto perdida...
Bjs

jo ra tone disse...

Daniel,
Com a galena podia ouvir-se a Emissora Nacional.
Eu com um búzio, ouvia o barulho do mar.
Outra coisa:
Então qual era o comprimento de onda? É que eu cheguei a construir um "passo em frente" (antena)para a banda do cidadão.

xistosa - (josé torres) disse...

Daniel
Eu sou assim.
A Galena, tenho a certeza que era aquela sua vizinha que o fazia ver e ouvir coisas estranhas ...
Pudera!
Diz a minha mulher que é, PbS, nomes que se chamam a alguém que não se grama.
Um grama de galena, talvez fosse pouco, pois a massa atómica do chumbo ... bem , isto foi só para lhe dizer, que também ouvi por uma galena.
Tive ajuda, já lá vão muitos anos, mas ainda me lembro bem da minha ajudanta.
É por isso que a internet é assim ...
Ouvia-se e por vezes, (muitas), víamos ...

Que tempos esses de coisas tão descuidadamente feitas.

Vou desaparecer por uns tempos.
Não muitos, talvez ...
mas ao seu cantinho, ao da Laura e ao da Joice Worm, quero ver se não falho.
(vou deixar algo programado para ser publicado, aliás já está, nem sei se retire tudo ... vou pensar!)
Se falhar, desculpe-me ...
Agora vou visitar a Laura, que esteve, onde estive ...

Um até já!

Nanda Assis disse...

oi dani, vc sempre cheio de informação isto é um blog mil e um.
bjosss...

Carla disse...

o prazer que tenho de te ler, advem principalmente do facto de aprender sempre algo novo nas tuas palavras...Galena vai entrar para o meu dicionário através do teu belo texto
beijos

Maria Laura disse...

Recordações de um tempo que já lá vai. Agora é tudo com telecomando e alta tecnologia. :)

NAELA disse...

Galeno interessante post, detalhado que nos leva a uma viagem ao passado, aos instrumentos que hoje prevalecem na memoria de alguns.
Daniel tiveste o privilegio de o usar...
Beijo terno

Mariazita disse...

Daniel
Quando li o título, a palvra GALENA não me soou estranha...
E lembrei-me. Era eu muito pequena, o meu irmão mais velho andava por lá com uma geringonça dessas. O meu pai ralhava, dizia que, se fosse descoberto, ele (pai) é que sofria as consequências; que tinha rádio em casa, para quê andar com "essas porcarias"?
Isso era proibido, não era? Tenho uma vaga ideia...
Não era eu que pagava as contas (rsrss) mas parece-me que na altura tinha que se pagar para ouvir rádio...francamente já não me lembro, tenho apenas uma ideia muito vaga...
De qualquer modo gostei muito de ler a descrição que fazes.
Beijinhos
Mariazita

daniel disse...

Mariazita

Sorri ao teu comentário!
O teu pai reagiu talqualmente o meu, ralhou e creio que a Galena, que o tio deixara para mim, certo dia disse que precisava dela e levou. Nunca ninguém me tirou da cabeça, ter havido interferência do pai.
Fiquei com grande desgosto.
Não, não era proibida, mas tinha de se tirar licença, como para qualquer aparelho de rádio.

Anja Rakas disse...

Olá...
Volto com vontade férrea de aqui pertencer...
Bjs

GUILHERME PIÃO disse...

Não conheço (acho) esta tal de Galena, mas por aqui na minha época tinhamos uns aparelhos que eram terriveis....
E as válvulas então, quando se queimava uma era duro encontrar para repor, uma tragédia...
Mas hoje estamos bem.....eheheh (acho)
Abraços

poetaeusou . . . disse...

*
e mais uma
aula brilhante . . .
,
abraço,
,
*

Ana Diniz disse...

Daniel.

É incrivel como o mundo de cinqüenta anos atrás era diferente do de hj. As pessoas se informavam mais, preocupavam-se com a qualidade da mensagem, eram cultas e liam muito. Os meios técnicos eram postos em segundo plano. A tecnologia não agilizava, mas também não impedia. Imagina um JOVEM DE HOJE com uma Galena dessas? Ele não iria ouvir como gente. Poderia até brincar com ela, mas não a levaria a sério. A tecnologia de hj facilita tanto... Detesto televisão em geral. Ouço pouco rádio. Sou louca com internet. Leio jornais e revistas - não consigo parar de ler. Veja quantos meios à nossa disposição. Veja quanta facilidade. A informação falta bater à nossa porta e pedir "pelo amor de Deus" para entrar. A multiplicidade é tanta que nos permite escolher. A qualidade da mensagem varia de acordo com o público. Como vc vê, tento agregar-me ao que gosto. Pretendendo apurar sempre este gosto.

A Galena é uma lição, não uma aberração.


Beijos...

Ana

Ana Diniz disse...

O olhar pra trás nos mostra o que somos hj.

Bjos, querido.

Obrigada por me instigar à reflexão.

o que me vier à real gana disse...

Mais um óptimo blog. Parabéns!

Marianinha disse...

Nunca ouvi falar em galena,,,rsss,,,,