quinta-feira, 25 de setembro de 2008

LISBOA CAFÉ - 18

NOITES DO RESTELO

Sem se desconcertar e porque não podia estar em descanso, deu início a uma nova tarefa. Teria apenas a duração de um mês.
Foi apresentada e dourada, como de chefia, cargo que podia condizer com o perfil de João Moisés, mas decididamente não, logo não podia ser assumido na plenitude. No entanto a dedicação ao que havia a fazer, em qualquer circunstância, era uma faceta da sua personalidade.
Os tempos eram agora muito difíceis, até porque João Moisés havia subido a um patamar social de certo nível, muito para além do próprio meio, onde agora se movimentava, não obstante as mutações observadas, enquanto procurava nova integração.
No princípio dos anos setenta, constatava-se não haver falta de trabalho indiferenciado, mas sim lacunas de qualificações e evoluções geradas por esta. Várias vezes foi ouvido:
- Não nos serve, queremos alguém sem qualquer qualificação e como hoje os bons lugares estavam reservados a clientelas políticas, cujos dotes estão apenas num cartão de filiado.
No tempo dos afilhados podia só saber pensar, mas eram afilhados!
Porém, uma vivência rica pode ser feita de experiências, mas aconteceu que, no mês quatro de setenta, chegou ao trabalho numa empresa que dava pelo nome de Centro Técnico de Desinfecções.
O cargo era mesmo de chefia, o que dava direito a carro para condução própria de trabalho e recolha de outros empregados, a qualquer hora do dia ou da noite, assim como para transportar os materiais necessários para executar tarefas exteriores.
Não havia qualquer horário de trabalho específico, podia acabar-se um ás quatro da manhã, vinha-se para casa e logo ás onze um telefonema do escritório e… lá estava outro serviço.
A entrada processou-se num dia de chuva miúda, de tal modo que o campo de visão era restrito. O começo iniciou-se com algumas instruções do própria patrão sobre a carrinha “Citroen” que, cabia a João Moisés conduzir.
Deu como resultado, talvez também por falha nos travões, embater num autocarro da Carris estacionado, cujo não sofreu danos, porém a carrinha ficou um pouco amolgada.
O trabalho do dia ficou por aí, mas à noite a casa a chamada: Havia que efectuar a limpeza e desinfecção de todas as instalações de um afamado restaurante de Cascais.
O serviço foi executado de madrugada e até nem correu mal para início. Culminou com uma mesa cheia de boas gambas, para todo o pessoal da desinfestação. Alguns colegas eram alheios ao trabalho, mas fingiram bem, pois tinham sido convocados, por causa do costumado “banquete” e como prémio da empresa prestadora daqueles serviços, a que pertenciam de facto, mas noutro ramo.
A seguir, calhou uma operação interessante, a desinfecção de um grande casarão nas arribas da praia de S. Bernardino, perto de Peniche. Tinha sido mandado construir havia pouco, por uma senhora americana.
Criadagem havia para quase todas as dependências e era bastante visível.
A vagem foi feita no “ Mercedes” do próprio patrão, que comandou o que não seria necessário, mas terá aproveitado para viajar até à vila piscatória de Peniche onde, terminado o trabalho houve o almoço, com a lógica liquidação pela firma.
Contratações, eram diárias, por vezes de dia e à noite, para o caso de restaurantes ou hotéis. Alguns destes eram conhecidos de João Moisés, que ficava com a estranha sensação que se os clientes conhecer as unidades, na acalmia da noite, ficariam enojados de terem feito ali qualquer repasto.
O engraçado é nunca se ter feito a desinfecção em tascas e mesmo assim!... Baratas eram tantas, nem se sabia onde havia espaço para se esconderem da luz do dia, tanta bicharada!...
Certa madrugada, bem de madrugada, depois de um serviço de desinfecção a duo, conduzindo a carrinha, deixou o colega em casa, em Valejas e apanhado a auto-estrada de Cascais, por volta da bifurcação para Benfica, chegou a fraqueza em forma de leve sono, que passou ao lado, mas suscitou susto.
Deu para ficar desperto, até finalmente descansar por quanto tempo?
Não haverá vivências: O homem é que as faz. Decididamente, a ocupação era engraçada, pondo de parte aquilo, a que se achava ser exploração laboral, para posto de observação era óptimo, mas como as ambições estavam noutro lado, por elas continuava a lutar.
Certo dia a convocação chegou, para a limpeza dos insectos de um hotel de Sagres, estadia de três dias no mesmo, para o que se havia de ir preparando. Trabalho de noite, durante o dia descanso, com algumas idas à praia e a observação como a indústria de turismo ia chegando a todo o Algarve.
Estávamos ainda em 1970, deu-se a viagem no “Mercedes”, do patrão, com este a mostrar a excelência duma condução feita num daqueles caros topo de gama e a estadia, mais uma vez era adoptada por este, tanto mais que desta vez era de conta do hotel.
Os dois empregados ficaram instalados nos quartos de dormir destinados a motoristas particulares, eram óptimos.
Para as refeições foi destinada sala própria, sendo o serviço igual ao de todos os funcionários de cozinha. Havia sido destinado um rapaz dos seus quinze anos, a servir tudo o desejado, disse ser destacado e para receber todas as ordens nesse sentido.
João Moisés, já se instalara em diversos hotéis, porém um tão eficaz atendimento de restauração nunca tinha conhecido.
O trabalho só se processava à noite, porque para ser diurno, teria de haver interrupção dos serviços a prestar ali.
Chegou a vez de se fazer uma desinfecção a uma pousada a uma pousada no litoral alentejano, após trabalho nocturno, um serviço e uma experiência também interessante.
Na volta para Lisboa, o almoço processou-se num restaurante de Santiago do Cacém.
Afinal quem comandava, nunca tinha sido João Moisés e o colega, antes da liquidação, informou ser usual mandar fazer factura com uma quantia mais elevada, ficando o suplemento a distribuir pelos comensais intervenientes.
A firma pagava após serem apresentadas contas.
Depois, o que andava a ser equacionado passou-se naturalmente. Não tinha decorrido trinta dias e era apresentada a renúncia. A patroa a comandar a retaguarda, no escritório, mostrou zanga, o patrão mostrou o seu indesmentível bom relacionamento e afirmou:
- Apesar de ver em si, sempre bom funcionário, observando-o e reparei que este tipo de trabalho estava longe das suas aptidões e justas aspirações, razão porque não lhe cheguei a entregar a chefia como o pretendido e para a qual o havia contratado.

Daniel Costa

25 comentários:

Marta disse...

É um prazer continuar a ler sobre Lisboa antiga...
Obrigada pela visita...
Deixo um abraço, infinitamente carinhoso...
Beijos
Marta

poetaeusou . . . disse...

*
amigo,
a odisseia do moisés,
bate de longe
o biblico moisés,
,
narrativa pura,
as tuas prosas,
parabens,
,
abraço
,
*

xistosa - (josé torres) disse...

Comer gambas desinfestadas, ou com o dito, coitado do João Moisés e compinchas.
Quando subimos, temos que ter a noção que depois também se tem que descer.
Por exemplo, para mim é mais fácil subir a uma árvore que descer.
Por isso aprendi que um mamoeiro tem o trnco oco e que quando não aguenta com a carga, atira-a para o chão, que pode ser o leito dum riacho pedregoso.
As coisas que a vida nos ensina.
O João Moisés, em 70, também já devia ter aberto os olhos.

Então um hotel no ALLGARVE, não na altura ainda éramos pobrezinhios, era Algarve, com um quarto e um miúdo de 15 anos, a servir tudo o desejado.
Vou tentar ler que não li ... esta passagem ...

Não me quero alongar ... mas o João Moisés, se fosse mais atento, teria chegado a patrão ...

Este indivíduo que escreve isto é um má língua!

Olhe, amigo Daniel.
Perdoe-lhe!

ANA DINIZ disse...

Respondi de coração ao seu comentário por lá.

Eu volto, com calma, para saborear o seu texto.


Beijos, amigo.

Ana

o que me vier à real gana disse...

Belo texto!
Daniel, se quisermos, mandamos mesmo! Temos, primeiramente, k ter consciência do NOSSO PODER... claro k é o voto, mas essa coisa insignificante é PODER.
Continuação de excelência no teu blog!

Maria Laura disse...

Nem sempre as pessoas têm "perfil" para certo tipo de trabalhos... Gosto sempre de ler estas tuas crónicas.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Meu amigo Daniel:
Fiz um post com aquele monte de coisas que vc já sabe, pois o meu irmão foi transferido para o hospita adequadoe fiquei feliz. Só está faltando o poema de um português vivo, pois pus um estrofe de um poema de um morto. Vou pegar o seu poema do post anterior, ok? Se tiver algum problema, me avise. Espero vc lá agora, porque vc é sempre um dos primeiros.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Laura disse...

Ahhh, merecias melhores cargos sempre, mas , a sorte é para quem tem de a ter!... e eu que o diga...
Beijinhos da laura.

Bandys disse...

Daniel,
Perdoa,
Não li tudo, mas vim desejar um lindo final de semana,
beijos

Olhos de mel disse...

Oie lindo! Realmente se conhecessemos determinadas áreas de certos restaurantes e hotéis, jamais comeríamos algo. Mas quer dizer que no final de tudo o coitado nem foi qualificado? Mas é assim a vida.
Bom fim de semana! Beijos

Nanda Assis disse...

delicia de leitura.

bjhoss...

Lisa disse...

Oiiii mocim Dan...

Obrigada pelo carinho ...tb aprecio mto teus textos são ótimos...

Desejo a ti maravilhoso final de semana com ternura...

Beijosss...

Laura disse...

Olá, agora até comias as tais das gambas mesmo desinfestadas ehhhhhh...
Ainda havia gente com sorte... Beijinho e feliz Domingo.

mariam disse...

a caminha de João Moisés...desta vez fora das portas de Lisboa... conheço todos esses sítios... viajei também!

um bom fim-de-semana

um abraço outonal
um mimo
e um sorriso :)

mariam

ah!
os poemas infra, são cheios de realidade e sensibilidade. gostei muito!

Mariazita disse...

Daniel, que bem descreves aqueles tempos (sem esquecer, de vez em quando, fazer a comparação com os tempos actuais...rsrss)
Continuamos a acompanhar a vida do Moisés que, coitado, não tem tido muita sorte.
Mas é a realidade. Pouscos são os afortunados...
Obrigada, mu amigo, por mais este excelente texto.
Beijinhos
Mariazita

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Daniel, meu Amigo!
Vai pra ti em primeira mão: " O CÉU DE LISBOA". Se gostares, coloco dedicatória...Como sempre e seguindo a Tradição dos Grandes Escritores Portugueses, continuas nos brindando com seus contos, histórias mil das Terras D'Além Mar!
Ótimo final de semana!!!Bjssss
(olha, tive uma trabalheira danada pra fazer aquela resenha, risosss)

Desnuda disse...

Daniel, gosto de te ler...Escreves minúcias que move nossa imaginação...

Beijos e ótimo domingo.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Daniel:
Venha ver o meu post, hoje, domingo, pois fico tão triste aos sábados e domingos, pois quase ninguém vai. Pus seu poema Diamante, fico lindo.
Espero por vc.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Mac Adame disse...

Depois de uma pausa poética, eis que volta a prosa. Ambas de boa saúde, diga-se.

vero disse...

Gosto de te ler meu amigo :)


Beijinhos

Mariana disse...

Beijos e ótima semana.

o que me vier à real gana disse...

Quando não há novos posts, podemos ler os antigos. Isto aqui é bom, logo vale a pena! Os livros é k estão a ficar para trás...

Laura disse...

Bem se vê que o menino andou na passeata no fimd e semana...
Pois o dia esteve ameno e hoje parece que será igual, que o sol brilhe para ti como brilha aqui em Braga neste momento..beijinho de dia bom...

Maria Dias disse...

wmdjcyhHoje li sobre o Rio antigo...Me deu saudade de um tempo em q não vivi...Acho q o mesmo acontece com com você ao recordar Lisboa.Lindo poema abaixo...
Aproveito para te convidar a vir até o meu Avesso...Mudei de cores e troquei os móveis de lugar...Te espero.

Beijo1

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Daniel:
Vc está doente? Porque é a terceira vez que venho aqui para convidá-lo a ir ao meu blog apreciar o meu novo post. Como vc é sempre um dos primeiros, estou estranhando. Pus o seu poema Diamantes.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com